Pessoas morrem sem oxigênio e Bolsonaro briga por Enem e cloroquina no Amazonas

Desespero percorreu as redes sociais: "Misericórdia, é muita gente morrendo", disse mulher em vídeo gravado em hospital de Manaus

Com o Brasil e o mundo estarrecidos com o que se passa em Manaus (AM), onde pacientes de hospitais estão morrendo asfixiados por falta de cilindros de oxigênio, o governo do presidente Jair Bolsonaro tem entre suas prioridades uma disputa judicial: assegurar a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), neste domingo, 17 de janeiro, no Amazonas.

A decisão de manter a prova, que nacionalmente obrigará mais de seis milhões de pessoas a se deslocarem, vem sendo criticada por entidades sindicais do setor. O caso expressa a aplicação de uma política que tenta impor a normalidade, apesar de cerca de mil pessoas morrerem por dia por covid-19. Inclusive num estado onde pessoas doentes estão morrendo asfixiados por falta de oxigênio e possíveis mutações no vírus, que já preocupam até a Organização Mundial de Saúde.

Em solidariedade ao povo de Manaus, em repúdio ao governo Bolsonaro e por oxigênio e vacina já, um ‘panelaço’ foi convocado pelas redes sociais para esta sexta-feira, 15 de janeiro, às 20h30. O Sintrajud ajuda a convocar e participa da luta pela vacinação gratuita urgente para todos. O Sindicato também participará do lançamento virtual de manifesto proposto pela Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), que defende a Vacinação Já e Gratuita para Todos. A atividade ocorrerá no dia 21 de janeiro, às 17 horas.

Para 1º de fevereiro, está convocando o dia nacional de mobilização pela vacinação já, contra a reforma administrativa e as privatizações. Haverá carreatas nos estados e ato em Brasília. A iniciativa é parte do calendário de lutas do Fonasefe (Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais) e dos fóruns estaduais do funcionalismo público, entre eles o de São Paulo, do qual o Sintrajud faz parte.

SOS Amazonas

Quarenta e oito horas antes do dia em que o problema do oxigênio explodiu e ganhou destaque mundial, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, esteve em Manaus. Na visita, defendeu o uso preventivo de medicamentos sem comprovação científica de que atuam contra a covid-19, como a hidroxicloroquina, e prometeu que tudo que o Amazonas precisasse seria assegurado. O discurso foi reproduzido por Bolsonaro, que voltou a fazer campanha pela cloroquina.

No dia seguinte, Pazuello disse que o envio de oxigênio nas quantidades e nos prazos necessários seria impossível. Alegou que não havia como descartar as distâncias por terra e água de Belém, capital do Pará, a Manaus. Não explicou porque mais aeronaves não poderiam ser utilizadas para evitar que pessoas morressem sufocadas. O general, que não é médico, foi anunciado no cargo pelo presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2020, como um especialista em logística. Mais tarde, se descobriria ainda que o governo federal voltará a taxar, naqueles dias, o imposto de importação de cilindros de oxigênio.

Desespero

Na mesma quinta-feira (14) em que a Advocacia-Geral da União recorria da decisão judicial que suspende o Enem no Amazonas, circulava nas redes sociais um vídeo que informava que pacientes estavam morrendo por falta de ar e sem acesso a oxigênio. Era um pedido desesperado de socorro da psicóloga Thalita Rocha. “Pessoal, eu peço misericórdia de vocês. Nós estamos em uma situação deplorável. Simplesmente acabou todo o oxigênio de uma unidade de saúde”, disse Thalita. “Não tem oxigênio, é muita gente morrendo! Quem tiver disponibilidade, por favor, traga aqui para o SPA da Policlínica da Redenção. Tem muita gente morrendo, pelo amor de Deus”, prosseguiu.

Pouco depois, a psicóloga disse à jornalista Bruna Chagas, do UOL, que ‘só quem vê o desespero de pessoas pedindo ar sabe o que é isso’. “Nunca pensei que oxigênio seria mais que ouro. Nunca pensei em ver pessoas pedindo socorro, em pleno desespero, clamando para respirar. Desespero total e um monte de gente correndo sem saber para onde correr”, disse.

Em outro vídeo, um médico intensivista do Hospital Universitário Getúlio Vargas, da Universidade Federal do Amazonas, relatou os momentos dramáticos que vivenciou, ao lado de outros servidores, para tentar salvar vidas. Disse que, apesar de todos os  esforços e de transferência de alguns doentes para outras unidades, três de 27 pacientes morreram.

O pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, disse que, de acordo com relatos que recebeu de profissionais da saúde, “os hospitais viraram câmaras de asfixia”. Disse ainda, segundo o jornal “Folha de São Paulo”, que os pacientes que conseguirem sobreviver podem ficar com sequelas cerebrais permanentes. Dezonove dias antes, no dia 26 de dezembro de 2020, o deputado por São Paulo Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, comemorava e incentivava no Twitter o resultado de uma manifestação contra a adoção de medidas de restrição e distanciamento no Amazonas. “Primeiro Búzios, depois Manaus. Todo poder emana do povo”, escreveu. Exibia na foto de perfil uma imagem do presidente derrotado nas eleições dos Estados Unidos, Donald Trump.