Seminário sobre violência de gênero em encerra ciclo de formação em 2021


09/12/2021 - Shuellen Peixoto
Atividade aconteceu no último sábado, 27 de novembro, na plataforma Zoom; as próximas atividades do Coletivo serão debatidas na reunião de planejamento.

As origens das violências de gênero e o papel do Estado para reprodução deste tipo de violação foram debatidos no seminário promovido pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud – Mara Helena dos Reis, no sábado, 27 de novembro, em modo online.

A atividade encerrou o ciclo de formação sobre o combate ao machismo na sociedade e marcou a participação do Sindicato nos “21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres”, período de mobilização para erradicar esse tipo de violações que marcam a história do país desde a sua constituição, no escravismo colonial. 

O Coletivo convidou a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Raiane Assumpção e a jornalista Luciana Araujo. Raiane é doutora em Sociologia e líder do grupo de pesquisa e extensão em Violência do Estado, Direitos Humanos e Educação Popular da Universidade onde também ocupa o cargo de vice-reitora. Luciana integra o Movimento Negro Unificado (MNU) e a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

As palestrantes ressaltaram que para entender as origens da violência machista é necessário compreender o papel de dominação do Estado na estrutura da sociedade. Na opinião de Raiane Assumpção, a sociedade brasileira, construída com base na colonização e escravização, reproduz, desde a sua constituição, relações históricas de poder que resultam em violências de gênero, classe e raça. “O Estado que deveria ser o organizador da vida social e política, fica responsável por criar e sustentar mecanismos de dominação e controle, que restringem e/ou permitem acesso à dignidade humana e mantém o silenciamento de grupos sociais que questionam ou transgridem as leis colocadas”, afirmou a professora.

Luciana Araujo destacou ainda a construção cultural que mantém e alimenta a lógica de que meninos precisam ser “conquistadores”, “desbravadores” e “valentes”, ainda que pela violência, enquanto as meninas precisam ser submissas e aceitar tudo. “As violências de gênero não são mero desvio, nem do ponto de vista do aspecto social e coletivo, e nem individual. Obviamente, é preciso cobrar responsabilização individual, mas também compreender que é parte e resultado de uma perspectiva de mundo é muito importante para conseguir combater esse tipo de violação, que é a mais comum do mundo inteiro”, destacou a jornalista.

Para Luciana, a cultura do estupro, assim como o patriarcado, a colonização, escravização e o racismo estrutural são as raízes da violação de gênero, que levam a índices altíssimos de feminicídios, estupros e violência doméstica no Brasil. “Entre 2011 e 2012, estudo do IPEA apontou que quase 70% das vítimas de estupros eram crianças e adolescentes, 40% dos estupros no Brasil acontecem dentro de casa, praticados por alguém que pertence ao círculo familiar próximo, índices catastróficos”, disse.

Durante a atividade, as participantes destacaram a importância de aprofundar debates sobre as opressões para conseguir identificá-las e combatê-las. “Às vezes é difícil reconhecer, mas falta de acesso e silenciamento também são formas de violência, e são constantes no nosso convívio. É difícil identificar porque às vezes é sutil ou é uma ‘piada’, mas são também [comportamentos] agressivos. Até porque o silenciamento de uma mulher é um ato político, e reverter esse ato também é”, ressaltou a servidora do TRT-2 e integrante da coordenação do Coletivo Camila Oliveira Gradin.

Para a professora Raiane Assumpção, à medida que o debate avança, é possível que mais pessoas entendam que a violência estrutural do Estado e as opressões não atingem indivíduos apenas, mas uma parcela da sociedade. “As lutas vão se dando a partir do momento que ganhamos identidade, que identificamos que o que é vivido por mim e pelo outro não é individual, não é culpa do sujeito apenas, é algo socialmente construído. Assim é possível criar vínculos e identificar que há elementos para a construção coletiva que dão passos para romper com o silenciamento”, concluiu.

Esta foi a última atividade do ciclo de formação organizado pelo Coletivo de Mulheres do Sindicato em 2021. O balanço sobre todas as atividades e o planejamento das próximas iniciativas serão debatidos em reunião aberta a todas as mulheres da categoria, ainda com data a definir.

Veja a íntegra das falas das palestrantes:

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