Guedes resume o que Bolsonaro quer para o servidor: ‘Botamo a granada no bolso do inimigo’

Menção de ministro a salários congelados ocorre na mesma reunião em que ministro do Meio Ambiente propôs aproveitar a covid-19 para "passar a boiada"

Não faz muitos dias, o presidente Jair Bolsonaro disse a jornalistas que o projeto que congelava os salários de servidoras e servidores públicos, até janeiro de 2022, era “bom” para o funcionalismo por ser uma pequena contribuição em tempos de pandemia. Tratou a redução salarial quase como um presente. Na reunião ministerial tornada pública por decisão judicial, realizada no dia 22 de abril, descobriu-se que o ‘presente’, na visão do próprio governo, é uma ‘granada’’.

“Nós já botamo (sic) a granada no bolso do inimigo”. A frase foi dita pelo principal ministro de Bolsonaro, Paulo Guedes (Economia), sobre o congelamento salarial previsto no projeto de lei complementar aprovado no Congresso Nacional (PLP 39/2020), ainda a ser sancionado pelo presidente. O “inimigo”, no caso, são os cerca de 11 milhões de servidores públicos federais, estaduais e municipais do país. Podem ser também incluídas entre os alvos dessa política as quase 34 milhões de pessoas que integram as famílias desses servidores, segundo a atual média da composição familiar nas estimativas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Entre os inimigos, estão os servidores do Judiciário e do MPU, profissionais da enfermagem e médicos (que formam a linha de frente na luta para salvar vidas na pandemia do coronavírus), professores, pesquisadores e outros profissionais da educação e ciência, trabalhadores da limpeza pública, da assistência social e de toda estrutura estatal que ganhou mais visibilidade e destaque em diversas áreas com a crise sanitária.

A referência de Guedes aos servidores se deu logo após o ministro citar a ‘reforma’ da Previdência e a política de juros. Os servidores seriam a terceira “torre” dos inimigos a ser posta abaixo. “Nessa confusão toda, todo mundo tá achando que tão distraído, abraçaram a gente, enrolaram com a gente. Nós já botamo a granada no bolso do inimigo. Dois anos sem aumento de salário. É a terceira torre que nós tínhamos que derrubar”, disse.

Bolsonaro não se manifestou quando Guedes expôs, de forma franca, o que avalia significar a aprovação do congelamento salarial. O presidente ouviu em silêncio e anotou alguma coisa num papel. Posteriormente, não mencionou o assunto quando falou. Fez, sim, elogios ao ministro, apontando a pasta como a única em que não há necessidade de interferências do presidente.

A força da expressão usada por Guedes na reunião ministerial, na qual classifica o servidor como inimigo a ser explodido pela ‘granada’, pode ser lida ainda como um sinal de que o congelamento, nos planos do governo, é só o começo de uma política que vai mais longe. Não que as intenções do Planalto contrárias ao funcionalismo e aos serviços públicos sejam novidades. São conhecidas as posições pela redução dos salários, prevista inclusive em proposta de emenda constitucional, e pela demissão de servidores.

A novidade, no caso, é o reconhecimento forçosamente tornado público de que a letal crise sanitária – que já havia deixado quase 3 mil mortos em números oficiais à época da reunião – está sendo utilizada para implementação desses e outros projetos. Isso ficou evidente ao longo das quase duas horas da reunião ministerial. E ganhou contornos escancarados quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que era preciso aproveitar que a mídia e as atenções estavam totalmente voltadas para a covid-19 para “passar a boiada” da desregulamentação das políticas ambientais no país e outros interesses do agronegócio e do capital.

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