Luta antirracista amplia espaços, mas negras e negros ainda vivem desigualdades estruturais

Segundo dados do TSE, 32% dos prefeitos eleitos no primeiro turno se declaram pretos ou pardos, a proporção é maior do que em 2016.

No ano marcado pela indignação da população que ganhou as ruas, mesmo durante a pandemia de coronavírus, para lutar contra a violência policial e o genocídio do povo negro nos Estados Unidos e em diversos países, incluindo o Brasil, cresceu a representatividade de negros e negras nos cargos eletivos no pleito realizado no último dia 15. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, entre os prefeitos eleitos no primeiro turno, 32%  se declararam pretos ou pardos. O número é maior que em 2016, quando 29% dos candidatos eleitos se afirmaram negros.

Mesmo ainda distante da proporção populacional (56% segundo o IBGE), o número desperta esperança numa conjuntura em que negros e negras são a parcela da população mais atingida pela pandemia, pela crise econômica e seguem com menores salários no país.

Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra e de Zumbi dos Palmares, o racismo estrutural fica evidenciado na pesquisa do PoderData, que mostra que 81% dos brasileiros acreditam que existe racismo  no Brasil. No entanto, entre os entrevistados, apenas 34% assumem que reproduzem preconceitos contra pessoas negras.

Chama atenção também o aprofundamento da violência policial e o genocídio da juventude negra, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU Brasil), a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. E o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou, no último Atlas da Violência, publicado em agosto deste ano, que, entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de 11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma diminuição de 12,9%. Em todos os dados do estudo verifica-se como a condição racial potencializa vulnerabilidades e riscos (ver imagem abaixo).

A resposta do povo negro tem sido nas ruas. As manifestações contra o racismo e o genocídio da população negra vêm ganhando força, principalmente depois do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018.

O crescimento da representatividade racial nas câmaras municipais é parte do avanço dos movimentos sociais negros, principalmente das mulheres negras no país. Em 2020, completou-se 5 anos desde a primeira Marcha das Mulheres Negras — que levou mais de 50 mil cidadãs à capital federal para denunciar as condições de vida da parcela majoritária da população e a negação de direitos mesmo sob governos petistas. À época a presidente da República era Dilma Rousseff.

Em São Paulo, a articulação para a ida a Brasília resultou na constituição da Marcha de Mulheres Negras de São Paulo – que reúne diversos coletivos e ativistas e, desde 2016, sempre no dia 25 de julho, dia de Tereza de Benguela, leva milhares de mulheres às ruas da capital do estado para lembrar que Vidas negras importam. O Coletivo de Mulheres do Sintrajud tem participado dos atos que celebram também o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.

Nesta sexta-feira, 20 de novembro, acontece a 17ª Marcha da Consciência Negra, com o eixo “Vidas negras importam! Salvar vidas e garantir direitos! Fora Bolsonaro, Doria e Covas”. O ato terá início às 16h, no vão do MASP, e o uso de máscaras será obrigatório.

A diretoria do Sintrajud convida todos os servidores e servidoras para participar da Marcha contra o racismo e em defesa do povo negro.

Veja o manifesto de convocatória:

MANIFESTO DA XVII MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA DE SÃO PAULO

A pandemia de COVID-19 desnudou o que os movimentos sociais, em especial o movimento negro, vem denunciando há décadas: a desigualdade social, racismo e machismo matam todos os dias em nosso país. É por isto que voltamos em mais esse 20 de novembro para as ruas por que durante todo esse ano nós não tivemos direito a quarentena e continuamos a avolumar os números de morte por COVID-19 e de morte violenta em nossas cidades segundos dados recentes. Bolsonaro, Dória e Covas apenas seguem seu projeto genocida de sociedade e nós resistimos!

Mesmo com tantas adversidades, tivemos conquistas importantes na cidade de São Paulo. O “Memorial dos Aflitos” no bairro da Liberdade é símbolo destas conquistas e da defesa por décadas que o conjunto do movimento negro tem feito sobre o resgate e divulgação da nossa história, memória e símbolos.

VIDAS NEGRAS IMPORTAM

2020 presenciamos grandes atos antirracistas no mundo inteiro. Os atos deflagrados nos Estados Unidos a partir dos assassinatos de George Floyd e Breonna Taylor demonstraram a crueza da violência racial e policial em diversos países, no Brasil a nossa juventude foi as ruas em meio a pandemia pra denunciar que o Estado continuava a adentrar nossas casas para executar a juventude negra. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve aumento de vítimas de intervenções policiais e 8 de 10 destas vítimas são negros.

Em levantamento realizado pelo site G1 verificamos o que já sabíamos: o aumento dos casos de violência e feminicídio no período da pandemia. 75% das mulheres assassinadas no 1º semestre de 2020 no Brasil foram mulheres negras. Mesmo assim, os equipamentos públicos e programas de combate a violência contra mulher seguem sendo sucateados colocando as nossas vidas ainda mais em risco.

SALVAR VIDAS E GARANTIR DIREITOS

Os números, estudos e análises produzidos recentemente comprovam que no Brasil os principais afetados pela pandemia e suas consequências políticas e econômicas será a população negra, 54% da população brasileira. As mulheres negras chegam a receber 63% do salário de homens brancos e o retrocesso, a destruição e retirada de direitos, de ataques as liberdades e a democracia apenas nos jogam cada vez mais à margem da sociedade e não nos garantindo a possibilidade de ter uma vida digna, com direitos garantidos.

Nessa marcha vamos continuar lutando e protegendo nossas vidas e exigindo nossos direitos. Estamos na luta cotidiana na defesa do Sistema único de Saúde (SUS) de qualidade, público e gratuito, pois quem mais depende da saúde pública nesse país é a população negra. Não dá para ser antirracista e não defender o SUS. Também queremos a revogação do Sampaprev e defendemos a política de cotas raciais nos concursos públicos municipais, exigimos uma política de trabalho e emprego da população negra para poder tirar o povo negro da marginalização social, com direitos trabalhistas e sociais garantidos, além da defesa de criação de uma Renda Básica de Cidadania regular.

FORA BOLSONARO, DÓRIA E COVAS

Para nós do movimento negro é cada vez nítido que não é possível construir um Brasil que pense a maioria da nossa população enquanto Bolsonaro governar. O descaso diante da morte de mais de 150 mil pessoas, causada pelo Coronavírus e da implementação de um projeto ultraneoliberal e racista responsável pelo aumento do desemprego, da fome e da violência contra as nossas vidas demonstram isso cotidianamente.

Em São Paulo, a dobrada BolsoDória, além da defesa conjunta do Estado mínimo, tem reflexos com o aumento de assassinatos de jovens negros por parte do aparato policial nas periferias, a não existência de uma política estadual de auxílio emergencial durante a pandemia e um descaso cotidiano com a educação e saúde da nossa população. O PL 529 foi um brutal ataque promovido por Dória no estado de São Paulo contra os servidores públicos, mas contra a população negra. Com a aprovação desse projeto de lei se extinguiu a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo “José Gomes da Silva” (Itesp), responsável por executar as políticas agrárias e fundiárias do estado. Mais de 1,4 mil famílias quilombolas eram atendidas pelo órgão. Também foram extintas a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU) e a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo S. A. (EMTU/SP) que atendiam diretamente a política de moradia e transporte que atinge mais diretamente a nossa população negra e periférica.

VIDAS NEGRAS IMPORTAM! SALVAR VIDAS IMPORTAM! FORA BOLSONARO, DÓRIA E COVAS!

Coordenação da XVII Marcha da Consciência Negra de São Paulo