Dor e indignação na morte de Marielle no Rio, vereadora negra, da favela e das lutas sociais

O assassinato da jovem vereadora Marielle Franco, ocorrido na noite da quarta-feira (14), no Rio de Janeiro, tem muitos indícios de execução. Assim parlamentares do Psol que se dirigiram à rua Joaquim Palhares, próximo à Estação de Metrô do Estácio, se referiram ao assassinato da militante dos movimentos sociais e a mulher mais votada na […]

O assassinato da jovem vereadora Marielle Franco, ocorrido na noite da quarta-feira (14), no Rio de Janeiro, tem muitos indícios de execução. Assim parlamentares do Psol que se dirigiram à rua Joaquim Palhares, próximo à Estação de Metrô do Estácio, se referiram ao assassinato da militante dos movimentos sociais e a mulher mais votada na última eleição municipal. O motorista que conduzia o carro em que estava, Anderson Pedro Gomes, também foi alvejado e morto. Uma terceira pessoa, assessora da vereadora, estava no veículo e não se feriu.

O crime ocorreu por volta das 22 horas, 28º dia da intervenção federal e militar no Estado do Rio de Janeiro. Socióloga e moradora da Maré, o maior complexo de favelas do Rio, eleita com 45 mil votos, Marielle tinha uma atuação marcante na defesa de direitos sociais e humanos, contra discriminações raciais e de denúncia de abusos policiais nas operações em favelas. Militante das causas feministas e LGBTs, participara da construção do ato do Dia Internacional das Mulheres no Rio, até aqui a mais expressiva manifestação de rua a contestar o decreto do governo federal de intervenção militarizada na segurança fluminense.

A vereadora havia sido escolhida, 14 dias atrás, uma das relatoras da comissão instalada na Câmara para acompanhar a atuação das Forças Armadas durante a intervenção. Também fizera, há cerca de duas semanas, denúncias nas redes sociais e na Câmara de Vereadores sobre a forma violenta como a Polícia Militar teria atuado em uma operação na favela de Acari, localizada na Zona Norte e em área periférica da cidade.

Menos de 24 horas antes de morrer, postou uma mensagem no Twitter sobre a morte de um trabalhador morador de uma favela na cidade. “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da Igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, perguntou.

Referência nos movimentos contra abusos de forças policiais, também na véspera do assassinato fora mencionada algumas vezes no ato de lançamento da Frente Contra a Intervenção Federal e Militar no Rio de Janeiro, como uma das vereadoras que mais estavam empenhadas na formação da comissão recém-instalada e que receberia eventuais denúncias.

Deputados e vereadores do Psol evitaram fazer afirmações associando diretamente a militância de Marielle como causa da possível execução. Ressaltaram reiteradas vezes que é preciso que as investigações sejam rigorosas e apontem as motivações do crime, os seus autores e possíveis mandantes.

Disseram, no entanto, que os indícios de execução são evidentes. Entre militantes da esquerda que se dirigiram ao local, muitos companheiros de luta e amigos da vereadora, a convicção de que ela foi alvo de um atentado é grande.

Informações iniciais apontam que os criminosos teriam emparelhado com o carro da vereadora e disparado. Pelo menos quatro tiros teriam atingido Marielle. A perícia encontrou nove capsulas no local. Ela estava no banco de trás, no lado do carona. O motorista levou pelo menos três tiros pelas costas. Os assassinos fugiram sem levar nada. O carro possui película escura nos vidros, o que gera a suspeita de que os criminosos teriam o seguido e sabiam a localização da vereadora dentro do veículo.

O local onde o crime ocorreu é uma via de grande movimento de carros em horários de pico e que leva à região da Tijuca, bairro de classe média na Zona Norte da capital fluminense. Não havia informações, por volta da 23h30min, sobre quantas câmeras da Prefeitura e do Detran – o local do crime fica a poucos metros de um posto do departamento de trânsito – havia naquela área, cujas imagens já teriam sido requisitadas pela Polícia Civil.

Logo após a notícia do crime circular, dezenas de pessoas se dirigiram ao local. Muitas estavam visivelmente transtornadas com o que acontecera, lágrimas e dor pela perda da amiga e companheira de luta. “Falei com ela no telefone agora há pouco, não consigo acreditar”, disse a irmã. O motorista oficial da vereadora, que estava de licença por razões de saúde, chorava e não parava de lamentar a morte.

O deputado estadual Marcelo Freixo, do Psol, falou com os jornalistas, ainda no meio da via interditada, logo após o fim da perícia e do translado do corpo para o Instituto Médico Legal (IML). “Vamos cobrar que seja feita uma investigação com rigor, todas as características são de execução. A gente quer que isso seja apurado o mais rápido possível, não é por cada um de nós, é pelo Rio de Janeiro, é totalmente inadmissível. Era uma pessoa cheia de vida, extraordinária, assassinada no momento que fazia um importante debate sobre o racismo”, disse Freixo.

Velório e vigília

O velório será na Câmara dos Vereadores, a partir das 11 horas, e deve transcorrer ao longo de todo o dia. Uma vigília em “luto e em luta” por Marielle está sendo convocada para o mesmo horário na Cinelândia, em frente ao legislativo municipal e tradicional ponto de atos políticos da cidade. Manifestações e vigílias estão sendo convocadas para várias cidades e regiões do país. Em São Paulo, o ato será a partir das 17h, no vão livre do MASP.

A notícia da morte de Marielle abalou a militância de esquerda e dos movimentos sociais do Rio de Janeiro e repercutiu com força no estado e pelo país. O movimento Marcha Mundial das Mulheres publicou mensagem nas redes sociais em homenagem à militante e em reação às violências contra elas: “Por nossas mortas, nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de luta!”.

 

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