Live sobre depressão e suicídio em meio à pandemia encerra Setembro Amarelo no Sintrajud

Oficial de justiça aposentado Ivo Farias e psicóloga Ionice Lourenço discutiram o tema em transmissão do Sindicato.

Terminou nesta quarta-feira o Setembro Amarelo, campanha internacional que busca chamar a atenção da sociedade para o tema do suicídio e para a importância da prevenção e da posvenção. Como faz todos os anos, o Sintrajud incluiu essa discussão em sua agenda de atividades.

Na noite da terça-feira, 29, o Sindicato transmitiu pelas redes sociais e pelo site um debate com o tema “Depressão e suicídio na nova realidade de confinamento e luto”.

Participaram da discussão o oficial de justiça aposentado Ivo Oliveira Farias, sobrevivente enlutado pelo suicídio e coordenador do Grupo Luta em Luto de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio, que funciona na subsede do Sindicato, em Santos, e a psicóloga Ionice Lourenço, ativista da prevenção e posvenção do suicídio. A conversa foi mediada pelo diretor do Sintrajud Tarcisio Ferreira.

Ivo Farias, um dos fundadores do Sintrajud, analisou as circunstâncias específicas que cercaram o Setembro Amarelo deste ano, com a devastação de vidas humanas causada pelo novo coronavírus.

“O luto que está ocorrendo na pandemia é um luto em que as pessoas não estão podendo sequer fazer o ritual da despedida. As pessoas vivem o sofrimento do isolamento e de não acompanhar aquele ente querido que está em vias de morrer. Isso também é devastador”, afirmou. “Estamos distanciados e até de certa forma calados por máscaras e escudos faciais que nos impedem de transparecer nossas emoções.”

Dia de Luta

O oficial aposentado comentou também a situação da categoria dos servidores do Judiciário Federal e dos funcionários públicos em geral. Nesta quarta-feira, 30, centrais sindicais, o Fórum Nacional dos Servidores Federais (Fonasefe) e sindicatos (como o Sintrajud) organizaram manifestações pelo Dia Nacional de Luta contra a reforma administrativa.

“Estamos sendo demonizados pelo governo de plantão, que nos coloca como privilegiados, pessoas das quais se deve retirar direitos, rebaixar salários etc.”, declarou Ivo. “Não bastasse isso, já sofremos de longa data, até antes da pandemia, com a situação hierárquica a que somos submetidos, por conta dos juízes e diretores (nomeados por eles), que exigem metas inalcançáveis, e que agora, no regime de teletrabalho, impõem mais e mais, e nós nos oneramos para fazer esse teletrabalho acontecer”, declarou Ivo.

Ele observou que os oficiais de justiça são os mais atingidos pela covid-19 no Judiciário Federal, pois foram obrigados a continuar trabalhando nas ruas.

“Amor em ação”

Em relação ao suicídio, Ivo destacou a importância dos grupos autônomos de apoio aos sobreviventes e enlutados. Ele passou a frequentar esses grupos, como o que coordena na subsede do Sintrajud, após a morte da filha Ariele, por suicídio, em 2014.

“O luto por suicídio e o luto parental não têm fim”, disse Ivo. Para o oficial, somente o que ele chamou de “amor em ação” pode dar significado à vida e nos permitir superar a alternância infinita de sucessos e fracassos, como demonstrado pelos grupos de apoio e pela militância em favor da prevenção e da posvenção.

“Não importa falar só sobre o suicídio, mas também sobre como lidar com essa tragédia. Isso serve também para quem está lidando com a pandemia e com a morte de várias pessoas queridas pela covid ou passando pelas agruras desse distanciamento social”, declarou.

A psicóloga Ionice Lourenço ressaltou que as pessoas em sofrimento psíquico devem pedir ajuda e explicou o papel de amigos e familiares. “Suicídio é quando deixamos que o copo transborde”, disse a psicóloga. “Você, enquanto amigo, não precisa dizer à pessoa ‘ah, se eu fosse você’, ou dar opinião, fazer julgamento. Simplesmente ouça e depois encaminhe essa pessoa a algum centro de ajuda, a uma clínica”, disse a especialista.

Tarcisio Ferreira ressaltou que o objetivo do Sintrajud com a live foi “trazer informação para tratar de forma desmistificada esse tema, que muitas vezes é considerado tabu, mas cuja discussão tem avançado graças à contribuição de pessoas como o Ivo e a doutora Ionice”.