Enquanto setor privado fura fila, pesquisa pública anuncia avanços da vacina brasileira contra covid-19


26/03/2021 - Helcio Duarte Filho
Anúncio do Butantan, instituto que resistiu aos planos de privatização de Dória, ocorreu no dia seguinte ao Congresso aprovar orçamento com mais cortes de verbas até na saúde e nas pesquisas públicas.

O Instituto Butantan pediu à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para testes em humanos de uma vacina 100% nacional na mesma semana em que vieram à tona denúncias de que empresários do ramo de transportes de Belo Horizonte (MG) importaram imunizantes para proteger a si, familiares e políticos contra a covid-19. Representantes patronais vêm questionando a obrigatoriedade legal de doar ao Sistema Único de Saúde vacinas que venham a ser importadas pelo setor privado.

A revelação de que empresários estavam fazendo a vacinação ilegal e às escondidas foi publicada pela Revista Piauí, em 24 de março de 2021 (veja aqui). Neste mesmo dia, servidores públicos realizaram um dia nacional de protestos e paralisações, do qual servidoras e servidores do Judiciário Federal participaram.

As manifestações, convocadas pelo Sintrajud e muitas outras entidades, defenderam justamente a vacinação urgente e em massa de toda a população e a valorização dos serviços públicos, “que salvam vidas” e são alvos de ataques do governo Bolsonaro. Tanto o presidente quanto grandes corporações empresariais e financeiras atuam para passar medidas como a ‘reforma’ Administrativa no Congresso Nacional, que têm como alvo o setor público e os servidores.

Tanto a ‘reforma’ Administrativa (PEC 32), que se encontra na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, quanto a emenda constitucional que congela salários e restringe investimentos no setor público recentemente aprovada, a PEC Emergencial, foram prometidas a banqueiros e empresários pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aliados de Bolsonaro.

‘SUS e pesquisa pública’

O anúncio do desenvolvimento em fase avançada da Butanvac, uma vacina nacional, pelo instituto público do Estado de São Paulo, foi festejado por setores da sociedade que defendem os serviços públicos e a Ciência contra políticas apontadas como privatistas e/ou negacionistas. “Esta notícia confirma a qualidade e a relevância da saúde, ciência e pesquisa pública no país tanto no nível federal quanto no nível estadual, e demonstra que se estas instituições e universidades recebessem o investimento necessário, possivelmente não estaríamos na situação que estamos hoje”, afirmou Tarcisio Ferreira, diretor do Sintrajud e servidor do TRT-2.

Em entrevista à GloboNews, o infectologista Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também destacou o desempenho da pesquisa pública apesar do baixo investimento e dos cortes orçamentários. “Apesar dos governos, são respostas que nos dão orgulho”, disse o médico. “É um dia de celebração para o Brasil e para a Ciência”, ressaltou o infectologista.

Na véspera do anúncio do Butantan, o Congresso Nacional aprovou, com apoio do governo federal, a lei orçamentária para 2021 com cortes nominais ou relativos em praticamente todo o setor público, com exceção das Forças Armadas, atingindo inclusive áreas como saúde, pesquisa e universidades públicas.

Pouco tempo antes do início da pandemia, o Butantan estava nos planos de privatização do governador do Estado de São Paulo, João Dória (PSDB). Hoje, a instituição pública é a responsável pelo fornecimento da maior parte dos imunizantes aplicados até agora na população brasileira – a Coronavac, desenvolvida na China e que teve o Butantan como parceiro nas pesquisas. Cabe também a outra instituição pública, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da esfera federal, o fornecimento da quase totalidade do restante dos imunizantes que estão sendo usados na vacinação pelo sistema público de saúde.

A expectativa exposta pelos pesquisadores do Butantan é de que até o fim do ano os testes já permitam a produção de 40 milhões de doses da vacina brasileira. Há ainda outras seis pesquisas em andamento para busca de uma vacina nacional contra a covid-19, também em instituições públicas de pesquisa e educação.

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