Live do Sintrajud destacou a luta das mulheres negras e sua realidade no Judiciário


24/07/2020 - Shuellen Peixoto
Transmissão marcou a comemoração do Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e de Tereza de Benguela.

A realidade de desigualdades sociais e raciais enfrentada pelas mulheres negras na sociedade e a falta de representatividade no Judiciário Federal foram debatidos na live do Sintrajud, que aconteceu nesta quinta-feira, 23 de julho. O bate-papo virtual foi transmitido no Facebook e no YouTube do Sindicato (veja a íntegra aqui).

A  transmissão online marcou a homenagem ao Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e de Tereza de Benguela, comemorado em 25 de julho, e teve a participação a advogada Cristiane Anizeti, pesquisadora na área de direitos humanos, trabalho e previdência; da socióloga Luciana Barrozo, servidora do TRT-2; da diretora de base Raquel Morel, do TRE; além das diretoras do Sintrajud Luciana Carneiro, do TRF-3, e Maria Ires Graciano, do JEF/Capital.

As debatedoras conversaram sobre o racismo estrutural e a invisibilização das mulheres negras no país.  No Judiciário Federal, segundo o levantamento do CNJ de 2019, apenas 18% dos servidores são negros e negras.  “Quando olhamos para o nosso lado percebemos que somos pouquíssimas mulheres pretas entre servidores e magistrados, nos cargos de chefia então, menos ainda. Isso é um recado velado sobre esta estrutura, é um lugar que não gera conforto porque não vemos nossos pares”, afirmou Luciana Barrozo.

Para servidora, a falta de representatividade contribui para que a estrutura do Judiciário não reflita a sociedade brasileira.  “Um serviço público que não reflete a cara do público que ele deve servir não tem bases para entender a necessidade destas pessoas, por isso temos que discutir seriamente acesso das pessoas negras ao serviço público e políticas de ações afirmativas”, destacou Luciana.

Enquanto entre servidores e magistrados o número de mulheres negras é pequeno, entre as terceirizadas, as pretas são a maioria absoluta. “O racismo é tão cruel que invisibiliza os trabalhadores negros, que no Judiciário estão em sua maioria entre os terceirizados e não entram nas estatísticas, muitas vezes nem sabemos o nome da trabalhadora que presta serviço de zeladoria e limpeza nos nossos setores”, destacou Raquel Morel.

As mulheres negras no Brasil ainda são a maioria entre os desempregados e nos trabalhos mais precarizados.  “O racismo é uma questão estrutural que organiza a lógica de exploração da nossa sociedade, organiza as relações e, por isso, não foi superado apenas com o fim da escravidão”, disse a advogada Cristiane Anizeti. “Nossa história, das mulheres negas, é marcada por nossa luta pela sobrevivência e para ocupar os espaços. Por isso temos que falar e cobrar representatividade em todos os lugares”, ressaltou a advogada.

Para as debatedoras se reconhecer como negra em um país racista como o Brasil é um ato de resistência. “Somos a maioria de pretos no país, não quero que ninguém olhe pra mim e tenha constrangimento de me chamar de preta, eu não sou parda, eu gosto da cor da minha pele. Já fui muito constrangida, hoje  eu não quero mais calar, quero gritar que sou negra e que tenho meu lugar neste país, nesta sociedade”, destacou Maria Ires Graciano.

Para Raquel Morel, a luta é mais ampla, é contra a sociedade que usa o racismo para oprimir e garantir mais lucros, muitas vezes, às custas da vida dos trabalhadores. “Não basta ser mulher e negra, tem que defender os direitos dos trabalhadores”, finalizou Raquel.

Tereza de Benguela

A live também foi o momento de homenagear Tereza de Benguela, primeira mulher a comandar um quilombo – território de resistência à escravização e embrião de organizações sociais de tipo republicano, não centralizados ou hierarquizados com base em critérios dinásticos. Tereza de Benguela foi reconhecida na historiografia como líder do Quilombo do Quariterê, atual Estado do Mato Grosso, por ao menos quatro décadas.

Desde sua fundação, o Coletivo de Mulheres do Sintrajud participa dos atos do Dia da Mulher Negra Latino-americana e de Tereza de Benguela. “Celebrar Tereza de Benguela é celebrar nossa ancestralidade, celebrar sua luta para que não tenha sido em vão, assim como a luta de tantas outras mulheres negras que lutam por justiça e igualdade racial num país que tem um racismo arraigado, um racismo estrutural”, afirmou a diretora Luciana Carneiro.

Em virtude da pandemia do novo coronavírus e da necessidade de isolamento social, este ano a já tradicional Marcha das Mulheres Negras não acontecerá presencialmente. No entanto, a data será marcada por atividades transmitidas pela página da Marcha das Mulheres Negras. Confira a programação e participe.

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