Debate sobre teorias feministas encerra ciclo de formação

Série de atividades online oferecidas pelo Coletivo de Mulheres do Sindicato abordou teorias contra as desigualdades de gênero e danos da masculinidade tóxica para homens e mulheres.

Na terceira atividade do ciclo de formação para o combate ao machismo realizado pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud – Mara Helena dos Reis, as participantes aprenderam e trocaram informações sobre as diferentes visões históricas do feminismo. O seminário ‘Feminismos’ aconteceu no último sábado (17 de outubro). Em 26 de outubro foi realizado o seminário sobre a origem do machismo e no dia 13, uma transmissão ao vivo sobre masculinidade tóxica.

Nesta segunda-feira (26), às 18 horas, as integrantes do Coletivo voltam a se reunir por videoconferência para debater as próximas atividades deste ano, que envolvem a participação nos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Clique aqui para participar (a reunião é aberta exclusivamente a mulheres).

As palestrantes do último sábado foram Amelinha Teles, coordenadora da União de Mulheres do Município de São Paulo, a pesquisadora do Ilaese (Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos) Érika Andreassy e a servidora do TRT-2 e feminista amefricana Helena Pontes.

Ideia radical de que mulheres são gente

Comumente mal compreendido, o feminismo – mais correto seria usar o termo no plural – não tem nada a ver com a contraposição entre mulheres e homens. As diversas vertentes teóricas que se reivindicam feministas buscam somente combater desigualdades construídas pelas sociedades competitivas que fazem com que a parcela feminina das populações tenha menos acesso a direitos e seja tratada como um ser inferior, que precisa ou merece tutela ou punição quando questiona esse lugar.

A ativista estadunidense Marie Cheer traduziu o conceito de feminismo como “a ideia radical de que mulheres são gente”, e por isso merecem respeito e têm direito a uma vida sem violências. Na contramão desta formulação, o Brasil é o quinto país do mundo em assassinatos de mulheres. Os dados oficiais estimam a ocorrência de 180 estupros diários, considerando que apenas 10% dos casos chegam aos registros policiais. Dados do SUS apontam que mais de 80% das agressões acontecem em ambiente doméstico, por agressores conhecidos que deveriam ser de confiança das vítimas.

Resgatando a história da humanidade para provar que nem sempre as coisas foram assim, as teorias feministas visam mostrar que o respeito aos direitos das mulheres levará a sociedades menos violentas e melhores para toda a população. Os debates sempre lembram que houve sociedades onde as mulheres tinham papel de direção social e o núcleo populacional de conjunto era mais harmonioso. Também há países, na atualidade, nos quais uma relação menos desigual entre os gêneros, do ponto de vista legislativo e econômico, fez aumentar os índices de desenvolvimento, como Bélgica, Dinamarca, França e Suécia.

Classe, raça e gênero: a tríade una

Amelinha lembrou que desde o início da organização dos movimentos feministas contemporâneos no Brasil, na década de 1970, mesmo os setores progressistas sempre questionaram o direito de as mulheres ressaltarem que o capitalismo se sustenta sobre as opressões de gênero e a subalternização da parcela feminina da sociedade. “Seria um desvio da luta de classes”, comentou, referindo-se a como dirigentes de partidos como o PCB e o PCdoB se referiam ao feminismo naqueles tempos.

Mas, de lá para cá, os movimentos feministas não só cresceram como também vêm aprendendo que precisam ser mais diversos para representar o conjunto das mulheres. “No começo, lá em 1975, havia uma ideia de as mulheres serem todas iguais, uma ideia bastante mecânica, tacanha mesmo, por falta de um debate, de uma troca”, resgatou Amelinha.

“As [feministas] brancas muitas vezes nem percebiam ou, por viverem numa sociedade racista, nem perguntavam às negras se elas estavam contempladas com as suas teorias e propostas. Todo o feminismo negro que temos hoje vem da luta das mulheres negras”, ressaltou Amelinha. “A opressão e a discriminação é desigual, dependendo da classe, da raça e etnia, da geração e da própria construção do gênero”, lembrou.

A principal referência feminista reivindicada pela palestrante foi a socióloga e ex-professora da PUC/SP Heleieth Saffioti — que morreu em 2010. “Heleieth Saffioti adotava esta mesma perspectiva interseccional, dando a ela a denominação de ‘teoria do nó’. Eu concordo com esta teoria”, afirmou.

Há 38 anos Amelinha impulsiona a organização feminista que já formou mais de 6 mil mulheres como promotoras legais populares. No curso de um ano, as alunas aprendem noções de Direito e sobre o papel das instituições da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres. Assim, auxiliam outras mulheres que em suas famílias ou bairros estão em situação de violações de direitos.

A liberação das mulheres será obra da classe trabalhadora

Embora concordando que muitas lutas e reivindicações são comuns a todas as mulheres, Erika Andreassy ressaltou que “o feminismo enquanto teoria congrega que o sujeito social da liberação das mulheres são as mulheres”. Para a pesquisadora do Ilaese, “o sujeito social não são as mulheres em geral, senão que são as mulheres e homens da classe trabalhadora. Isso envolve um forte combate ao machismo no interior da nossa própria classe. Mas as mulheres burguesas não têm interesse em libertar as mulheres trabalhadoras enquanto classe”, ressaltou. “As sufragistas não defenderam o sufrágio universal”, lembrou, resgatando uma crítica feita por feministas negras como a estadunidense Angela Davis no livro Mulheres, Raça e Classe, editado no Brasil pela Boitempo Editorial.

Erika é formada em Enfermagem pela Universidade Estadual de Maringá e integra a equipe do Ilaese desde 2004, onde desenvolve atividades de formação e coordena a área de estudos e pesquisas em saúde do trabalhador e na temática gênero. Em sua exposição, a palestrante também explicou as ondas do feminismo – períodos de grandes mobilizações de mulheres que marcam pontos de inflexão nas formulações teóricas a respeito da luta em defesa da igualdade entre os gêneros. A autora reivindicou a concepção defendida por Cecília Toledo, autora de Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide (editora  Sundermann).

‘Enxergar as encruzilhadas de opressões’

Helena Pontes, servidora do TRT-2 e feminista amefricana, ressaltou que “a gente tem que retomar, enquanto mulheres ao Sul global, algumas noções e características muito nossas e do nosso povo, enxergar e valorizar essas encruzilhadas de opressões. Sem enxergar a opressão que sofrem as mulheres que estão na base social, dificilmente vamos emancipar a classe”, disse.

O feminismo amefricano busca inspiração no termo “amefricanidade”, cunhado pela antropóloga Lélia González. Professora da PUC/RJ e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), Lélia, que faleceu em 1994, estabeleceu as bases que estruturam o movimento de mulheres negras contemporâneo e introduziu o debate sobre as formas de ação política e concepção do feminismo negro no Brasil.

Confrontando o próprio movimento negro, pela reprodução de práticas sexistas, foi das primeiras intelectuais brasileiras a teorizar sobre a condição existencial das mulheres negras ser agravada pelo racismo e determinante para a posição de classe que ocupam na sociedade brasileira. A antropóloga também defendeu que a teoria feminista no Brasil precisava incorporar elementos das tradições culturais das sociedades indígenas do continente e africanas, trazidas para o território nacional quando do sequestro de mulheres e homens daquele continente para o trabalho escravo, entre os séculos XVI e XIX. Vem daí a ideia de “amefricanizar” o feminismo.

Helena trouxe a reflexão crítica de Lélia para o movimento sindical e as organizações autodenominadas de esquerda ou progressistas. “Para haver a emancipação da classe de fato é essencial que ele [o militante social ou partidário, dirigente sindical e qualquer homem que se coloque na sociedade em uma perspectiva progressista] tire a sua companheira da cozinha”, destacou.

Durante a atividade a servidora do TRT-2 Scheilla Brevidelli também recitou o poema ‘Camaleão’, que trata da multiplicidade do “ser mulher”. Também  servidora do TRT, Savina João apresentou o documentário A mais forte, roteirizado e dirigido por ela, em parceria com Jessica Madona (no roteiro) e Clara Eyer (na direção).