Previdência 2003 – 2019: O Brasil no “rumo certo . . .”, por Démerson Dias

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A coerência é fundamental na política. Política refere-se à coisa pública. Se mudamos de ideia em questões políticas importantes, é preciso dizer claramente, contextualizar, explicar. Se vai convencer nossos parceiros não depende de nós. Mas a incoerência, mesmo que não seja admitida, ou percebida, produz consequências tão graves quanto a dimensão que possui.

O tucanato inaugurou o alinhamento do Brasil com a submissão neoliberal conhecida como Consenso de Washington (1). Embora tenha parecido se contrapor, o período lulista apenas ampliou o volume de migalhas que caíam da mesa do banquete. Ensinou aos benevolentes sacerdotes da religião do mercado que era possível seguir desentranhando os pobres e ainda contentá-los apenas com uma pequeníssima fração a mais de migalhas.

O mundo não contava com a troca de guarda na Sociedade Mont Pèlerin (2). Depois de 2008 está claro que o neoliberalismo vai sangrar a humanidade, mas se esgota, porque o que era possível exaurir dos pobres até o presente ciclo alcança seu limite e, necessariamente, será preciso reorganizar as sociedades em novos patamares de exploração (ou de utopias). Hayek deu passagem a Ludwig Von Mises (3): a liquidação urgente e generalizada, saldão final do ciclo capitalista.

Do lado de cá, é a derrota (reconhecida, ou não) das esquerdas que pretendiam, humanizar o capitalismo, conciliar interesses antagônicos entre predador e presa (nós entrando com a carne e eles com os dentes, óbvio).

Alguns de nós estamos atônitos. ‘Como foi possível, tão rápido e fácil, aprovar mais esse desmantelamento do patrimônio público e oferecê-lo como oferenda ao deus mercado?’ Lamento não estar solidário com essa “novidade”.

O dia 23/10/2019 na história do sistema previdenciário brasileiro não existiria da mesma forma se em 14/12/2003 quatro parlamentares (a senadora Heloísa Helena/AL e os deputados João Batista Babá/PA, Luciana Genro/RS e João Fontes/SE) eleitos pelo principal partido de esquerda do país não tivessem sido expulsos. São simbologias que expressam as coerências de cada qual. Naquele momento o PT garantiu à religião do mercado que no espectro político brasileiro não existia força política capaz de derrotar a destruição do sistema previdenciário brasileiro, mas o resto de nós ainda não sabe o que fazer dezesseis anos depois.

Não é acaso, acidente, ou descuido. Uma parcela do mundo político, quase todo ele, na verdade, confia que o mercado irá levar a civilização à bonança. Não bastaram 1929 e sua versão revista e aprimorada em 2008. Nem as mortes, bombas e cassetetes que espremeram sangue e sonhos pelas ruas de Santiago, no Chile – repressão felizmente derrotada pela pujança da luta popular.

O Brasil realmente está no “rumo certo”. Observando o Chile já é possível começar notar a extensão e profundidade do abismo.


NOTAS DA EDIÇÃO:
(1) Documento resultante de reunião do governo estadunidense e representantes do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ocorrida na capital dos Estados Unidos em 1989 e que traçava as diretrizes para aprofundamento do modelo neoliberal nos países da América Latina, especialmente as ‘reformas’ de desmonte do Estado e a perspectiva de abandono da noção de direitos sociais para a adoção de políticas focalizadas e compensatórias de assistência, a abertura das economias nacionais as medidas de ‘ajuste fiscal’.

(2) Um dos primeiros institutos de pensamento liberal-conservador fundado no pós Segunda Guerra Mundial, em abril de 1974, na Suíça, pelo austríaco Friedrich Von Hayek (considerado o economista pai do neoliberalismo). Foi presidida também por Milton Friedman, dentre outros expoentes do pensamento que prega o “estado mínimo” no controle e regulação das ações do capital. Pode ser considerado o primeiro Think Thank conservador contemporâneo.

(3) Outro economista liberal-conservador, o austríaco Ludwig von Mises defendeu o aprofundamento do modelo neoliberal. Seu instituto mantém tentáculos em diversos países, incluindo o Brasil.

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