Eu, Daniel Blake e a realidade de milhões de trabalhadores

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Quem já precisou resolver qualquer problema por telefone e teve que passar por horas à  espera de operadores de telemarketing e da burocracia, vai se identificar de imediato com o novo filme do premiado cineasta britânico Ken Loach, autor de filmes como Terra e Liberdade (1995), Pão e Rosas (2000) e Ventos da Liberdade (2006).

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016, o filme Eu, Daniel Blake, conta a história de um carpinteiro de 59 anos que sofreu ataque cardíaco e, por isso, está impedido de trabalhar por recomendações médicas. Para garantir o próprio sustento, Daniel Blake (Dave Johns) precisa do auxílio-saúde dado a quem está em situação semelhante na Inglaterra.

É aí que começa a saga do protagonista. Resistente a tecnologias, Daniel tem de passar pela enorme burocracia do Estado, que lhe exige comprovação da impossibilidade de seguir trabalhando, através de formulários online, entrevistas intermináveis e chamadas telefônicas automatizadas. E mesmo com a indicação médica, ele tem o auxílio negado.

Em meio a essa luta interminável pela sobrevivência e por sua dignidade, Daniel ainda encontra forças para ajudar a jovem Katie (Hayley Squires), desempregada e mãe solteira de dois filhos. Katie vai morar em Newcastle (cidade onde o filme se passa), por não conseguir auxílio-moradia em Londres.

Assim como milhares de mães desempregadas, Katie abre mão de suas refeições para alimentar seus filhos. Em uma das cenas mais dramáticas, Katie vai buscar sua cesta básica e, no ápice da fome, abre uma lata e come extrato de tomate.

O filme é um retrato dos efeitos da crise sobre os trabalhadores; por isso é impossível não traçar um paralelo com o Brasil, com as filas intermináveis por emprego, o aumento do número de moradores de rua, o fim de muitos direitos trabalhistas e, agora, a proposta de uma Reforma da Previdência que aumenta a idade para aposentadoria.

Talvez a genialidade do filme esteja no fato de ser a representação da situação de milhares de trabalhadores em todo o mundo. É impossível não se identificar com Daniel e Katie e não se indignar com a impotência deles frente à burocracia do Estado,  que os transforma em “seres inúteis”, já que não conseguem trabalhar e gerar lucro na sociedade de mercado.

Mas o filme não é só sobre a crise, é sobre solidariedade. Daniel consegue estabelecer uma relação paternal com Katie, tornando-se também um avô para os seus filhos. Mesmo diante das dificuldades, eles encontram forças para ajudar um ao outro. Por isso, o filme é também uma mensagem de esperança e de que é possível resistir, mesmo em tempos de tanto individualismo.

Em seu discurso, quando recebeu a Palma de Ouro em Cannes no ano passado, Loach expressou sua intenção com o filme: chamar a atenção para a situação dos trabalhadores. “Agradeço ao júri por sua sensibilidade. É importante que continuemos fazendo esses filmes e que eles sejam premiados para chamar a atenção. Dar voz aos que não têm voz é um gesto estético, e político”, declarou.

Confira o trailer aqui.

ONDE ASSISTIR EM SÃO PAULO?

Cine Caixa Belas Artes | Consolação
16h20 / 20h50

Kinoplex Itaim | Itaim Bibi
14H10

CineARTE | Cerqueira César
14h40 / 19h20

Espaço Itaú de Cinema – Augusta | Cerqueira César
14h00 / 16h20 / 21h40

Reserva Cultural | Bela Vista
15h00 / 17h50 / 19h20 / 21h20

Cinespaço Santos

14h00/ 16h30/ 18h50/ 21h00

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