Crise abre disputa pelo ‘novo’ e trabalhadores têm que construir projeto alternativo, diz economista

Foto: Joca Duarte

 

O economista e professor Plínio de Arruda Sampaio Júnior afirma que crise é “tempo de mudança” e de disputa do ‘novo’. Na crise política e econômica que o Brasil atravessa, a burguesia tenta adotar um projeto para o país que não foi elaborado aqui, mas em países de economia mais desenvolvida – “a burguesia brasileira nem projeto tem”, observa.

O professor discorreu sobre a gravidade da crise, para uma plenária atenta ao debate transcorrido durante o 10° Congrejufe, o congresso da Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário federal e do MPU, realizado em Águas de Lindóia (SP), de 27 de abril a 1° de Maio. “Temos 1 de cada 4 trabalhadores desempregados, 64 mil mortos [por homicídio] por ano. Para entender isso é fundamental entender o impacto devastador das transformações capitalistas e da crise capitalista sobre a economia da sociedade brasileira. Na economia, a crise está destruindo a indústria brasileira, é um processo que já vem desde a década de 80, mas que se aprofunda e se acelera agora, após 2018”, disse.

Plínio falou no mesmo painel que o economista e também pesquisador da Unicamp Márcio Pochmann. Em comum na análise dos dois, a constatação da gravidade da crise e a necessidade de construção de uma alternativa dos trabalhadores, em análises permeadas de ideias que dão o que pensar. Os painelistas, no entanto, discordaram em muitos pontos, como na avaliação sobre para onde caminha o país com as políticas atualmente em curso. Este texto não se estenderá, porém, na explanação de Pochmann, que ficará para reportagem que sairá em seguida, na sequência da cobertura do que aconteceu no 10° Congrejufe.

Crise política

Sobre política, Plínio Sampaio Jr. afirmou que a Nova República está numa crise terminal. “Crise é tempo de mudança. Entender a crise é entender o que morre e o que nasce, e toda luta política se polariza em torno destas duas questões: a briga do velho contra o novo, porque o velho resiste à morte. E a disputa do novo, qual é o novo? O que vai ser colocado no lugar do velho, essa é a questão real, e os trabalhadores precisam entender que a burguesia tem um projeto para resolver a crise”, disse. Esse projeto, alertou, se traduz na aplicação do ‘ajuste fiscal’ no curto prazo e na transformação do país numa feitoria moderna.

Ao final, destacou a necessidade de os trabalhadores construírem urgentemente um projeto que se apresente para a classe como alternativo às propostas da burguesia. Disse que a reforma da Previdência é sem dúvida a principal batalha do momento. Mas ponderou que, mesmo o combate a essa reforma deve ser pautado no contexto da defesa de que outro mundo e outro projeto são possíveis.

“O combate à reforma da Previdência é a primeira batalha que está posta, nós temos que enquadrá-lo dentro de uma estratégia. Qual é a força que a gente precisa? Nas ruas, nós vamos à unidade com greve geral. E já temos que ter um projeto alternativo. Nós queremos reforma da Previdência? Nós queremos reforma da Previdência, mas não o desmantelamento da Previdência. Nós queremos melhorar, mais acesso, mais benefício, melhor financiamento. Mas isto exige outra política econômica, nós temos que enfrentar a política econômica. Nós temos que falar ‘ajuste, não’, nem pequenininho, como queria a Dilma, nem maiorzão, como queria o Temer, e nem amazônico, como prega o Bolsonaro. Vamos fazer ajuste no deles, direitos já! A gente precisa falar isso para o povo”, defendeu.

Veja trechos da palestra do professor Plínio de Arruda Sampaio Jr. no 10° Congrejufe

 

Projeto da burguesia

“A burguesia não está de brincadeira; ela tem um projeto; o projeto é: nós vamos pra cima dos trabalhadores, nós vamos pra cima das políticas públicas, nós vamos pra cima do meio ambiente. Esse é o projeto geral, não é um projeto da nossa burguesia, que a nossa burguesia nem projeto tem, ela é colonizada. Esse é um projeto que vem de Washington, que vem lá do centro. E como é que ele se faz aqui? Ajuste! O que é o ajuste no curto prazo? Arrocho, ajuste no curto prazo é oferecer negócios pro capital, privatização, reforma da Previdência, que não é nada de reforma, é um desmantelamento da Previdência para criar um negócio, dívida pública para aqueles que não querem fazer negócios reais. Esse é o ajuste no curto prazo e a categoria sabe, porque já se levantou contra isso, já fez uma greve longa sobre esse assunto”.

Feitoria moderna

“E no longo prazo, se o projeto deles der certo? O que eles querem do Brasil? Se o projeto Ponte para o Futuro, projeto Guedes der certo, no longo prazo o que é o Brasil? O Brasil seria uma mega feitoria moderna, e eu tenho uma discordância do meu querido amigo Márcio, uma discordância profunda que a gente tem que discutir. O que tem pela frente para o Brasil? Transformar o Brasil num latifúndio, numa economia primária exportadora, numa economia extrativista. Estas são as frentes de expansão que o capitalismo novo reserva à periferia latino-americana”.

Século 19

“Nessa nova divisão internacional do trabalho, não há espaço para a indústria, não há espaço para uma economia organizada nacionalmente. O que eles propõem aqui é uma economia colonial, com tudo que vem junto: trabalho neo-escravo, estado neo-escravo, cultura neo-escrava, não à educação. Esse é o projeto, o projeto é íntegro. O que eles propõem para os nossos meninos? Escola Sem Partido, educação na casa. Então o que eles querem é levar o Brasil para o século 19, não é entrar no 21. Infelizmente não é entrar nesse mundo que o Márcio fala, é voltar para trás, olhando para trás ainda. Esse é o projeto que eles têm. E para isso, eles precisam de força, porque eles precisam impor a colônia a 220 milhões de brasileiros. Esta é a briga real”.

Fim da Nova República

“Eles precisam acabar com a Nova República, atacar a democracia, mesmo esta democracia pequena, mais democrática para um professor da Unicamp, mais democrática para uma categoria poderosa como a de vocês, bem pouco democrática para o negro, jovem da periferia, mas é esta democracia que é grande demais para o que eles precisam fazer aqui.

Democracia

“São 30 anos de Nova República e a segregação continua, e o racismo estrutural continua, e o machismo estrutural continua. Então o povo acha que todos os políticos são iguais. E não foi à rua para defender a democracia. Porque a democracia não se converteu em transformação. Para os de cima a democracia é um risco, ela é espúria, é perigosa, porque ela abre brecha para a voz do povo. E se o povo for perguntado: ‘Vocês querem virar escravo?’ Vai dizer ‘não’. Então o povo não pode ser perguntado. Essa é a crise da Nova República. Quem mata a Nova República? O partido do ‘fora todos’ reacionário, é a Globo, é a Lava Jato. Em nome do combate à corrupção, o que é que se combate? A democracia e não a corrupção, por que qual foi a empresa criminosa condenada pelo Moro? Nenhuma. A JBS controla 200 parlamentares de todos os partidos, não do meu, mas de todos os outros, de todos os partidos. Mas ela não foi punida, ela não foi expropriada, o burguês sai pela delação, o capital sai pelo acordo de leniência, e a democracia que vai pra lata do lixo. Mas há o partido que resiste, o velho resiste, é o partido salvem-se todos, vamos estancar a sangria, com Lula, com Supremo, com tudo. Esta é a briga do velho com o novo, é isso que a gente está vendo. Mas há uma segunda briga, a briga que é a disputa do novo, qual é o novo que vai entrar?”

A esquerda e o novo

“A esquerda não disputou o novo, porque ficou presa no Lula Livre, e o Bolsonaro nadou de braçada se apresentando como novo, e o museu de grandes novidades veio aqui, que é o capitão do mato, dizer que é novo, que tem a nova política. A nova política dele não tem nada de novo, a nova política dele é a negação da política, é a violência como forma de solução dos problemas políticos do Brasil. O que é a vitória do Bolsonaro? É a falência definitiva da Nova República, é a transição para alguma coisa nova. O que eles propõem? Intervenção militar, vamos resolver isso daqui de cima para baixo, na truculência, no porrete.”

Bolsonaro

“O que é o governo Bolsonaro? É o governo Temer com porrete na mão para dar porrada na gente: esse é o governo Bolsonaro. Com Temer, a burguesia usurpou a soberania, com Bolsonaro, transformou a violência política em projeto político. E é esse o nosso desafio, enfrentar essa ofensiva reacionária e para isso nós temos que ter força. E para ter força, nós temos que ter a unidade, não a unidade da cúpula, não a unidade em cima, nós precisamos ter a unidade da classe, aqui embaixo. E como é que a gente faz a unidade da classe? Num país heterogêneo como o nosso, e eu acompanhei aqui vocês brigando para ver se mantém a unidade de vocês, e como é que a gente faz a unidade do conjunto dos trabalhadores brasileiros? De baixo para cima, aqui tudo tem que ser de baixo para cima, por que de cima pra baixo não funciona mais nada. De baixo pra cima, o de cima cede à prioridade do de baixo. Mas nós precisamos de força onde? No parlamento, não. No parlamento está tudo dominado, no parlamento é uma arapuca. Nós precisamos de força na rua.”

A força das ruas

“Porque foi em junho de 2013 que a burguesia escutou a moçada na rua, depois foi na nossa greve de 2017, que adiou esta reforma [da Previdência], depois foi na Primavera das Mulheres, que derrubou o [Eduardo] Cunha [então presidente da Câmara]. A greve dos caminhoneiros, os caminhoneiros não tinham força nem pra pedir uma audiência para um ridículo ministro do Temer. Em três dias eles deram um xeque-mate no país. Porque qual é a nossa força? A nossa força é quando a mercadoria não circula, é quando a fábrica não produz mercadoria, é aí que está a nossa força, é aí que a gente tem que ter força real. Mas pra ter força, a gente tem que ter a unidade, a gente tem que ir pra rua”.

O projeto dos trabalhadores

“Mas a gente tem que ter projeto, nós temos que ter política. Se nós não temos política, fazemos a política de quem tem. Não basta Lula Livre; Lula Livre é uma luta legítima do PT e eu respeito, mas não é uma solução para os problemas do Brasil, porque não diz nada. Nós temos que ter uma política. O que a gente propõe na economia, o que a gente propõe na política, como é que resolve a roubalheira. Nós temos que ter uma política; sem política a gente não vai para lugar nenhum. O que a gente propõe para o povo? Porque se não propuser nada, você não mexe com o povo. Eles dividem o povo e jogam quem não tem direito contra quem tem direito. E estamos nós lá, mendigando direito. Brasileiro não tem que mendigar direito nenhum, nós temos que colocar na agenda ‘direitos já’. Eles falam ‘ajuste já’, nós falamos ‘direito já’, eles falam intervenção militar, nós falamos intervenção popular, eles querem prender os políticos corruptos e nós também, mas nós queremos expropriar todas as empresas corruptas. Nós temos que ter um projeto, se a gente não tem um projeto a gente não anda para lugar nenhum.”

Ajuste neles

“E há o combate à reforma da Previdência, que é a primeira batalha que está posta, nós temos que enquadrá-lo dentro de uma estratégia. Qual é a força que a gente precisa? Nas ruas, greve geral, nós vamos à unidade com greve geral. E já temos que ter um projeto alternativo. Nós queremos reforma da Previdência? Nós queremos reforma da Previdência, mas não o desmantelamento da Previdência. Nós queremos melhorar, mais acesso, mais benefício, melhor financiamento. Mas isso exige outra política econômica, nós temos que enfrentar a política econômica. Nós temos que falar ‘ajuste, não’, nem pequenininho, como queria a Dilma, nem maiorzão, como queria o Temer, e nem amazônico, como prega o Bolsonaro. Ajuste no deles, vamos fazer ajuste no deles, direitos já! A gente precisa falar isso para o povo.”

Exemplo mínimo

“Eu vou dar um exemplo, minúsculo. Dados da Anfip: se o Imposto de Renda sobre pessoa física, na faixa de renda de quem ganha mais do que 40 salários mínimos, a alíquota fosse de 27,5% para 35%, e se para quem ganha mais do que 50 salários mínimos, o imposto for aumentado de 27,5% para 40%, acabou. Em 10 anos isso dá uma economia de 1,5 trilhão, muito mais do que fala o Guedes e não precisa acabar com a aposentadoria de ninguém. Então têm solução, mas a solução depende da luta de classes. Ou os de baixo conseguem jogar a conta no colo dos de cima, ou os de baixo vão pagar a conta, essa é a questão que está posta e é isso que nós temos que começar a discutir”.

Nossas mudanças

“Nós temos que fazer outra discussão nesse país, nós queremos mudar para valer, não é [esse] novo, vamos propor o novo, vamos propor mudanças já. Mudança na política econômica já, intervenção popular já, porque daí o povão diz: ‘ah bom, eu não preciso me matar no Uber, eu vou ter direitos. Direitos não só para os que já têm, que é justo, direitos para todos. Isso exige outra conversa com a classe trabalhadora brasileira, e exige colocar na ordem do dia mudanças para valer, profundas, aquelas que pulsaram no sambódromo, no canto da Mangueira. Porque para que aquele sonho seja verdadeiro, é preciso outro Brasil, é preciso um Brasil socialista e isso tem que ser discutido com a classe. Ah, mas a burguesia não deixa, a burguesia não deixa a gente falar nisso… mas nós temos que falar nisso, nós não podemos combater se eles têm o projeto de cabo a rabo e nós não temos projeto nenhum.”

Outro horizonte

“Nós temos que pôr a discussão de um outro Brasil, que dê direitos a todos, temos que fazer esse caminho. Se não, nós entramos rendidos e na prática nós discutimos o ritmo e a intensidade da política deles. Reforma da Previdência não é um projeto do Bolsonaro, é um projeto da burguesia, e não só da brasileira. Reforma da Previdência foi feita pelo Fernando Henrique, foi feita pelo Lula, teria sido feita pela Dilma se ela não tivesse caído. O Temer tentou, o Bolsonaro vai fazer. A luta não é desidratar a reforma da Previdência, esperando mais quatro anos. A luta é criar outro horizonte para a classe e a reforma da Previdência é parte dessa luta. E este sindicato aqui tem responsabilidades com a classe, com o futuro do Brasil e tem obrigação com esse debate, para que a gente possa sair da escuridão e criar outro horizonte para a classe trabalhadora brasileira. Muito obrigado.”

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