‘Bolsonaro é o vírus mais letal’, diz economista em debate do LutaFenajufe

Plínio de Arruda Sampaio Júnior disse que governo teve quatro meses para agir, nada fez e agora adota uma política genocida.

O presidente Jair Bolsonaro é o vírus mais letal desta pandemia e comanda um governo cujas políticas para as crises da pandemia do coronavírus e da economia são genocidas. As afirmações são do economista Plínio de Arruda Sampaio Júnior, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dadas durante debate com transmissão ao vivo pelo Facebook promovido pelo Coletivo LutaFenajufe. O economista afirmou que a defesa de mais ‘reformas’ neoliberais feita pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, no início da epidemia no Brasil, não são remédio para o problema, ao contrário, o agravam.

Ele disse ainda que as medidas econômicas são insuficientes e ridículas em comparação ao tamanho do problema e que para enfrentá-los é preciso um outro governo. “Quando a crise chega, a primeira reação do Guedes foi: ‘as reformas vão resolver o problema’. É o equivalente ao síndico diante ao prédio em chamas, em vez de chamar o bombeiro, convocar uma reunião de condomínio. A primeira reação foi a seguinte: vamos aproveitar a pandemia e a crise econômica para arrancar direitos dos trabalhadores, é um instinto antitrabalhador”, disse.

Plínio disse que o governo conduz a economia de maneira fundamentalista e teve quatro meses para fazer algo e não o fez. “Estava claro, pelo menos desde janeiro, que nós teríamos problemas econômicos e que teríamos problemas de saúde. O governo não fez nada. Agora o governo diz que não deu tempo de comprar, escutei o ministro da Saúde dizendo que não pode fazer isso em 10 dias, mas não estamos falando de 10 dias. O governo teve 4 meses para produzir máscaras, respirador, para preparar hospital e para preparar um plano de contingência para enfrentar o problema econômico. O governo não fez nada”, criticou.

Live Luta Fenajufe

O Luta Fenajufe é um coletivo nacional que reúne direções sindicais, oposições e servidores do Judiciário Federal e do MPU. A live realizada no dia 3 de abril teve a participação da servidora Luciana Carneiro, da direção do Sintrajud, e sindicato da categoria em São Paulo, e de Saulo Arcangeli, do Sintrajufe, do Maranhão.

Saulo disse que a falta de investimento em políticas sociais se reflete agora nas dificuldades para enfrentar a pandemia. “Nós tivemos em 2016, no governo Temer, a aprovação da Emenda Constitucional 95, que congela por 20 anos os gastos sociais. Tivemos uma perda de investimento na saúde em torno de 20 bilhões no último período e isso está sendo paga a conta agora. Temos um país que aprovou uma reforma trabalhista que ampliou a informalidade, os contratos precários, como a jornada intermitente. Hoje, na pandemia, se esse trabalhador não for para o trabalho, não tem a hora paga”, criticou, ressaltando que mesmo em plena crise o governo e grandes empresários seguem querendo eliminar direitos da classe trabalhadora.

Luciana ressaltou que há recursos e o que ocorre é uma opção política. “O governo brasileiro tem dinheiro em caixa para arcar com o ônus dessa crise, para amparar a população. No entanto, o governo mais uma vez opta por proteger a grande elite, o grande empresariado e os bancos. O neoliberalismo não se importa com vidas humanas, ele simplesmente faz contas”, disse.

Adirigente sindical também defendeu a unidade dos trabalhadores. “Contra essas políticas, a redução de salários, não temos que nos dividir. Devemos usar esse momento para nos unificar, nos solidarizar e ter como pauta as questões da classe trabalhadora, temos que nos defender, não temos que defender governos, bancos e grandes empresários”, defendeu.

Economia já parou

O economista da Unicamp ressaltou que as políticas neoliberais e o mercado aprofundam as crises. “As reformas não são a solução da crise, na verdade essa crise é mais profunda no Brasil por conta das reformas, ela é mais profunda nos EUA por causa do neoliberalismo, é mais na Espanha e na Itália por causa do neoliberalismo. Essa é a crise do neoliberalismo, do mercado”, disse.

Plínio criticou a movimentação do governo para ajudar os bancos e o discurso de Bolsonaro colocando a economia em primeiro lugar. “É a economia na frente da saúde, nós vamos cuidar é da economia: ‘não podemos deixar a economia parar’, o que é uma bobagem, porque a economia mundial parou. Seria pensar o mundo inteiro em depressão e o Brasil a galope. Dentro da economia, prioriza de maneira muito clara nas medidas o capital sobre o trabalho, com generosidade maior para os banqueiros. Então foram centenas de bilhões dedicados ao banco, para os bancos não quebrarem, em seguida os empresários. O que foi feito para os patrões: basicamente, você adia o pagamento do imposto, você adia pagamento de dívida, eu te dou capital de giro para a sua empresa não quebrar e eu vou criar aqui um botãozinho de emergência, que é para você ter uma possibilidade de demitir, se livrar do custo da folha de trabalho sem ônus, que foi essa última medida, de suspensão de trabalho, de redução unilateral de redução de trabalho”, afirmou.

Por outro lado, disse, as medidas de proteção aos trabalhadores ou não existiram ou foram tímidas demais. “Para o trabalhador o governo não fez praticamente nada. Agora eles fizeram algumas medidas para dar alguma renda para algumas famílias. Mas o que eles fizeram é muito insuficiente para enfrentar a crise. O Guedes é de um neoliberalismo fundamentalista. Ainda trabalha nos marcos da austeridade, nos marcos de uma certa normalidade. Isto até o Trump já jogou no lixo, todos vão jogar no lixo. Nós estamos numa economia de guerra no sentido de que nós temos que ter uma mobilização total para enfrentar a pandemia e a desorganização da economia. Agora é o momento que o Estado tem que entrar com muita força”, disse.

‘Crise se aprofunda’

Plínio assinalou ainda que a crise econômica não começa com o coronavírus, mas se aprofunda. “Estamos vivendo uma crise econômica do capitalista e essa crise já estava latente antes do estouro do coronavirus. Temos que ter claro que é uma trombada de grandes proporções. O coronavirus acabou provocando um colapso agregado dos gastos das famílias e isso joga a economia num mergulho recessivo muito profundo. A esse problema se acrescenta a desorganização no processo produtivo, estamos vendo isso muito claramente com a carência de máscaras, respiradores”, disse.

Disse que em apenas duas semanas foram dez milhões de pedidos de auxílio desemprego nos Estados Unidos. “Temos que nos preparar para um processo traumático e de longa duração. O efeito dessa crise vai ser uma recessão profunda no mundo todo”, avaliou. Os recursos movidos pelo governo dos EUA para enfrentar a crise, assinalou, mostram que “não é um probleminha”: foram 2,2 trilhões de dólares, o equivalente a 1,6 PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil. “Tudo indica que a crise vai ser da proporção da crise de 29, muito grande”, disse. “A recuperação depende de mudanças muito profundas”, afirmou.

Ele ressaltou ainda que no Brasil há alguns agravantes: um período de seis anos de economia estagnada e uma crise social “aguda”, onde um em cada quatro trabalhadores ou está fora do mercado de trabalho ou já está desalentado, já nem procura emprego. “O efeito no mercado de trabalho vai ser rápido e brutal. Porque os empregos que foram criados nesse ciclo do Lula e depois os poucos empregos criados [no período posterior] são empregos voláteis, precários. Na crise anterior o que segurou um pouco mais os empregos foram os servidores públicos, mas na política que está posta não se permite contratar servidores públicos”, disse.

Citou também o enorme peso da dívida pública no orçamento federal e a dívida externa como outras vulnerabilidades da economia brasileira, além da fuga de capitais: “O passivo financeiro externo líquido, dinheiro de estrangeiro que pode num sopro sair do Brasil, descontado o que a gente tem de reserva, é 633 bilhões de dólares. É um espirro e esse dinheiro sai. E se ele sai aí nós temos crise cambial, e se nós temos crise cambial, desorganiza toda a economia de vez”.

Para enfrentar crises nestas dimensões, disse, é preciso outra política. “Tempos extraordinários, medidas extraordinárias. Mas para ter uma outra política nós teríamos que ter um outro governo. Na pandemia, [a política] do governo é de genocídio: o rico vai para a lua e o pobre vai fazer o ciclo de imunização do vírus e [morre] a rodo. Essa é a política sanitária. Qual a política econômica? O mercado resolve tudo”, disse. “Bolsonaro hoje é o pior vírus letal que nós estamos enfrentando no país”, afirmou.

A melhor política econômica agora, defendeu, é o governo dar muita renda direta nas mãos das famílias. “Porque as famílias ficam em casa e têm capacidade de gastos, isso segura o mergulho recessivo. A melhor política agora é o governo ter dinheiro solto para incentivar as pessoas a construírem máscaras, construírem fábricas para fazer respirador, montar hospital, essa seria a melhor política. Não tem nenhum risco de isso gerar hiperinflação porque a economia está completamente deprimida”, disse.

Alternativas

Como projeto alterativo, propôs a saúde na frente da economia, com quarentena de todos os trabalhadores que não estejam em atividades essenciais, plena segurança a todos em atividades essenciais, redução da jornada em atividades essenciais e contratação imediata de outros, garantia de emprego. Defendeu ainda testes generalizados, isolamento dos contaminados em condições dignas, utilizando-se inclusive hotéis, e garantia de tratamento a todos. No aspecto econômico, mencionou o não pagamento da dívida pública, centralização do câmbio e redirecionamento das reservas internacionais para combater a pandemia. “O FMI já falou que nas economias pobres a dívida pública não deve ser paga. Essa medida já daria uma folga de 500 bilhões para atender a emergência”, disse.

O economista disse que o momento é de confinamento, mas não de isolamento social e que os trabalhadores precisam se organizar e cobrar do Estado a defesa da vida. “O momento vai mostrar toda a irracionalidade do capitalismo. A irracionalidade pontencializada pelo neolibaralismo. Esse é o momento da crítica, da conscientização, de tirar as lições de conversar com a população e, em paralelo, focar na auto-organização das pessoas”, sustentou.

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