Sarau de 68 anos SASP difundiu talentos e resgatou a luta por direitos democráticos

Sindicato da advocacia paulista integra o Movimento em Defesa da Justiça do Trabalho, juntamente com o Sintrajud e dezenas de organizações.

O Aniversarau de comemoração do Sindicato dos Advogados do Estado de São Paulo, no último dia 18, foi mais que uma festa e espaço de difusão de talentos. Nos 68 anos da entidade, os participantes lembraram que a advocacia paulista, de larga trajetória democrática, não passou incólume pela ditadura empresarial-militar. O SASP, legalizado pela primeira vez em 1952, teve a carta sindical cassada pelo então ministro do Trabalho do ditador Costa e Silva, o coronel do Exército Jarbas Passarinho, três meses antes da edição do Ato Institucional nº 5 – o mais duro do regime dos quartéis, sob o qual o Congresso Nacional foi fechado, tornou-se corriqueira a prática de tortura por agentes do Estado e dezenas de pessoas “desapareceram”. Só em 1985 o Sindicato recuperou a legalidade de representação da categoria.

Ainda que em meio à pandemia, que exigiu o respeito ao distanciamento social para preservação da vida, a festa online emocionou e resgatou trechos importantes da história do país e dos direitos humanos e sociais.

Colegas da categoria judiciária participaram e o Sintrajud esteve entre as instituições da classe trabalhadora que prestaram homenagens à organização coirmã.

Advogada, servidora aposentada do TRE e diretora do Sintrajud, Cláudia Sperb apresentou Pequeña serenata diurna, do cubano Silvio Rodriguez, e Rosa dos Ventos, de Chico Buarque, a capela. Além de Valsinha, também de Chico, ao piano.

A apresentação foi uma forma de homenagear o Sindicato dos Advogados e cantores e compositores que “tiveram um engajamento e produziram trabalhos de protesto”, num momento em que o resgate da atuação artística de cunho social é também uma forma de resistência sutil ao embrutecimento da sociedade.

Servidora do TRT-2 e escritora Scheilla Brevidelli também se apresentaria no sarau, declamando duas poesias que relatam o dia a dia como funcionária pública e versam sobre como era seu contato com os advogados. “Eu conversava bastante com eles no balcão aberto, e também na Avenida Ipiranga [um dos antigos fóruns trabalhistas da capital, antes da inauguração do Ruy Barbosa, onde hoje Scheilla está lotada]”, relatou à reportagem.

Em razão das dificuldades técnicas que têm sido comuns nessas atividades que dependem do congestionado tráfego de dados na rede mundial de computadores em tempos de pandemia, e do atraso na lista de apresentações do sarau, Scheilla não pode entrar na live. Publicamos, no entanto, suas produções abaixo como forma de registro da homenagem e de suas reflexões.

A direção do Sintrajud parabenizou a categoria pela longevidade da entidade sindical da advocacia. “O SASP é um patrimônio não só dos advogados e advogadas de São Paulo, mas da classe trabalhadora. Sindicato que se posiciona, que sabe o seu lugar na história. Sempre em defesa dos direitos sociais. Gigante. Um verdadeiro polo de resistência”, afirma a mensagem apresentada pelo também dirigente Henrique Sales Costa. “Temos muito orgulho de atuarmos em conjunto no Movimento em Defesa da Justiça do Trabalho, junto com outras entidades aguerridas presentes, enfrentando esse grave momento de desmonte dos direitos mais básicos”, aponta Henrique.

Poemas de Scheilla Brevidelli

O guerreiro do direito

Admiro tua coragem
De índio-guerreiro
Que se pinta
Com a cor
Da força
Da impetuosidade
Da parcialidade
Tão eloquente…
Tão envolvente…
Tão convincente…
Curvo-me diante
Da tua paciência
Resignação diária
Que teu olhar carrega
Pelas longas filas
Pelas longas escadas
Pelas longas esperas
Quando o que mais esperas
Eu sei
Talvez seja um sorriso
Um bom ouvido
Que ouça atento
E curioso
Tuas longas estórias
Tão cheias de vida
Tão cheias de brilho
Tão risíveis
Porque encerram sempre
Contradição e conflito
O embate

De que te alimentas
Tanto me agradam
Estas tuas estórias
Que já não posso me imaginar
Sem elas
Querelas
Contendas
Que tanto me ensinam
Iluminam
E me envolvem
Misturam
Nossos olhares
Nossos risos
Nossas opiniões
E esquentam
Meu coração
Que para sempre está enfeitiçado
Por essas faíscas
Que saem
Do teu discurso
Dos teus poros
Dos teus olhos
De guerreiro-advogado
Por vezes tão mal afamado
Por usar em tua luta
Uma arma tão poderosa
Como é o Direito
Veículo da Justiça
Que repara
Veículo do Abuso
Que lesa

Tribunal

No Tribunal há injustiça
Há quem trabalhe com preguiça
Há inveja, há malícia
Há a dor e o calor
De quem trabalha com amor
E tudo vê
E ainda crê
Que tudo possa mudar de cor
A cor da gentileza
Da presteza
Que cria uma nova beleza
Construída com a competência
Com a paciência
De quem sabe que cada dia
Esconde uma magia
A arte de criar alegria
Entre o papel e a burocracia

 

Assista ao vídeo abaixo: