Revolta na Câmara: “Para proteger generais, você trai a família militar”

“Bolsonaro, traidor”, gritaram em coro os cerca de 20 manifestantes – entre militares reformados, mulheres de militares e praças – durante a votação do projeto de reforma da Previdência Social do setor na comissão especial da Câmara que trata do assunto.

A revolta decorreu do operativo montado pelo governo para impedir mudanças no projeto. A emenda apresentada pelo PSOL, que estendia para toda a tropa uma gratificação fixada apenas para altas patentes e postos de comando, foi derrotada em uma tumultuada sessão na terça-feira, 29 de outubro. Deixo-os irritados particularmente a atuação do líder do governo na Câmara, deputado Major Vitor Hugo (PSL-RJ). O destaque foi derrotado por 18 votos a dez.

Generosa para os oficiais e bem mais amena no seu conjunto, a proposta defendida pelo governo para militares resultará, segundo dados oficiais, numa ‘economia’ de R$ 10 bilhões ao longo de dez anos, tímida mesmo considerando-se o contingente menor de segurados. A ‘reforma’ para os trabalhadores civis retirará mais de R$ 800 bilhões no mesmo período do bolso dos trabalhadores civis dos setores público e privado.

O que ocorre com os militares é que com as mudanças previdenciárias em si, o Ministério da Economia calcula uma economia de quase R$ 90 bilhões. Mas a reestruturação na carreira, que beneficia mais as altas patentes, significará um impacto financeiro de cerca R$ 80 bilhões.

O presidente que se aposentou do Exército como capitão aos 33 anos de idade montou um governo apinhado de oficiais em postos de comando, em todos os escalões da administração pública federal. Em número de ministros, supera até governos militares do período da ditadura instalada a partir do golpe de 1964.

Com esse perfil, Bolsonaro não teve pudores em disfarçar o favorecimento a seus colegas do andar de cima. Desvinculou as reformas civil e militar e patrocinou mudanças nesta última que, se trazem prejuízos para os de baixo, é um verdadeiro presente para os oficiais, em especial os de patentes mais altas. Mas mesmo os prejuízos para quem está na base dos quartéis é bem inferior aos reservados trabalhadores civis na proposta de emenda constitucional que deverá ser promulgada pelo Congresso Nacional nas próximas semanas. A aposentadoria integral, por exemplo, é mantida para todos e a regra de transição prevê um pedágio de 17% no tempo que resta para atingir as condições para aposentadoria, ante aos 100% impostos aos servidores civis.

“Eu coordenei carreatas para o senhor, eu gritei Bolsonaro 17 enquanto eles estavam debaixo de seus ar-condicionados. E hoje o senhor trai a tropa dessa maneira.  O senhor que cresceu em cima de nós faz isso conosco”, disse uma das manifestantes, ao falar para as câmeras das tevês e dos celulares. “Para proteger os seus generais, esse PL nada mais é do que [um projeto] para que os generais alcancem [esse aumento]. Nunca mais nem você nem seus filhos vão ter os votos da família militar”, disse.

O projeto agora irá para o Plenário da Câmara, movido a uma articulação protagonizada pela oposição ao governo, onde a emenda voltará a ser apresentada. O protesto ganhou grande repercussão justamente porque vem de vozes que estiveram na linha de frente da campanha a favor da eleição de Bolsonaro – e coloca em evidência que a preocupação deste governo, mesmo entre militares, é seletiva.

 

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