No Rio, favela pede socorro e denuncia maior chacina policial da história do estado


07/05/2021 - Helcio Duarte Filho
Operação policial que já conta 25 corpos ocorreu apesar de decisão do STF que as proíbe durante a pandemia.

Interior de uma das residências invadidas pela polícia na Favela do Jacarezinho na manhã deste dia 6 (crédito: Francisco Proner).

 

Organizações da sociedade civil estão clamando à população para que denuncie o que já é considerada a maior chacina em operações policiais da história do Rio de Janeiro e se solidarize com a comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Uma das iniciativas no Twitter pede que seja postada a hashtag #ChacinaDoJacarezinho.

Em três horas horas, 25 pessoas haviam sido mortas numa operação da Polícia Civil autorizada pelo governo do Estado na favela da capital fluminense, nesta quinta-feira (6). A legalidade do próprio início da ação na comunidade está sendo questionada por organizações de direitos humanos por contrariar uma decisão do Supremo Tribunal Federal que proíbe tais atos durante o período de pandemia, exceto em situações inevitáveis e sob acompanhamento das instituições judiciais.

Vídeos e fotos com denúncias de moradores da favela relatam cenas de execução à queima-roupa na comunidade, quase todas as vítimas são jovens e a maioria negra.

De acordo com a corporação, a ação, intitulada ‘Operação Exceptis’, foi comandada pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, com apoio de outras unidades, “contra a atuação de traficantes que estariam aliciando crianças e adolescentes para integrar o Comando Vermelho”, facção que explora o território.

O resultado da ação, que ainda não estaria totalmente concluída, contradiz qualquer tentativa de proteção a adolescentes. Moradores e a Defensoria Pública do Estado denunciam que um homem que teria entrado em uma casa fugindo do cerco foi executado dentro do quarto de uma criança de oito anos, com a menina no cômodo. Também há relatos de alterações nas cenas dos crimes.

O governador do Estado, Cláudio Castro (PSC), não explicou as razões de contrariar a decisão do STF e desencadear a operação durante o mais grave momento da pandemia da covid-19. Castro é aliado do presidente Jair Bolsonaro, que defende as atuações ilegais de milícias e a violência policial.

Visivelmente emocionado, o advogado Joel Luiz Costa publicou vídeo no Twitter afirmando que o que estava presenciando demonstrava que não há democracia na realidade vivida nas favelas. “Isso aqui não democracia, não é nada do que a gente pensa que é viver em sociedade, é muito cruel você estar na rua, sentar com os amigos para tomar uma cerveja, fazer coisas triviais que todo ser humano faz, viver a vida e ver uma dezena de marcas de tiros na porta de um bar, de uma loja de cosméticos, cano estourado, balas e balas no chão, ninguém merece isso”, disse. Ele integra o Instituto de Defesa da População Negra, que atua no Jacarezinho.

O aumento da letalidade policial em operações em bairros populares e periféricos também vem sendo denunciada por organizações de direitos sociais e humanos em São Paulo.

Revolta

O diretor de base e servidor do TRE Elizaldo Veríssimo, o Ely, também se pronunciou em uma rede social sobre a chacina. Republicamos abaixo o texto:

Tem tanto sangue na rua que a água que temos mas veias não basta.
Tem muito pano passando lá fora, mas quanto estamos passando aqui dentro?
Não nos incomodamos com 412 mil mortos em um ano e meio. Por que nos incomodariam 25 assassinatos em um dia?
Não são atores, não são estrelas, não são pessoas…
São apenas pretos pobres, quase pretos, quase gente.
São apenas trabalhadores emboscados na descida do morro, dentro do metrô, dentro de casa…
E foram assassinados pelo Estado, pela mão armada do Estado, pelo Estado a serviço da elite, pelo Estado sem direito que engoliu o estado de direito.
Foram assinados por uma instituição que assassina desde que foi fundada.
Aliás foi fundada pra isso. Civil ou militar.
E faz isso sob aplausos de alguns que não são poucos. Com cobertura de imprensa e tudo.
Não houve erros. Não foram equívocos. Foi tudo pensado, planejado nos detalhes, no sadismo dos detalhes. Porque podiam. Porque podem. E fazem isso desde o início. E porque estamos calados desde o início.

Mas essa gente nunca teve direito mesmo…
Não foram assassinados. Foram cancelados. E nem CPF tinham.
Cassaram-lhes a concessão.
Por isso estamos aqui, ao longe, pensando em como o turismo será prejudicado. Ou não, sei lá. Talvez até ajude.
Porque, com um genocida dando a linha e a norma, todo genocídio é parte.
Viu? Nem todo mundo morreu de covid. Mas vai estar no atestado de óbito que foi covid, talkei? Porque a imprensa e os ativistas são assim mesmo…
E alguém vai falar que o policial que morreu, foi só queima de arquivo ou bucha de canhão.
Foi. Mas vão falar, porque ativista sempre fala.
Não passamos pano. Passamos ao largo…
#ChacinaDoJacarezinho

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