Há 4 meses e quase 100 mil mortes a menos, Bolsonaro dizia que pandemia ‘estava indo embora’

Brasil ultrapassa 100 mil mortos pela covid-19 em menos de 5 meses; atos simbólicos em todo o país prestaram homenagens às vítimas na última sexta-feira, com participação do Sintrajud em São Paulo.

Domingo de Páscoa, 12 de abril de 2020. O presidente Jair Bolsonaro afirma que a pandemia do novo coronavírus estava perto de acabar no Brasil. “Parece que está começando a ir embora essa questão do vírus, mas está chegando e batendo forte a questão do desemprego”, disse, durante videoconferência com líderes religiosos.

A declaração já se chocava com avaliações científicas daquele momento e com os números oficiais, que registravam 99 mortes confirmadas em 24 horas e totalizavam 1.223 óbitos. Passados quatro meses e cerca de 99 mil mortes a mais, as dimensões do suposto erro de avaliação ou da má-fé no uso dos dados da saúde ficam escancaradas.

Da previsão do início do fim da pandemia, feita por Bolsonaro em abril, até o dia 8 de agosto, foram registradas quase 88 vezes mais mortes do que o número de óbitos confirmados até aquele dia. Tudo isso com base em dados oficiais do Ministério da Saúde e das secretariais estaduais, que, como é de conhecimento público, são subnotificados.

Outras declarações do presidente – como chamar a covid-19 de gripezinha – e os mais de dois meses do Ministério da Saúde sem titular parecem indicar que são avaliações como essa que norteiam as políticas do governo federal para combater a pandemia. Na quinta-feira (6), ao ser questionado sobre as cem mil vítimas fatais em cinco meses de pandemia, Bolsonaro usou alguns segundos para lamentar e dizer que tinha-se agora que “tocar a vida”, abstraindo o fato de que o Brasil segue registrando mais de mil mortes por dia.

‘Mortes poderiam ser evitadas’

Em entrevista ao site de notícias ‘UOL’, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), disse que mortes poderiam ter sido evitadas e que autoridades são responsáveis por isso. “Temos que buscar responsabilização desses agentes do poder público, que estão enganando o povo. Não tínhamos que ter 100 mil mortes. Tínhamos condições de ter segurado muito mais as mortes do que nós seguramos”, disse.

O médico criticou a propagação de notícias de curas por meio de medicamentos com eficácia não comprovada cientificamente, como a cloroquina e hidroxicloroquina, por parte de agentes públicos, como vem fazendo o presidente Bolsonaro. Essas notícias falsas, disse, trabalharam contra o combate à pandemia. “Nós resistimos ao isolamento. O presidente (Jair Bolsonaro, sem partido) resistiu ao isolamento. Veio com essa história do isolamento vertical, que é uma sacanagem. Até hoje não conseguimos proteger as pessoas mais vulneráveis, como o caso dos indígenas”, constatou.

O sanitarista também afirmou está em curso um genocídio. “Estamos promovendo um genocídio com os índios. É um genocídio real. Tem gente se colocando contra o termo ‘genocídio’, mas é real. Está acontecendo nas tribos indígenas do Centro-Oeste”, disse.

Enquanto o presidente da República nitidamente buscou fugir do assunto, na sexta-feira (7) manifestações presenciais simbólicas e eventos nas redes sociais prestaram homenagem póstuma às mais de 100 mil vítimas fatais da pandemia, no Dia Nacional de Luta e de Luto, do qual o Sintrajud participou.