Outubro Rosa: médica fala da importância da prevenção do câncer de mama e saúde da mulher


14/10/2021 - Shuellen Peixoto
Sintrajud entrevistou a ginecologista Mariana Pércia sobre a campanha de conscientização e prevenção do câncer de mama no Brasil.

Outubro, como já é tradicional, é o mês marcado pela campanha de conscientização e prevenção ao câncer de mama que, segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), é o segundo tipo de câncer com maior incidência entre as mulheres e o tipo com maior índice de mortalidade. O Outubro Rosa é celebrado no Brasil e no exterior com o objetivo promover a conscientização e contribuir para a redução da incidência e da mortalidade pela doença, que também pode acometer homens, embora eles representem 1% dos casos registrados no país.

No Brasil, segundo dados do INCA, a estimativa é de que sejam registrados 66.280 casos novos de câncer de mama em 2021, o que significa, um risco projetado de 61 casos a cada 100 mil mulheres. Em 2019, no mundo, a taxa de mortalidade era de 14 mulheres a cada 100 mil.

Para Luciana Carneiro, diretora do Sintrajud, os números chamam atenção para a necessidade de cuidado das mulheres e de maior investimento na saúde pública. “Milhares de mulheres morrem anualmente em consequência do câncer de mama e os hospitais públicos, se a PEC 32 for aprovada, terão ainda menos capacidade de atender a população e de oferecer os exames e o tratamento para nos manter vivas e saudáveis”, destacou Luciana.

A reportagem do Sintrajud também conversou com a ginecologista Mariana Pércia, do Coletivo Feminista de Saúde e Sexualidade (organização da sociedade civil que também realiza atendimentos clínicos e projetos de formação para o autoconhecimento do corpo feminino). A médica falou sobre as formas de prevenção do câncer de mama e fez críticas ao fato de as campanhas do Outubro Rosa incentivarem somente a realização de mamografias como forma de rastreio e o uso mercadológico de um debate que deveria gerar ampliação dos recursos destinados à saúde pública.

Mariana ressalta que a prevenção ao desenvolvimento de cânceres precisa ser também mais debatida, para que menos mulheres cheguem à necessidade de tratar a doença já em progressão. Orientações sobre autoconhecimento do corpo, alimentação e amamentação, práticas esportivas são destacadas pela médica como temas a serem mais abordados nas campanhas. Além disso, a ginecologista destaca que os cânceres têm causas multifatoriais, como a depressão, a depressão no trabalho, a superexploração, as condições de vida e alimentação, e tudo isso precisa ser também discutido nas campanhas para que o desenvolvimento de tumores malignos não traga com ele ainda uma culpabilização das pessoas acometidas pela doença.

A realização bianual de mamografias é recomendada pelo INCA para mulheres com idade entre 50 e 69 anos, mas a ginecologista avalia que é preciso ensinar às mulheres como se proteger do desenvolvimento da doença, antes que seja possível somente a detecção e tratamento.

Mariana Pércia, médica ginecologista do Coletivo Feminista de Saúde e Sexualidade

Entrevista – Mariana Pércia, ginecologista e integrante do Coletivo Feminista de Saúde e Sexualidade

Sintrajud: O mês de outubro, mundialmente, é dedicado a campanhas de conscientização sobre o câncer de mama, diagnóstico e prevenção, como você avalia o Outubro Rosa no Brasil?

Mariana Pércia: Sempre que a gente avalia algo é importante entender sua história e origem. O Outubro Rosa é uma campanha que surgiu no início da década de 1990 nos Estados Unidos, com iniciativas como corridas de rua promovidas pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, em parceria com uma das indústrias farmacêuticas mais famosas do mundo, que hoje é a produtora da vacina AstraZeneca naquele país, e que também é uma empresa importante na produção de medicamentos oncológicos. No Brasil, as atividades do Outubro Rosa começaram no início dos anos 2000.

Apesar de a campanha ser importante, porque traz à tona e nos faz conversar sobre o câncer de mama, que é o segundo com maior incidência entre as mulheres, eu tenho críticas à campanha em si. Eu acho que o enfoque é dado no lugar errado, ao invés de conversar sobre prevenção, educação sexual e conhecimento do corpo, a campanha sempre está focada apenas na realização de mamografias, que é uma forma de rastreamento e não de prevenção.  A outra crítica que tenho é ao que chamamos de Pinkwashing, que são essas ações de pinturas e iluminações rosa nas empresas, que fazem as campanhas propagando a doação financeira para prevenção ao câncer de mama, mas na verdade são campanhas para impulsionar o lucro de empresas que, muitas vezes, produzem produtos comprovadamente oncogênicos, como desodorantes. Pouco se faz pela saúde pública de fato.

Sintrajud: E qual a diferença entre prevenção e rastreamento para o câncer de mama?

O conceito de rastreio tem a ver com aquilo que você faz para achar a doença no início e deve ser feito em nível populacional, para fins de saúde pública, quando comprovadamente serve para diminuição da mortalidade, ou seja, não é qualquer doença que é necessário rastreamento. Já a prevenção tem o enfoque em reduzir os fatores de risco que contribuem para o aparecimento da doença. A questão é que campanhas como o Outubro Rosa, como já disse, se concentram apenas na prática de exames excessivos que ao invés de rastrear podem levar a sofrimento psíquico e realização de procedimentos desnecessários.  Uma pesquisa com base em meta-análise da Cochrane [Organização internacional de pesquisas em saúde] apontou, a partir do rastreio feito com 2 mil mulheres, que pelo menos 10 mulheres saudáveis foram tratadas de forma desnecessária e 200 receberam diagnósticos de alterações, às vezes benignas, que as colocaram em sofrimento psíquico. Por isso, o Ministério da Saúde chegou à conclusão de que a mamografia deve ser feita bianualmente em mulheres dos 50 aos 69 anos, idade em que é mais comum a incidência deste tipo de câncer. Fora dessa faixa, é preciso avaliar histórico familiar para fazer um rastreio específico, e mesmo assim, a regra é que o rastreio deve iniciar dez anos antes do diagnóstico do seu parente de primeiro grau. Infelizmente, temos muitas mulheres que recebem indicação de realização de mamografias antes desta faixa etária e são centenas com um diagnóstico errôneo e tratadas de maneira equivocada, expostas a iatrogenias, que são procedimento médicos feitos de maneira desnecessária que causam danos ao paciente.

Sintrajud: Quais os principais sinais e sintomas? Há hábitos que ajudam na prevenção?

Mariana Pércia: Sim, há formas e hábitos que ajudam na prevenção do câncer de mama, formas de atacar os fatores de risco sem estar concentrado necessariamente em procedimentos médicos. O câncer é uma doença multifatorial, ou seja, não existe apenas uma causa. Os principais fatores de riscos comprovados são sedentarismo, alto consumo de gordura, consumo de álcool, tratamentos de reposição hormonal e depressão. Por isso, os principais fatores protetores são a prática regular de exercício físico, redução no consumo de gordura e amamentação. Estas são formas de prevenção.

Existem também os sinais de alarme que devem ser observados como a saída de um líquido claro da mama, que a gente chama de ‘agua de rocha’, ou um líquido misturado com sangue. Nesses casos é preciso procurar um mastologista. Mas, outros líquidos podem sair da mama e não serem sinais de alerta. Isso era uma coisa importante de propagar, além da importância do exercício físico e dos cuidados com a saúde mental. O problema é que nos foi ensinado, muito pela indústria farmacêutica, que prevenção é igual a procedimentos médicos, o que coloca mulheres aos 40 anos para fazer mamografias desnecessárias, e isso não é prevenção. No entanto, é mais lucrativo, inclusive para os planos de saúde, garantir a exposição a este tipo de procedimento do que a garantia ao direito a amamentação plena, acesso a alimentação saudável e atividades físicas.

Sintrajud: Por que nos últimos anos o autoexame de mamas não é mais o principal método preventivo indicado pelo Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer?

Mariana Pércia: Foi uma polêmica por muito tempo a indicação ou não do autoexame, mas hoje, inclusive baseado no que falei sobre rastreamento, realmente não é o indicado nem pelo INCA e nem pelo Ministério da Saúde, porque não tem relevância na redução da mortalidade [leia aqui]. Através do autoexame muitas mulheres acham glândulas ou microcistos e acabam submetendo-se a exames, biópsias e procedimentos desnecessários. Isso é uma questão.

A outra questão é que devemos sim estimular as pessoas a conhecer seus corpos, porque isso é essencial para gente ter um autocuidado. Infelizmente, isso é muito pouco estimulado tanto pelo Ministério da Saúde quanto pelo Ministério da mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que mais têm se preocupado com a manutenção de poderes dos homens do que com a mulher em si. É necessário campanhas que informem sinais de alarmes. Por exemplo, esses dias vi um folheto de campanha do Outubro Rosa que achei absurdo, porque falava sobre assimetria das mamas como fator de risco, mas toda mama é assimétrica. Na verdade, o importante é conhecermos a nossa mama para perceber quando houver uma diferença fora do seu normal e, neste caso,  procurar um médico.

Sintrajud: Estudos apontam que a taxa de mortalidade entre as mulheres negras é muito maior do que entre as mulheres brancas. Você considera que seria necessária uma abordagem racial também nas ações educacionais e preventivas?

Mariana Pércia: Quando falamos de saúde da mulher negra é preciso falar da vida como um todo das mulheres negras. É muito ruim falar de saúde como se fosse uma coisa isolada, só a mama da pessoa. Saúde é um conceito integral, não tem como falar de saúde sem falar de como as pessoas vivem. E concretamente, por conta do racismo, as mulheres negras vivem em piores condições do que as brancas, vivem relações de trabalho mais exploradoras, têm muito menos tempo e oportunidade de amamentar, sofrem mais com a superexploração do trabalho e têm mais depressão, também muito associado ao trabalho. Como já disse, o câncer é uma doença multifatorial, o que quer dizer que não é possível atribuir a uma única causa, e as mulheres negras estão hiperexpostas a todos os fatores de risco de maneira maior que as brancas. Então, acredito que uma campanha consequente de prevenção ao câncer de mama precisa estar ligada aos cuidados e condições para garantir a prevenção. Não faz sentido uma campanha que fale sobre saúde das mulheres e adicione culpa.

Sintrajud: A precarização e falta de investimento no sistema de saúde podem afetar o tratamento e reduzir a chance de cura e prevenção do câncer de mama em mulheres?

Mariana Pércia: Quando a gente fala de rastreio e achar a doença no começo, é preciso garantir um tempo curto entre diagnóstico e tratamento. A precarização do SUS leva a um aumento deste tempo. O SUS está muito sobrecarregado e a pandemia deixou isso mais visível, a sobrecarga foi aprofundada pela Emenda Constitucional 95, do congelamento de gastos. E, agora, se aprovada, a PEC 32 pode acabar com a saúde pública.

O tratamento de câncer de mama que garanta mais chances de sobrevivência precisa começar na atenção primária, quando é possível chegar ao diagnóstico no inicio e fazer um acompanhamento integral. Porém, os postos de saúde, responsáveis pela atenção primária, estão passando por uma precarização imensa, que perpassa pela terceirização das atividades-fim, falta de admissão de pessoal, fim dos NASF (Núcleo de Apoio a Saúde da Família), entre outros ataques. Isso leva a que as mulheres cheguem para o tratamento com casos muito avançados, porque não conseguem atendimento no serviço primário ou sejam submetidas a profissionais que são pressionados a realizar consultas em 15 minutos.  Então, com certeza, a precarização é um elemento que afeta e aumenta o risco de mortalidade porque torna o tempo entre o diagnóstico e o tratamento maior. Não adianta diagnosticar na mamografia e demorar seis meses para começar o tratamento. Eu defendo e acredito no SUS, e no projeto de saúde integral, que dê acesso a atenção primária e não apenas a hospitais de emergência.

Confira a cartilha do INCA sobre prevenção ao câncer de mama

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