“Plano Doria privilegia o comércio e sacrifica a população”, afirmou pesquisador durante live do Sindicato

Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP/Ribeirão Preto, participou da transmissão online nesta segunda-feira, 22 de junho, e explicou que a reabertura neste momento pode ter consequências gravíssimas no estado de São Paulo.

“O Plano Doria privilegia o comércio e sacrifica a população”, foi assim que o pesquisador Domingos Alves, docente da Faculdade de Medicina da USP/Ribeirão Preto, abriu o debate na trigésima live do Sintrajud, que aconteceu nesta segunda-feira, 22 de junho. Durante a transmissão online, que também teve a participação dos diretores Inês Leal e Tarcisio Ferreira, o professor explicou os motivos que tornam a política de reabertura do comércio em São Paulo e no restante do país muito perigosa. Os apontamentos são resultado dos estudos realizados pelo grupo Covid-19 Brasil, uma equipe de cientistas que analisa a evolução da doença no país, a partir do monitoramento em tempo real dos dados fornecidos por fontes oficiais (veja aqui).  Domingos Alves integra o grupo de pesquisadores.

Para o professor da USP, é preocupante que, se comparado aos outros países, o Brasil tem uma curva de crescimento de casos e mortes acentuada e não desacelerou em nenhum momento.  São Paulo é ainda o estado no Brasil com o maior número de casos e, segundo Domingos, a capital é a segunda cidade do mundo número de casos, ficando atrás apenas de Nova York.

A preocupação torna-se ainda maior em São Paulo porque, segundo as recomendações da Organização Mundial de Saúde e a experiência dos demais países que começam processo de reabertura, seria necessário chegar a um momento de achatamento da curva e passar por este período durante, pelo menos três semanas. Em São Paulo a curva não parou de crescer.  “Em relação ao Brasil, São Paulo ainda é o estado com o maior número de mortos e, ao contrário do que vem sendo dito, tem aumentado cada vez mais, principalmente no interior”, afirmou o professor.

Domingos Alves defendeu que os critérios adotados por Doria no Plano São Paulo ignoram as recomendações cientificas. “Um dos critérios é número de leitos, mas tem um peso quatro vezes maior que os números da evolução da doença. Por exemplo, em uma semana um município pode elevar sua ocupação de leitos até próximo a 80%, dobrando o número de casos e óbitos, mesmo assim, segundo o plano, esse município vai garantir a permanência do comércio aberto”, explicou Domingos.  “Se continuar assim, até meados de julho, o que vamos observar em São Paulo em termos de agravo da situação vai ser uma coisa nunca vista no mundo”, destacou o pesquisador.

Trabalho presencial e elevação do risco

O professor também explicou a preocupação quanto ao retorno ao trabalho presencial em casos de atendimento ao público. “Enquanto estivermos com número de casos crescendo, qualquer pessoa está em risco, mas para atendentes o risco é maior. Por exemplo, quando vou ao supermercado corro um risco de contágio, mas a pessoa que me atendeu corre um risco ainda maior a depender de quantas pessoas ela também teve contato”, defendeu Domingos.

A diretoria do Sintrajud destacou o esforço que vem empenhando no contato com as administrações para manter o isolamento social na categoria. O Sindicato repudiou a resolução 322 do CNJ, que estabelece critérios para reabertura gradual dos tribunais, e buscou audiências as administrações de todos os ramos. Até o momento, não houve reunião apenas com a direção do TRF-3 e a Diretoria do Foro, que convocou servidores para trabalhos de digitalização, o que foi questionado pela entidade. Na semana passada, no TRE, a direção do Sindicato reiterou a preocupação com a manutenção até o momento do calendário eleitoral e as demandas por trabalho presencial.

“As medidas de reabertura, tais como estão sendo tomadas neste momento, estão contribuindo para aumentar os casos de Covid-19. Estamos bastante preocupados, vigilantes e cobrando das administrações que se comprometam com a saúde dos servidores, terceirizados, magistrados e jurisdicionados”, afirmou Tarcisio.

Para Inês Leal, os governos estaduais e do presidente da República, Jair Bolsonaro, são responsáveis pelo agravamento da crise sanitária no país. “É uma situação que todo muito percebe que tem muita coisa errada. Desde o início a gente percebia que o isolamento social do governo era insuficiente, não foram dadas condições de sobrevivência para os trabalhadores, e agora vemos uma reabertura irresponsável como essa do Doria”, disse Inês.

Na opinião de Domingos Alves, a negação do governo Bolsonaro sobre a gravidade da pandemia fez o país ultrapassar os 50 mil mortos. “Estamos sem ministro da saúde, somos o único caso do mundo em que temos um ministro da saúde interino fixo, um paraquedista que não entende nada de saúde, a grande maioria dos países garantiu o direito a quarentena, aqui não, e 90% de culpa da situação em que estamos é sim do presidente”, concluiu o professor.

O vídeo da live fica disponível para todos que perderam a transmissão ou queiram assistir novamente. Os slides utilizados durante a apresentação podem ser consultados aqui.