Apoio a Bolsonaro encolhe em ato no dia de denúncia-bomba

Ato em Brasília a favor do governo e pelo fim do isolamento na pandemia reúne presidente e metade do ministério, mas público mal passa da casa das dezenas.

Com a presença de 11 ministros e do presidente da República, o ato em apoio ao governo federal e contra o isolamento social, em Brasília, teve crianças no colo de Bolsonaro, aglomeração e gente sem máscara. Mas faltou público. Pode-se dizer que foi um grande fiasco o protesto a favor do governo convocado pessoalmente pelo presidente para 17 de maio.

É verdade que manifestações como essa deixam muitos espantados: há quem se disponha a se arriscar para defender o presidente em plena pandemia do coronavírus. Mas o fato é que, como mostram vídeos e vários relatos, apenas algumas dezenas de pessoas nas primeiras horas, no máximo centenas no momento mais cheio, participaram do ato em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, no domingo. “Parecia haver mais gente no alto da rampa do que lá embaixo. A PM não fez o cálculo do número de testemunhas, mas foi claramente um vexame. Melhor faria o presidente Bolsonaro se reunisse seus ministros dentro do palácio para fazer uma reunião de trabalho, em meio à pandemia que já matou mais de 15 mil brasileiros e deixou 200 mil infectados pela Covid-19”, disse o jornalista Ricardo Kotscho, colunista do site UOL.

O colunista disse ainda que integrantes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência circulavam entre os manifestantes recolhendo faixas e cartazes contrários ao Supremo Tribunal Federal e ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), a quem Bolsonaro busca se aproximar em meio à negociação de cargos com os partidos do Centrão – parte do que ele mesmo gostava de caracterizar como velha política.

A metade de todo o ministério foi mobilizada para o ato no dia em que o número de mortos pela Covid-19 superou as 16 mil vítimas, de acordo com os dados reconhecidamente subnotificados das secretarias estaduais e do Ministério da Saúde. Um caixão foi levado para o protesto, numa referência não à tragédia da pandemia, mas ao ex-aliado e festejado Sérgio Moro, ministro cuja demissão levou à abertura de um processo no STF para investigar possíveis interferências indevidas e ilegais do presidente na Polícia Federal.

Não havia, ainda, referências a outro agora novo ex-aliado – o empresário Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro, filho ’01’ do presidente, no Senado. Em entrevista à ‘Folha de S.Paulo’, o empresário fluminense disse que pouco antes do segundo turno da eleição de 2018 Bolsonaro teve acesso a informações secretas da Polícia Federal. A PF inclusive teria adiado a deflagração da operação que atingiria o assessor parlamentar Fabrício Queiroz, do gabinete do então deputado estadual Flávio, para não prejudicar a candidatura do capitão reformado do Exército. No ato em Brasília, o suplente do filho 01 foi poupado: a notícia com os relatos de Paulo Marinho não havia ainda repercutido para que os apoiadores do presidente preparassem os cartazes, as faixas ou até o caixão.