Greve dos caminhoneiros expõe desmonte da Petrobras e coloca governo contra a parede

A greve nacional de caminhoneiros completou quatro dias nesta quinta-feira (27) com um impacto de grandes dimensões na realidade nacional. Dada a extensão do movimento e a grita dos empresários do setor por redução de impostos, analistas de mídia já apontam que a paralisação seria um lock-out com interesses apenas patronais. O rápido anúncio de […]

A greve nacional de caminhoneiros completou quatro dias nesta quinta-feira (27) com um impacto de grandes dimensões na realidade nacional. Dada a extensão do movimento e a grita dos empresários do setor por redução de impostos, analistas de mídia já apontam que a paralisação seria um lock-out com interesses apenas patronais. O rápido anúncio de desabastecimento por parte de supermercados e postos de combustíveis também é visto por especialistas como um indício do forte envolvimento empresarial na mobilização – ainda que “de carona”.

Mas a paralisação vem ganhando apoio na população – em razão da demanda por redução do preço dos combustíveis – e em outras categorias. Petroleiros da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (Minas Gerais), realizaram paralisação de oito horas em apoio aos motoristas de caminhão no dia de hoje. Na Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, houve um atraso de duas horas na entrada no trabalho e um ato em apoio aos caminhoneiros. A diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, filiado à CSP-Conlutas como o Sintrajud, participou deste segundo protesto.

A categoria petroleira prepara uma greve nacional contra a privatização do sistema Petrobras, pela redução dos preços dos derivados de petróleo, a retomada da produção das refinarias e o fim das importações de combustíveis, informa a Federação Única dos Petroleiros (FUP). A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) também está construindo a greve nacional e convoca uma jornada de mobilizações para o próximo dia 30 (quarta-feira) contra as privatizações. A Federação dos Trabalhadores em Educação nas Universidades Brasileiras (Fasubra) foi outra entidade a emitir nota em apoio à greve.

As centrais sindicais brasileiras também se unificaram em apoio à greve e realizaram na tarde de hoje um ato conjunto em frente à sede da Petrobras na Avenida Paulista. A manifestação denunciou que a verdadeira intenção do governo com a atual política de preços e a reação à greve seria parte da política de privatização da empresa. As ações da Petrobras caíram 14% na bolsa nesta quinta-feira.

Ato unificado na Avenida Paulista (crédito: Marcus Vergne).

O protesto também cobrou a redução nos preços dos combustíveis e do botijão de gás (que em 2017 teve uma alta cinco vezes maior que a inflação oficial). Hoje é possível comprar gás de cozinha por valores entre R$ 50 e R$ 108 no território nacional.

Durante o ato, Cibele Vieira, dirigente da FUP, explicou a política governamental que resultou na greve dos caminhoneiros e empurra os trabalhadores do setor petróleo à paralisação. “O que está por trás do aumento do preço da gasolina, do diesel, do gás de cozinha e de todos os derivados de petróleo, é que desde que o Pedro Parente assumiu o comando da Petrobras, a mando do Michel Temer, mudou a política de preços. Tirou o foco da Petrobras do abastecimento nacional e tornou o preço dos derivados flutuante, conforme o mercado internacional. Daí qualquer coisa que acontece causa reajustes, até diários, aqui. Só que no Brasil temos toda a logística da cadeia de produção, refino, distribuição. Nosso preço não tem porque sofrer pressões do mercado internacional”, afirma.

A direção do Sintrajud participou do ato. “As centrais sindicais precisam se unir ao movimento dos caminhoneiros para a construção de uma greve geral que não somente lute contra a privatização da Petrobras, pela redução dos preços dos combustíveis, gás de cozinha e todos os derivados do petróleo, mas para que revoguemos todas as reformas e mudanças legislativas realizadas pelo governo Temer”, afirmou o diretor do Sindicato e servidor do TRT-2 Marcus Vergne, que acompanhou o protesto.

Governo a deriva

Quando o movimento dos caminhoneiros começou o presidente da Petrobras, Pedro Parente, correu à mídia para anunciar que não cederia nas mudanças da política de preços instituída no último período. Mas, no segundo dia da paralisação, anunciou a redução do preço da gasolina em 2,08% e do diesel em 1,54% por meio de corte na Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico). E no terceiro dia da greve anunciou a redução de 10% no preço do diesel por quinze dias. Os caminhoneiros, no entanto, exigem também o fim da incidência de PIS e Cofins sobre o combustível, e a greve segue. Nesta quinta-feira as transportadoras aderiram formalmente ao movimento.

Parente foi ministro do Planejamento, da Casa Civil e das Minas e Energia dos governos Fernando Henrique Cardoso, e em sua gestão o país viveu o período do “apagão” energético (2001 a 2002).

Confira a campanha de esclarecimento realizada pela FUP

 

A administração Parente também alterou a política de produção de hidrocarbonetos no país. O refino interno de petróleo foi reduzido para 70% da capacidade operacional da Petrobras, segundo relata vídeo produzido pela Federação Única dos Petroleiros (FUP). A mudança significa que o país exporta petróleo cru a preços mais baixos e recompra o combustível refinado mais caro no mercado internacional. A Federação aponta um crescimento de 96% na importação do setor nos dez primeiros meses de 2017 em relação ao mesmo período 2016.

Essa operação aumenta o custo ao consumidor e afeta também a balança comercial. Os preços da gasolina e do diesel subiram cerca de 50% nos últimos dois anos.

Ainda que haja dúvidas sobre o caráter da mobilização caminhoneira, analistas de diversas áreas apontam a responsabilidade do governo na situação em que o país se encontra. A política de preço dos combustíveis e derivados, os leilões de petróleo inciados no FHC, em 1999, e continuados nos governos Lula, Dilma e Temer, o desmonte da Petrobras, a entrega exploração da camada do pré-sal ao capital estrangeiro e a ausência de políticas que construam alternativas de modais de transporte são apontados como elementos que ajudam a encarecer o preço dos combustíveis em tempos de crise do petróleo.

Para o economista Francisco Carneiro, a redução do preço dos combustíveis não pode significar simplesmente mais benefícios para o empresariado. “Não temos que rever tributos que incidem sobre combustível. Se a política do Temer é, de fato, entreguista, a da Dilma está longe de ter sido positiva. Foram anos de todas as benesses para as montadoras. A gasolina principalmente não pode ser desonerada nunca. O diesel, principalmente por conta dos ônibus e transporte público, e o gás de cozinha podem, dentro de um processo de reforma tributária mais geral. Mas jamais podemos perder de vista que nosso objetivo deve ser a transição da indústria e dependência automobilística que nossas cidades vivem para um modelo que garanta o direito de ir e vir das pessoas, o direito à cidade de maneira integral e a luta pela diminuição dos impactos socioambientais, com a redução do uso dos combustíveis fósseis”. Carneiro integra a coordenação da Auditoria Cidadã da Dívida.

O petróleo e a saúde

Desde novembro do ano passado especialistas vêm denunciando que a alta do preço do gás de cozinha, que teve início em agosto, quando mudou a política de preços do setor, tem incidido também no sistema da saúde.

Em dezembro, o G1 publicou aumento das ocorrências de queimaduras atendidas no Hospital da Restauração, em Recife. Neste mês, o jornal ‘O Povo’, do Ceará divulgou outro levantamento apontando que em razão da alta dos preços do botijão de gás, também foi identificado no Estado um aumento do uso de carvão, álcool ou lenha para cozinha e, em decorrência, também aumentaram os acidentes.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) divulgada pelo IBGE em abril deste ano identificou também um aumento de cerca de 1,2 milhão de domicílios brasileiros usando alternativas como lenha e carvão para o cozimento de alimentos em 2017 se comparados os dados de 2016. Embora o Instituto não associe apenas à alta de preço o crescimento do uso de fontes de energia mais perigosas – colocando também a hipótese da falta de acesso, especialmente nas áreas rurais -, a combinação alta do custo de vida, do desemprego e dos preços do gás podem ter impactado nos dados. O uso de energias “sujas” como o carvão e a lenha trazem diversos riscos à saúde respiratória por si só, além do impacto nas ocorrências de acidentes.

*Com informações de agências e das centrais sindicais.

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