Subsede da Baixada Santista reúne grupo para discutir prevenção do suicídio

Exibição de documentário e roda de conversa fazem parte das atividades do “Setembro Amarelo”

Roda de conversa na subsede: atividade marcou o Dia Mundial de Prevenção e Posvenção do Suicídio

 

Com a exibição de um documentário e a realização de uma roda de conversa, a subsede do Sintrajud na Baixada Santista marcou o Dia Mundial de Prevenção e Posvenção ao Suicídio na última terça-feira, 10 de setembro.

O mês é dedicado à campanha “Setembro Amarelo”, que é realizada em vários países como forma de alertar a população e os governos para a gravidade desse problema de saúde pública – causa da morte de 800 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

No dia 27, a sede do Sindicato também terá um evento sobre o tema, que será “voltado aos trabalhadores do Judiciário Federal e a seus familiares e amigos”, conforme explicou um dos organizadores da atividade, o oficial de justiça aposentado Ivo Oliveira Farias.

Assunto “proibido”

Ivo foi um dos personagens apresentados no documentário “Precisamos falar sobre isso”, da TV Brasil, exibido na subsede para um grupo que incluiu servidores do Judiciário, servidores públicos de Santos, psicólogos e uma estudante de psicologia.

Desde que sua filha Ariele cometeu suicídio, em 2014, o servidor tem se dedicado a alertar a sociedade para a urgência não apenas de medidas preventivas como também de ações para aliviar o sofrimento dos enlutados.

“Com a lógica hedonista presente nas redes sociais, as novas gerações estão vendo apenas uma face da moeda”, disse Ivo. “Vivemos numa dualidade: dor, sofrimento e tristeza também são parte da vida”, destacou.

“Com a ‘ditadura da felicidade’ que temos hoje é quase proibido tocar nesse assunto”, declarou Priscila Alves, voluntária do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio e uma das participantes da roda de conversa na subsede do Sintrajud. “Falar de suicídio é falar de dor e isso nos dá mais possibilidade de nos aproximarmos do outro”, afirmou Priscila.

Abordar o assunto com a pessoa que está sofrendo e mostrar disposição para ouvir foram as principais recomendações dos participantes da roda de conversa. Eles também mencionaram a importância de se elaborar o luto e a tristeza, o que inclui atividades artísticas, trabalhos manuais e várias formas de expressão.

Judiciário

Comentando sobre a relação entre o ambiente de trabalho e os casos de depressão e de suicídio, o servidor da JF Santos Adilson Rodrigues apontou os problemas verificados no Judiciário.

“O ambiente [no Judiciário] é formal, desgastante, com uma hierarquia rígida e uma pressão continuada por produtividade. O servidor executa tarefas repetitivas e está o tempo todo lidando com administração de conflitos, que são os processos judiciais”, descreveu Adílson. “Tudo isso fomenta o adoecimento psicológico, ainda mais quando se tem uma administração autoritária e conservadora.”

 

Estatísticas no Brasil podem piorar

Criada neste ano, política nacional é questionada ao encaminhar casos na adolescência para os conselhos tutelares.

Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio é a segunda principal causa de morte, vindo após os acidentes de carro. Na faixa de 15 a 19 anos, aparece como segunda causa entre as meninas, após as complicações na gravidez, e a terceira entre meninos, depois de acidentes de trânsito e violência.

No ano passado, o Brasil tornou-se o 8º país com mais casos, superando os 11 mil em 2016, ou uma morte a cada 45 minutos. A taxa para cada 100 mil habitantes aumentou 7% no país, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%, segundo a OMS.

Devido à enorme subnotificação, os números brasileiros podem ser ainda piores. Desde abril, no entanto, está em vigor a Lei 13.819, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e obriga estabelecimentos de saúde e de ensino a notificar os casos. Com isso, o governo admite que as estatísticas deverão passar a mostrar maior quantidade de suicídios no Brasil e colocar o país numa posição mais alta do ranking mundial.

“Os serviços de saúde já são obrigados a notificar os casos de suicídio desde 2011, mas agora as escolas também têm essa obrigação e, mais do que isso, devem encaminhar as notificações para os conselhos tutelares”, explicou a psicóloga Elis Cornejo, que participou da atividade na subsede. “Isso traz um problema, porque nos questionamos sobre a capacidade dos conselhos para lidar com essa demanda, em que o autor da violência é também a vítima”, afirmou.

Segundo a psicóloga, que pesquisou o tema do suicídio para o mestrado concluído recentemente na Unifesp, 15% das pessoas que sofrem de depressão tiram a própria vida. “Mas não podemos ver o suicídio como doença e estabelecer uma relação direta entre as duas coisas, porque o suicídio é multifatorial”, ressalvou.

Para Ivo Farias, uma suposição ainda mais prejudicial é a de que 90% das mortes poderiam ser evitadas porque os suicidas teriam deixado sinais. “Isso é o dado de uma pesquisa isolada, que foi divulgada pela OMS, mas que causa muita indignação nos grupos de enlutados”, afirmou.

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