Há mil dias o mundo pergunta: quem mandou matar Marielle e por quê?

Manifestações em diversas cidades do Brasil e do mundo intensificam a cobrança ao Estado brasileiro por solução para o crime político de maior repercussão na última década.

Nesta terça-feira (8 de dezembro) completam-se mil dias da execução da vereadora carioca Marielle Franco, junto com o motorista Anderson Gomes, que conduzia o carro da parlamentar no noite de 14 de março de 2018 quando foram alvos de 13 disparos dos quais nove atingiram o veículo.

Desde o início o dia, movimentos sociais em diversos países realizam ações cobrando justiça e denunciando a morosidade das investigações e impunidade dos executores e mandantes.

Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Queiroz continuam presos como suspeitos do duplo assassinato, mas ainda não foram julgados. E embora a cada dia apareçam novas provas da alta periculosidade das milícias envolvidas nos crimes, o Estado brasileiro pouco fez até o momento para assegurar a elucidação de um caso com repercussão mundial cujas investigações em diversos momentos chegaram muito próximo a familiares e amigos do atual mandatário da República.

Amanhecer por Marielle em frente à Câmara Municipal de São Paulo (crédito: Annelize Tozetto).

A partir das 5 horas desta manhã foram realizadas em centenas de cidades no Brasil e em vários países ações denominadas “amanhecer por Marielle”. Faixas estendidas em grandes avenidas, cartazes colados em pontos estratégicos, bandeiraços ou mesmo lenços nas janelas cobravam respostas das instituições do sistema de segurança pública e justiça.

O Instituto Marielle Franco, criado pela família da vereadora para preservar seu legado, acompanha as investigações e promove uma série de iniciativas virtuais articuladas com as hashtags #1000diassemrespostas e #justiçaporMarielleEAnderson.

A Anistia Internacional também realiza ações nas redes para evidenciar a impunidade. Parlamentares de diversas siglas e as bancadas do PSOL também mobilizam no dia de hoje a intensificação da cobrança por solução para o caso na Câmara dos Deputados, em assembleias legislativas e câmaras municipais – especialmente no Rio de Janeiro, de onde Marielle atuava com uma agenda que tratava prioritariamente da matança promovida pelo Estado brasileiro contra a juventude negra e pobre, que ceifa também muitas vidas de policiais, que são os agentes públicos envolvidos na maioria das cerca de 60 mil mortes violentas de jovens negros anualmente.

Emily (à esquerda) e Rebeca.

Como na mais recente tragédia fluminense, que vitimou as primas Emily Victoria, de 4 anos, e Rebeca Beatriz, de 7 anos, numa comunidade da cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.  Mas duas mortes de crianças ocorridas durante operações policiais nos bairros pobres, favelas e comunidades do Rio de Janeiro. Só neste ano já somam 12 os alvos infantis fatais de balas “perdidas” em situações onde a polícia está envolvida no que o Estado chama de ‘guerra às drogas’. Enquanto o tráfico e as milícias seguem fortes, famílias são destruídas pelo luto.

Dois dias antes de ser assassinada, Marielle Franco questionara em uma rede social: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. A parlamentar denunciava que o propalado enfrentamento ao crime organizado, em verdade, tornou-se em guerra contra as populações pobres no país. No caso específico, referia-se ao assassinato do jovem Matheus Melo de Castro, que aos 23 anos foi morto a caminho de casa, na Favela de Manguinhos, no Rio, quando retornava de um culto na igreja que frequentava.

O milésimo dia sem solução para o caso Marielle e Anderson será encerrado com diversas transmissões ao vivo entre 17h e 20h, via Facebook e Instagram de artistas, ativistas, organizações sociais e políticos. E para as 21h30 está sendo convocada uma manifestação similar aos panelaços que vêm ocorrendo recorrentemente contra o governo de Jair Bolsonaro, com demonstrações das pessoas, na segurança de suas casas diante da pandemia que também não é enfrentada pelo Planalto, por meio de símbolos colocados nas janelas.

Amanhecer por Marielle em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro (crédito: Mayara Donaria/Mídia Ninja).

Durante um jogral online via redes sociais de personalidades e cidadãs e cidadãos comuns, o ato de encerramento dos mil dias está sendo chamado de ‘Grito por Marielle nas janelas’. O horário marca o momento em que Marielle e Anderson foram alvejados. As pessoas que quiserem participar estão sendo convidadas a lerem o texto disponível abaixo e compartilharem vídeos da leitura em suas redes e WhatsApp exigindo respostas às perguntas “Quem mandou matar Marielle? E por quê?”.

JOGRAL VIRTUAL POR MARIELLE

8 DE DEZEMBRO | 21H30

Entre ao vivo em seu perfil nas redes sociais e leia o texto abaixo. Em seguida, poste o vídeo e compartilhe em seu zap. Ao final, não deixe de ir à janela da sua casa e gritar por justiça para Marielle e Anderson! Use #jogralvirtual #jogralpormarielle #1000DiasSemRespostas #JustiçaParaMarielleeAnderson

Mil dias de nenhuma resposta

Quem mandou matar Marielle?

Mil manhãs nasceram

Mil sementes floresceram

Mas enquanto não tivermos justiça

Por Marielle e Anderson 

Aquela noite jamais vai acabar

Quem mandou matar?

Quem mandou matar?

Mil dias de nenhuma resposta 

E hoje, mil vezes, repetimos a pergunta

Quem mandou matar Marielle Franco?