Servidores pautam riscos de eleições e pandemia em live do TSE

Servidores alertaram para ameaça a milhares de vidas com a mobilização de mais de 140 milhões de brasileiros num único dia em meio à crise sanitária.

Servidores que acompanharam a live do Tribunal Superior Eleitoral “Diálogos Democráticos”, na tarde desta sexta-feira, 28 de agosto de 2020, criticaram a realização das eleições em meio à pandemia do novo coronavírus e acabaram pautando o tema em um debate que, provavelmente, nem sequer tocaria no assunto. Servidores de São Paulo e de outros estados atuaram conjuntamente na iniciativa.

Também obtiveram a promessa, feita pelo tribunal por meio do chat da transmissão pelas redes sociais, de realização de um debate com médicos infectologistas sobre o assunto. O servidor Fagner Azevedo, do Rio Grande do Sul, escreveu: “Sugiro que o TSE faça um debate com médicos infectologistas ou que estejam atuando no combate à pandemia para discutir a segurança sanitária das eleições. PS: trazer só o Drauzio Varela não vale, ok?”. Recebeu a resposta da ‘justicaeleitoral’: “​@fagner azeredo Teremos!”.

Tendo o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, como mediador, o evento contou ainda com três convidados: os jornalistas Marcelo Tas e Caio Coppolla e a ex-senadora Marina Silva. O debate durou cerca de 1h50min e o vídeo pode ser acessado nas páginas do TSE nas redes sociais, como o Facebook e o YouTube.

‘Defesa da vida’

Foram muitas as manifestações nos chats apontando os riscos que as eleições em plena pandemia podem representar: “#NossoVotoÉPelaVida… Nossas vidas importam… Não há nada mais essencial que a vida”, disse a servidora do TRE de São Paulo e diretora do Sintrajud Raquel Morel.

“​Não é só chegar e apertar os botões da urna eletrônica”, alertou Luciana Martins Carneiro, também dirigente do Sintrajud. “Não pertenço ao grupo de risco, mas estou preocupada”, disse Patricia Barbosa de Oliveira​, servidora da Justiça Eleitoral. “Ministro, não há protocolo que permita realizar essa eleição durante a pandemia”, escreveu Suely Silveiras. “​Ministro Barroso este é o momento para realizarmos eleições? Em meio à pandemia?”, perguntou Márcia Pissurno. “Ministro Barroso qual será o cuidado para com os servidores que estão sendo obrigados a voltar ao trabalho presencial”, questionou Isaac Lima. “Fazer eleição é muito arriscado”, afirmou Eveline Davi de Lima​.

Servidor do TRE de São Paulo e diretor de base, Marcos dos Santos Pereira expôs a gravidade do que está acontecendo se utilizando de uma conhecida referência do próprio ministro Barroso a um colega do Supremo Tribunal Federal. “Realizar eleições em meio à pandemia não seria uma atitude horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia?”, perguntou.

Outro servidor, dirigente do sindicato, observou o problema político que envolve o processo em curso: “​promover uma eleição em pandemia é favorecer aos que negaram a pandemia, logo, favorecerá o Palácio do Planalto e seus aliados. Uma eleição feita desta forma não será justa”, disse Salomão Ferreira, da JT em São Vicente.

Também foi mencionada a reivindicação da federação nacional da categoria (Fenajufe) para que o presidente do TSE receba os servidores e abra um canal de diálogo. “​​Presidente Luís Roberto Barroso! Por favor, receba os servidores da Justiça Eleitoral para negociar nossas demandas, pois o ofício da Fenajufe solicitando o encontro foi protocolado faz muito tempo”, disse Eduardo Tadeu Vieira da Cunha.

Pergunta

Diante das muitas postagens, na última rodada do debate, quando foram selecionadas três perguntas para os convidados responderem, o ministro Barroso levou o tema à live por meio da pergunta postada por Manuela Moraes: “Gostaria de ouvir a sua opinião sobre a realização de uma eleição em plena pandemia expondo mesários, servidores e toda sociedade à covid-19”. O presidente do TSE, que em momento algum comentou a questão, direcionou a pergunta a Marina Silva.

“Eu confesso que é algo que me aflige muito. Uma preocupação de como os critérios de proteção à saúde das pessoas [vão funcionar], já que sabemos que a melhor forma de cuidar de nossa saúde, se não temos uma vacina, se não temos um tratamento conhecido adequado para o tratamento da doença, é o isolamento social, ainda que ele venha sendo desmoralizado pelo próprio presidente da República”, disse a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente. “Eu me preocupei muito com isso. E as autoridades médicas e sanitárias e o Poder Judiciário avaliando, imagino, e o próprio ministro que está aqui [Barroso], contam com os protocolos de segurança, os meios alternativos que se dispõe para que o voto possa ser realizado com segurança para a saúde das pessoas, considerando quase que como uma necessidade essencial da nossa democracia”, disse, nitidamente hesitando ao mencionar avaliações médicas e sanitárias que, sabe-se, predominantemente não consideram seguro realizar eleições no atual contexto da pandemia.

“Acho que o que temos que fazer agora é ficarmos atentos para todos esses pré-requisitos, esses protocolos de segurança para os mesários, para os eleitores, para todo o processo democrático. E, inclusive, com o problema da abstenção, que pode ser muito grande em função do medo que muitas pessoas terão”, concluiu Marina, provocando novas reações nos chats, que lembraram que ela se esqueceu dos servidores da Justiça Eleitoral na sua resposta.

“Os trabalhadores da Justiça Eleitoral, nem se comenta?”, indagou Cláudia Sperb, diretora do Sintrajud. “Não é culpa do Supremo que o mundo hoje olha para o Brasil atônito como tratamos a pandemia… Não permita que a culpa seja do TSE, Ministro”, disse Fred Barboza, da Bahia. ​”Adie as eleições, ministro!”, postou Marcia Pissumo. “Em um país de dimensões continentais e tantas desigualdades é ingenuidade achar que haverá segurança”, observou Fabiano dos Santos, dirigente do Sintrajud e da Fenajufe. “Além dos mais de 118 mil mortos atuais, essas eleições irão condenar milhares à morte”, alertou.