Servidor da Justiça Federal em SP é a terceira vítima do coronavírus na categoria

Roberto José Alberto era lotado no Tribunal Regional Federal da 3ª Região, mas atuava mais recentemente na primeira instância; além do pesar e condolências, diretoria do Sintrajud ressalta: mortes evidenciam importância do isolamento.

Na noite desta terça-feira (28 de abril), recebemos a notícia do falecimento do servidor Roberto José Alberto, conhecido como Roberto Balalaika, vitimado pela Covid-19. Trabalhador do Judiciário Federal em São Paulo desde 1990, Roberto era bastante querido entre os colegas e muito conhecido. Não só por seu tempo de serviço no Poder, mas também porque era um dedicado sambista, integrante do setor de harmonia (responsável pelo entrosamento, afinação e ritmo entre os componentes de uma escola de samba) da Vai-Vai – histórica agremiação do bairro do Bixiga, região central da capital.

Ele era servidor do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, mas estava no último período na primeira instância.

“Eu convivi com o “Bala” por uns bons 10 anos ou mais. Ele era talvez mais veterano que eu, mas só depois que voltei ao Fórum Criminal, na [Alameda] Min Rocha Azevedo, tivemos contato mais amiúde. Era um figuraço. Sorriso franco, não tinha hipocrisia, sempre solícito e amigável. De tudo o que nos dificultava o trabalho ele se desvencilhava com uma “tirada” de humor. Com ele aprendi a encarar contratempos com ânimo e a rir dos meus próprios tropeços”, afirmou à reportagem o colega José Silva Pessoa.

Cláudio Antônio Klein, ex-diretor do Sintrajud e servidor do TRF, foi o colega que comunicou ao Sindicato a notícia triste. “Ele era do [Fórum] Pedro Lessa. Eu não era amigo pessoal, mas ele era daqueles caras que todo mondo conhece. Era muito gente boa, do samba raiz, não só na música como na vida. Todos que o conheciam gostavam dele”, disse na mensagem que enviou logo após informar o falecimento. “Ele te ouvia e no final das conversas sempre soltava uma piadinha e ria. Vai deixar saudades”, completou.

Pai de três filhos e avô de cinco netos, Roberto tinha 67 anos e a infecção pelo coronavírus terminou por levá-lo à morte mais rapidamente porque já tinha comorbidades preexistentes.

Rinaldo Emílio, o filho com o qual a reportagem conseguiu contato para solicitar autorização para divulgar a notícia e a homenagem do Sintrajud a Roberto, respondeu à pergunta sobre desde quando o pai integrava a “Escola do Povo” com ênfase. “Desde sempre!”, disse. “A dor do momento é ainda maior, porque não pude estar presente, não pude ir visitar minha mãe, pela situação. Estamos todos consternados”, contou. Roberto estava internado antes de falecer.

A diretoria da agremiação carnavalesca também publicou nota, na qual ressaltou a importância do isolamento: “É com extremo pesar que notificamos o falecimento do nosso querido Roberto Balalaica que por muitos carnavais integrou a Harmonia da nossa escola. Nossos sinceros sentimentos aos amigos e familiares. #NotadePesar #SePuderFiqueEmCasa #LUTO”.

A afilhada, também integrante da família do samba, na Barroca Zona Sul, Helena Moscardini, fez o mesmo alerta em sua rede social e autorizou o Sindicato a publicar. “Que doença é essa que nos tira o direito de confortar quem fica e nos despedirmos de quem vai embora? Que doença é essa que faz com que a primeira pergunta antes dos pêsames seja: ‘Ele era do grupo de risco?’ Que doença é essa que mesmo fazendo parte de uma família tão grande, temos que sofrer cada um em um canto. Uma família enorme, muitos amigos, uma pessoa querida por tantos e não vamos poder nos despedir. Meu tio, meu padrinho. Não posso abraçar meus primos, não posso abraçar minha madrinha, não posso confortar os meus. Essa doença quando chega devasta tudo que a rodeia. Não brinque, leve a sério. Você que não dá a devida atenção a este pesadelo que estamos vivendo, pense nas pessoas que você ama, pelo menos.”

Para a diretoria do Sintrajud, a ressalva de Helena é muito importante. É preciso pensar em si, na família e na coletividade, buscando preservar e aumentar o isolamento social. Essa é, até o momento, a única forma efetiva de evitar a disseminação da Covid-19. As 5.507 mortes reportadas até a publicação desta matéria, com o país batendo recordes e já tendo ultrapassado o número de óbito na China, enquanto o presidente da República debocha e diz “E daí?”, como se não tivesse responsabilidade, evidenciam que a quarentena é fundamental.

Além do pesar e das condolências à família e aos colegas e amigos, a diretoria do Sindicato frisa que, quem puder, deve permanecer em casa.

No estado de São Paulo, no entanto, o número de pessoas que efetivamente estão em casa nunca passou de 48% da população, quando seria necessário que ao menos 70% dos paulistas permanecesse em casa para achatar a curva de contágio. Uma parte dos brasileiros que se arriscam nas ruas ou estão trabalhando em setores que não pararam as atividades ou buscam sustento. Uma parte, no entanto, instigada pelo chefe do Executivo da União, ameaça a própria vida e a de outras pessoas por não levar a sério os alertas de todas as organizações de saúde do mundo.

No Judiciário Federal, ao menos cinco colegas no país já foram a óbito pela doença. Em São Paulo, além de Roberto, os oficiais de justiça do TRT-2 José Palitot Dias Jr. e Clarice Fuchita Kestring. Mas também foram informadas às entidades sindicais como mortes associadas ao novo coronavírus as de Henrique dos Santos Castro, aposentado do TRT-4; Carlos Alberto de Araújo Rocha, do TRF-2 (Rio de Janeiro) e do agente de segurança do TRT-8 (Amapá e Pará) Gonçalo Augusto Rodrigues de Freitas.