Racismo e violência contra mulheres negras foi tema de seminário no Sindicato

Atividade organizada pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud aconteceu no último sábado, 27 de julho; a íntegra do debate está disponível na página do Facebook da entidade.

Janaína dos Reis fala ao seminário.

 

As desigualdades sociorraciais e violências contra as mulheres negras no Brasil foram temas do seminário que aconteceu no último sábado, 27 de julho, na sede do Sindicato. A atividade foi organizada pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud – Mara Helena dos Reis, em homenagem ao dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha (25 de julho).

O seminário teve a presença da escritora Marli Aguiar, de Janaína dos Reis (membro da executiva nacional do MML) e da jornalista Luciana Araujo, que debateram a invisibilização das mulheres negras, que ainda ocupam os piores cargos de trabalho, têm salários menores, e são as mais agredidas e vítimas de violência institucional.

Crédito: Gero Rodrigues

Para Luciana Araujo, um exemplo da subrrepresentatividade das negras é que mesmo sendo o país um dos maiores contingentes de negros e negras, apenas 2,3% dos deputados federais são mulheres negras. No Senado, na atual legislatura não há nenhuma negra. “A constituição da Frente Antirracista na Câmara foi um escândalo, pois tinha apenas 3% de parlamentares negras”, afirmou Luciana.

Segundo estudos do IBGE, as mulheres negras também estão nos postos de trabalho mais precarizados. “No conjunto da sociedade nós, negras e negros, estamos nos postos de trabalho mais explorados, com salários menores, por exemplo. É raro ver um juiz negro, na minha cidade não conheço nenhum. É parte do racismo achar que nós temos menos capacidade e inteligência”, disse Janaína dos Reis.

As servidoras que participaram do debate destacaram que no Judiciário Federal, infelizmente, ainda são pouquíssimas mulheres negras em cargos de chefia. “Em nossa categoria a diferença salarial se expressa da seguinte forma: todos nós temos o mesmo salário-base, mas os que conseguem os cargos de chefia e as funções comissionadas são os homens e mulheres brancas, mulheres negras são as mais excluídas”, afirmou Fausta Fernandes, servidora aposentada da JF/Caraguatatuba.

Violência racista

As palestrantes também destacaram que as mulheres negras são ainda as que mais sofrem violência de todos os tipos. Entre as mulheres assassinadas, 64% são negras (dados do IPEA/2018), entre as que sofrem violência obstétrica o número chega a 65,9%, segundo estudo da Fiocruz publicado em 2014.

“Sofremos vários níveis de violência e é sempre dificil falar de violência e do racismo porque significa falar dos nossos corpos, significa sofrer pela cor da pele, pelo cabelo, roupas”, afirmou Marli Aguiar. A escritora leu relatos de mulheres negras que sofreram violência obstétrica.

Racismo estrutural no Brasil

Crédito: Gero Rodrigues

Outra questão debatida durante o seminário foi a força do racismo no país, mesmo com toda propaganda  do estado de que este sistema discriminatório não existiria no Brasil. As palestrantes resgatam que o país teve durante o final do século XIX e início do século XX, com a imigração européia, uma política oficial de embraquecimento da população, de uma sociedade miscigenada como política genocida da população negra, conforme mostram documentos e pesquisas oficiais. Até hoje, essa construção social “impede parte da população reconhecer-se como negros e negras. “Para mim, este debate não existia, até que um dia eu percebi que  eu era negra”, disse Maria Ires Graciano, diretora do Sindicato e servidora do JEF.

Para as palestrantes, o discurso da não existência do racismo torna mais difícil o reconhecimento. “Quando fui comprar o bonequinho de colocar no meu bolo de casamento peguei uma bonequinha negra, a vendedora tirou da minha mão dizendo que eu não podia, pois não era negra, tive que explicar que eu era negra, assim como ela”, afirmou Janaína.

“O ‘tornar-se negro’, no sentido de adquirir consciência da negritude e do racismo, como descreveu Neusa Santos, é um exercício doloroso, mas necessário para enfrentar e combater essa realidade”, destacou Luciana.

Além da homenagem a Tereza de Benguela, as servidoras lembraram que o seminário aconteceu no dia em que se completaram 500 dias da execução da vereadora carioca Marielle Franco. O crime político segue sem resposta sobre quem são os mandantes.

O Seminário foi transmitido ao vivo na página do Sindicato no Facebook. Veja a íntegra:

 

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