Mulheres tomam as ruas no 8 de março para denunciar violências e ataques a direitos

Fotos: Kit Gaion.

 

Mesmo sob chuva torrencial bem na hora da concentração, o ato paulista que marcou o Dia Internacional de Luta das Mulheres, na Avenida Paulista, reuniu 50 mil pessoas segundo a organização. Às 16 horas, havia manifestantes em frente ao Fórum Pedro Lessa da Justiça Federal, ao lado do Masp, e a faixa de abertura já tinha cruzado a rua Luís Coelho (primeira travessa da Rua Augusta, paralela à principal avenida da capital, que de ponta a ponta soma 2,8 quilômetros).

O aumento dos feminicídios (assassinatos cuja motivação está relacionada à condição de mulher da vítima) e estupros, que atingiram marcas recordes de registros no estado em 2019, foi o principal mote do protesto. A política de retirada de direitos imposta pelo governo do presidente Jair Bolsonaro também teve destaque. Foram repudiados a redução dos valores das pensões e o aumento da idade mínima para aposentadoria e das alíquotas de contribuição previdenciária – que são piores em todos os itens para as mulheres.

O investimento zero nas Casas da Mulher Brasileira no ano passado também foi denunciado pelas manifestantes. Esses equipamentos públicos reúnem serviços como promotoria, defensoria, vara de violência doméstica, assistência psicossocial e segurança pública num só lugar, evitando que a mulher tenha que percorrer várias instituições e recontar por diversas vezes a violência sofrida. Desde quando foram criadas as Casas, o orçamento público vem diminuindo, mas em 2019 foi zerado pela União.

A postura do Estado brasileiro de perseguir professores e impedir que os currículos escolares incluam o ensino sobre como as desigualdades de gênero (papéis esperados de homens e mulheres) são construídas socialmente também foi muito criticada. Para as participantes do ato, não debater as hierarquias sociais criadas pela sociedade potencializa a violência contra as mulheres.

Em meio à multiplicidade de ataques, ganhou peso nas manifestações deste domingo a palavra de ordem ‘Fora Bolsonaro’, que ilustrava vários cartazes, adesivos e placas nas ruas das diversas cidades onde ocorreram protestos. Em São Paulo, o mote do ato foi “Mulheres Contra Bolsonaro! Por nossas vidas, democracia e direitos! Justiça para Marielle, Claudias e Dandaras!”.

Coletivo de Mulheres do Sintrajud presente

Servidoras e servidores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo estiveram presentes e avaliaram muito positivamente a manifestação. A participação foi organizada pelo Coletivo de Mulheres Mara Helena dos Reis, que recebe o nome de uma colega, servidora da Justiça Federal em São Bernardo do Campo, assassinada pelo homem com quem vivia na noite de natal de 2018.

“Participar do ato no dia 08 de março – promovido e organizado por nós, mulheres, que estamos no enfrentamento, por uma sociedade antissexista, antirracista e anti-homofóbica – é o que dá esperança e força para continuar na luta”, afirmou à reportagem a servidora Bruna Guimarães Nunes dos Santos, servidora do TRT-2.

A opinião é compartilhada pela colega da Justiça Federal em Presidente Prudente, Anna Karenina de Souza Macedo, que esteve no sábado em Brasília, participando da reunião ampliada da Fenajufe e sindicatos da categoria e voltou direto para o ato. “Foi uma experiência incrível ter participado do ato, junto das minhas colegas trabalhadoras. Experiência que, infelizmente, não vivenciamos no interior pela falta de mobilização. Penso que a atuação do Sindicato, e em especial do Coletivo de Mulheres, tem sido muito proveitosa, pois em pequenas ações vemos como o machismo está arraigado na nossa sociedade e quanto precisamos nos desconstruir”, afirmou Anna.

Para a diretora do Sindicato e servidora aposentada do TRF-3 Ana Luiza de Figueiredo Gomes, as manifestações de ontem em diversas cidades brasileira e países no mundo “mais uma vez demonstraram que as mulheres estão na linha de frente contra toda a política de retirada de direitos, de violência contra as mulheres e de ataques ao conjunto dos trabalhadores.” Ana acrescentou ainda que “no Brasil, as mulheres mostraram que estão dispostas a enfrentar, junto com toda a classe trabalhadora, esses ataques que tiram os nossos direitos e nos matam. Não aceitamos nem uma a menos”, disse.

Também diretora do Sintrajud e servidora do TRF, Luciana Martins Carneiro avalia que “o ato foi muito positivo. Num domingo de tarde chuvosa, muita gente nas ruas, em defesa dos direitos da mulher, contra o feminicídio, entendendo que essa briga é uma questão de classe, gênero e raça. As mulheres têm sido as protagonistas dos atos contra as políticas desse governo autoritário, machista, homofóbico, sexista, desde que demos início à campanha #elenão”, afirmou.

Confira aqui a galeria de imagens do 8M em São Paulo e assista ao vídeo narrado pela diretora Luciana Carneiro

Próximos passos: 14M e 18M – responder aos ataques nas ruas

O tamanho do ato em São Paulo animou as e os participantes, que avaliaram nos carros de som que auxiliavam na condução da manifestação que a participação popular de grandes dimensões favorece o fortalecimento dos protestos agendados ainda para este mês.

No próximo sábado (14 de março) está marcada nova manifestação quando se completam dois anos do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, que guiava o carro onde estava a parlamentar. Em São Paulo o ato principal também acontecerá na Avenida Paulista, a partir das 17 horas, com início na Praça do Ciclista (esquina com a Rua da Consolação).

O Sintrajud mais uma vez estará presente, após realizar uma roda de conversa e exibição do documentário ‘Chega de fiu-fiu’, que discute as violências praticadas contra as mulheres no espaço urbano. A atividade do Coletivo terá início às 14 horas, no auditório do Sindicato.

No dia 18 (quarta-feira) está marcada a Greve Nacional em defesa do serviço público, dos direitos, dos salários e contra os ataques do governo Bolsonaro. Na pauta, a luta contra a ameaça de ‘reforma’ administrativa para extinguir a estabilidade no setor público e reduzir carreiras, e contra o plano ‘Mais Brasil’ – conjunto de propostas de emendas constitucionais que autorizam a redução de salários do funcionalismo em até 25%, congelamento de progressões, promoções e concursos, extinção da previsão constitucional de revisão geral anual de salários, entre outros ataques.

O Sintrajud vem organizando a participação da categoria no dia de luta desde a assembleia estadual de fevereiro. Confira os materiais e informações sobre a adesão nos estados e os ataques incluídos nos planos governamentais clicando aqui.

Outro ato que emocionou movimentos de mulheres internacionalmente foi o promovido pelas chilenas. De acordo com veículos de mídia de diversas concepções, Santiago teve o maior protesto dos registrados em todo o mundo, com dois milhões de participantes que tomaram a praça onde fica a sede do governo, o Palácio La Moneda.

Desde 18 de outubro do ano passado o Chile – modelo econômico para o atual governo brasileiro – vive um processo de convulsão social fruto da deterioração das condições de vida impostas com a privatização integral dos sistemas de previdência, seguridade social, saúde e de parte da estrutura educacional. Os protestos já levaram a recuos do governo do presidente Sebastián Piñera e à convocação, para abril, de uma assembleia constituinte. O funcionamento da constituinte e as propostas governamentais para as áreas sociais, no entanto, seguem dividindo a sociedade chilena. Além da violência policial que já cegou mais de 200 pessoas, levou à prisão mais de 30 mil cidadãos e é alvo de centenas de denúncias de estupros.

Manifestação do 8 de março em Santiago do Chile. Crédito: Javier Torres/Getty Images/HuffPost Brasil.
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