NOTICIAS26/03/2025
Dirigente do Sintrajud é anistiada por demissão persecutória durante a ditadura militar
Por: Luciana Araujo
Ana Luiza Figueiredo Gomes foi demitida por "justa causa" pelo Unibanco em 1979, em represália por ter participado de uma greve da categoria bancária, na qual também foi liderança sindical.

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A repercussão do filme 'Ainda estou aqui', vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e que garantiu a indicação histórica à atriz Fernanda Torres, aproximou da sociedade brasileira o debate sobre os crimes praticados pela ditadura empresarial-militar de 1964 a 1985. Mas esses crimes continuados muitas vezes estão bem mais perto do cotidiano de todos nós do que a película evidenciou. É o que prova a anistia à dirigente e fundadora do Sintrajud Ana Luiza Figueiredo Gomes.Na tarde desta quarta-feira (26 de março), Ana foi anistiada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, junto com outros trabalhadores e trabalhadoras que tiveram a vida afetada pela ditadura.Militante trotskista desde a juventude, Ana Luiza sofreu diversas perseguições por defender a construção de uma sociedade socialista e lutar contra a exploração do capital sobre a classe trabalhadora. Na época da demissão, era militante do grupo político Convergência Socialista, que deu origem ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), do qual é uma das dirigentes até hoje.[caption id="attachment_78685" align="alignright" width="400"] Carta de demissão de Ana Luiza - clique para ampliar (Arquivo pessoal).[/caption]Entre as mais graves retaliações por defender os trabalhadores, Ana Luiza, que era bancária em Porto Alegre, foi demitida "por justa causa" (logo, sem direitos trabalhistas) em 18 de setembro de 1979 por ter participado de uma greve. A decisão foi comunicada por uma carta de cinco linhas (foto). A base jurídica reivindicada pelo banco foi o Decreto-Lei 1632 de 04 de agosto de 1978.O decreto baixado pelo então presidente-ditador Ernesto Geisel tipificava paralisação de atividades profissionais gerais ou parciais como ações contra a segurança nacional em diversos setores públicos e privados, entre eles os bancos. A participação em greves era qualificada como passível de responsabilização civil, trabalhista e penal.À época, Ana chegou a processar o banco, tendo como um de seus advogados o jurista Tarso Genro, que depois foi deputado, governador do Rio Grande do Sul e ministro de Estado.O processo de anistia de Ana teve início em 2011. Com a decisão da Comissão, a atualmente aposentada do Tribunal Regional Federal da Terceira Região receberá uma indenização do Estado brasileiro, além de um pedido formal de perdão por todos os danos decorrentes desta perseguição ao longo de sua vida, cujos impactos ultrapassam o período militar.Junto com Ana, 316 trabalhadores que lutaram contra a ditadura, entre eles 28 integrantes da Convergência Socialista, foram anistiados — os números evidenciam também que as perseguições eram coletivas e atingiram muitos brasileiros e brasileiras.O banco que demitiu Ana Luiza tem entre seus controladores a família Moreira Salles.O simbolismo do reconhecimento de que a demissão foi um exemplo das perseguições promovidas pelo regime dos quartéis é imenso como revisão histórica dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro e financiadores da ditadura contra brasileiros e brasileiras que denunciavam o regime e a exploração do trabalho à época.[caption id="attachment_78687" align="alignright" width="211"] Clique na imagem para aumentá-la.[/caption]Além da demissão no Unibanco, Ana Luiza ainda foi detida em outras duas greves quando foi dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, para onde migrou após ter sido demitida em Porto Alegre. Num desses episódios, em 1986, foi obrigada a assinar um documento que à época era comum dentro das prisões militares, chamado "Nota de Culpa", onde a pessoa, para ser solta tinha que admitir o que a ditadura lhe imputava (foto abaixo). Foi esse conjunto probatório, mais um monitoramento cotidiano entre 1979 e 1988, confirmado nos arquivos da ditadura, que embasaram a decisão da Comissão de Anistia sobre a perseguição do regime militar a Ana.
Ana também ainda está aqui
Ana (no centro, de pulover escuro) no 1º Congresso da Classe Trabalhadora, em 1981 (Foto: Jesus Carlos)














