Desigualdade é principal causa de mortes da covid, dizem médicos em aula do Sintrajud


29/04/2021 - Helio Batista Barboza
Gonzalo Vecina, Hermano Albuquerque e Paulo Lotufo mostraram como o governo Bolsonaro ampliou letalidade da pandemia.

 

A principal causa de mortalidade na pandemia de covid-19 é a desigualdade social e não o vírus, segundo os três médicos que participaram da aula aberta transmitida pelo Sintrajud nesta quarta-feira, 28 de abril.

Com a mediação dos diretores do Sindicato Fabiano dos Santos e Luciana Carneiro, os médicos Hermano Albuquerque, Gonzalo Vecina e Paulo Lotufo mostraram como as ações e omissões do governo Jair Bolsonaro intensificaram a letalidade da doença no país.

“Uma das coisas que temos a aprender com essa pandemia é que para enfrentá-la é preciso ter governo”, afirmou Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e um dos fundadores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Eles criticaram a falta de uma política consistente de restrição ao trabalho presencial e às atividades econômicas para deter a transmissão do vírus, como a adoção de um lockdown combinado com o apoio financeiro aos trabalhadores de baixa renda, desempregados e outros grupos vulneráveis.

“O efeito do vírus é maior para as camadas mais pobres da sociedade”, apontou Hermano Albuquerque de Castro, pneumologista e diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz). “Quem vai abrir os shoppings são os trabalhadores, os donos dos shoppings estão bem protegidos”, acrescentou.

Terceira onda em julho

Segundo os médicos, na ausência de um plano nacional, as sucessivas flexibilizações e restrições implementadas pelos governos estaduais e pelas prefeituras condenam o país a atravessar novas ondas de aumento do contágio até que pelo menos a maior parte da população adulta esteja vacinada. Isso não deve ocorrer antes do final do ano, de acordo com os três especialistas.

Vecina apontou que o Dia das Mães (9 de maio) pode ser a próxima data a gerar aglomerações, com o consequente aumento do número de casos após cerca de duas semanas. Ele também previu que a terceira onda de crescimento da pandemia pode chegar em julho. Pelos cálculos do sanitarista, o Brasil teria condições de aplicar 72 milhões de doses por mês e concluir a vacinação da população adulta em cinco meses.

O problema, porém, é que o governo brasileiro demorou para adquirir vacinas e até agora ficou na dependência do fornecimento por apenas dois laboratórios: o chinês Sinovac e o britânico AstraZeneca.

Outro fator de ampliação do risco, de acordo com os médicos, é o surgimento de variantes, que podem desafiar a eficácia das vacinas. “As fabricantes de vacina estão mergulhadas nesse momento em criar alternativas [para as variantes], que serão muito mais fáceis de serem testadas”, disse Vecina.

Hermano Albuquerque acrescentou que vacinas adaptadas às variantes do vírus podem ser desenvolvidas antes mesmo que o Brasil termine de receber os lotes já adquiridos. Ele destacou a importância de a comunidade internacional concordar com a quebra das patentes das vacinas durante a pandemia. “Seria uma possibilidade de o mundo mostrar que vidas importam, que a vacinação não pode ser fonte de lucro”, declarou.

Quem deve ser priorizado

Os médicos também debateram os critérios de prioridade para a vacinação. Lotufo criticou o fato de o Brasil não considerar fatores sociais e raciais para definir grupos prioritários. “Os primeiros estudos que fizemos mostraram que negros têm 5 vezes mais chance de morrer da covid”, disse.

Segundo o epidemiologista da USP, estavam equivocados os estudos segundo os quais os casos de covid no Brasil começaram nas classes de renda mais alta. “Os casos já estavam nos bairros pobres, só que não tinham sido diagnosticados”, explicou.

Para Gonzalo Vecina, o Ministério da Saúde deveria reunir especialistas com o objetivo de propor os critérios de priorização e submeter essa proposta à sociedade. “O mais lógico é priorizar a vacinação de quem está mais exposto”, acrescentou Hermano Albuquerque.

Em relação à volta de atividades presenciais, Vecina contou que prestou assessoria ao TRF-2 (Rio de Janeiro) para avaliar o retorno de parte dessas atividades e que considerou o trabalho “muito difícil”. Ele apontou que os tribunais geralmente funcionam em prédios antigos, sem ventilação adequada.

1º de Maio

“Precisamos exigir que esse governo seja punido por essa política genocida”, afirmou a diretora do Sintrajud Luciana Carneiro. “Vamos lutar por vacinação para todos e todas, e por auxílio emergencial de no mínimo R$ 600”, disse.

O diretor Fabiano dos Santos lembrou que a PEC 32, da “reforma” administrativa, em tramitação no Congresso, representa grave ataque aos serviços públicos e aos direitos trabalhistas dos servidores, “aprofundando essa desigualdade que, como vimos hoje, é o que mais mata nesse país”.

No próximo sábado, 1º de maio, o Sintrajud e a CSP-Conlutas participam de carreatas e de lives, em manifestações que vão exigir o fim do governo Bolsonaro, a vacinação imediata de toda a população, o pagamento do auxílio-emergencial de pelo menos R$ 600 e a rejeição da “reforma” administrativa. Na Baixada Santista, a subsede do Sindicato também participa de lives com a Frente Sindical Classista e outras organizações.

Veja a íntegra da aula aberta:

 

 

 

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