Defesa da vida contra banalização da morte na pandemia emociona em live do Sintrajud

Solidariedade com a dor do outro permeou o 34º debate com transmissão ao vivo pelas redes sociais promovido pelo Sintrajud desde que as medidas de distanciamento social na pandemia do coronavírus começaram.

A live realizada na segunda-feira, dia 6 de julho, quando os números oficiais já registravam 65 mil mortos no Brasil pela covid-19, emocionou quem participava do debate e quem interagia pelas redes sociais. “Parabéns, emocionante, Adriana Silva, obrigada por compartilhar conosco essa riqueza de atividades com muita emoção”, foi um dos comentários assinalados no chat da transmissão.

A conversa contou com dois convidados: Paulo Pedrini, professor da rede estadual de ensino de São Paulo, integrante da Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura, da Frente Interreligiosa Dom Paulo Evaristo Arns e coordenador da Pastoral Operária da Região Metropolitana de São Paulo; e a já mencionada Adriana Silva de Omulu (ou Oluaiê), militante dos movimentos que lutam “pelo direito de ser e existir no mundo com dignidade dos negros e negras e das religiões de matriz africanas” e professora aposentada da rede municipal de ensino de Diadema, no ABC.

Ambos coordenam a Rede de Apoio às Famílias e Amigos de Vítimas Fatais de Covid-19. O movimento envolve diretamente mais de 250 pessoas militantes espalhadas pelo país e cerca de 70 entidades, entre elas o Sintrajud. É voltado à ajuda a familiares e amigos enlutados e à homenagem e preservação da memória das vítimas fatais da pandemia. Foi sobre essa iniciativa, que se contrapõe à banalização da morte e à indiferença, que eles falaram nesta live do Sindicato. O debate teve a mediação dos diretores do Sindicato Inês Leal de Castro e Fabiano dos Santos.

“Que bom que nós temos pessoas que se unem em torno do amor, em torno do respeito à memória da história de todas as pessoas e que constroem um memorial e uma rede nesse sentido, para acolher e para cuidar das pessoas que precisam tanto, num momento de dor como essa, serem afagadas”, disse Adriana.

A live transcorreu no mesmo dia em que, pela manhã, foi lançado o site da Rede. O movimento, no entanto, já está em curso há bem mais tempo, tendo começado logo após o início da crise sanitária no país. “Não precisa ser nenhum vidente para saber, pelo nível dos governantes do Brasil, como eles lidariam com essa questão. Por isso pensamos em duas iniciativas interligadas: uma delas, a rede de apoio às famílias vítimas da pandemia, de modo muito diverso, inclusive [tratando] do não direito ao luto – a pessoa muitas vezes vai para o hospital e você não vê mais, e isso é muito duro; e uma outra iniciativa, o memorial das vítimas – são pessoas, não são números, e as pessoas têm as suas histórias”, explicou Paulo Pedrini, que sublinhou a participação do sindicato nessa campanha. “Quero ressaltar aqui que o Sintrajud logo se incorporou à Rede, nós somos convidados a falar aqui, mas vocês são parte da Rede e isso é motivo de muito orgulho para nós”, disse.

Paulo relatou que a rede conta hoje com profissionais voluntários de variadas áreas – como jornalistas, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, médicos -, além das entidades da sociedade civil. O apoio às famílias enlutadas pode ser uma orientação, um amparo espiritual ou uma contribuição financeira, por exemplo.

‘Falso fechamento’

A responsabilidade dos governos pelo elevado número de mortos foi assinalada em vários momentos, assim como o fato de essa política levar a um número maior de vítimas entre os mais pobres e ajudar setores empresariais a reduzir direitos dos trabalhadores em ‘um momento de tanta dor’. “Essa questão da pandemia nunca foi tratada adequadamente no país, estivemos num falso fechamento. Um falou vai para rua, o outro fique em casa, mas não se fez nada para que a população tivesse realmente condições de ficar em casa. Muita gente está morrendo de fome”, disse Paulo, que frisou que a pandemia ‘tem cor e tem classe’. “Estamos num momento crescente [de contaminações], não tivemos uma calmaria. Ao colocar todo mundo para trabalhar, ao abrir comércio, diz muito sobre o que está posto em termos de política: usar a pandemia como uma ferramenta de genocídio, uma política de extermínio e de embranquecimento da população. As pessoas não são cifras, não são coisas, são pessoas humanas que têm o direito de viver dignamente”, disse Adriana.

Opiniões compartilhadas pelos dirigentes do sindicato. “O Brasil já está com 65 mil mortes. E como ficou muito claro aqui, não são apenas números, são pessoas, são famílias. Se não tivermos esse olhar, a gente não consegue compreender o que estamos enfrentando e as medidas que precisamos tomar. E essa compreensão e solidariedade é o caminho [para enfrentar essa situação]. Não temos políticas adequadas em absolutamente nenhuma esfera de governo”, afirmou Fabiano.

“Não é possível aceitar que a gente vá trabalhar permanentemente em risco e vendo pessoas morrerem. Essa sociedade em que a gente vive tem riqueza suficiente para que as pessoas fiquem em casa e possam comer. Nós, por baixo, trabalhadores, é que vamos ter que conseguir uma saída para essa situação, uma saída digna”, defendeu Inês, citando um político que chegou a bradar que abrirá o comércio ‘morra quem morrer’, numa referência ao que disse Fernando Gomes (PTC), prefeito de Itabuna (BA).

Os debatedores transitaram, ao longo da live, por aspectos pragmáticos e materiais e por ações simbólicas e espirituais desenvolvidas pela rede de solidariedade. “Alguém precisa pensar o amor como uma possibilidade de esperança para quem continua aqui, o legado de quem partiu. E quem partiu é um Orí* retornando que precisa, assim que estiver curado do trauma de ser retirado do mundo dessa forma violenta, olhar de novo para os seus e perceber que os que estão aqui continuam o seu legado e poder descansar, poder seguir a sua travessia. Espero que as pessoas encontrem um conforto no nosso site, vejam na rede que o amor ainda existe, em cada um e em cada uma que compõe essa rede. Eu estava lembrando da música ‘Sal da Terra’, “vamos precisar de todo mundo, pra banir do mundo a opressão”. É isso. Nós vamos precisar de todo mundo que acredita, a partir da nossa juntada, da nossa união, e que essa união seja luz, seja revolução”, disse Adriana.

Paulo Pedrini disse que os desafios são muito grandes e que para enfrentá-los é necessário uma unidade de fato, que, apesar das diferenças, abrace o objetivo comum de defender a dignidade e a vida humana, em meio a essa grave crise sanitária e social. “Isso me lembra o poema de Solano Trindade, em que o ranger do trilho é ‘tem gente com fome, tem gente com fome’. “Muita gente está morrendo pelo vírus, muita gente está morrendo pela indiferença e muita gente está morrendo de fome. Temos que nos unir cada vez mais para enfrentar isso. Também me vem muito à mente aquela música da Mercedes Sosa em que ela fala ‘eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente’. Acho que é esse o espírito que dá vida à nossa rede, e obrigado por vocês fazerem parte dessa história, Sintrajud”, disse Paulo Pedrini.

* NOTA DA EDIÇÃO: Nas religiões de matriz africana, o Orí é a cabeça espiritual, o ponto mais alto do corpo humano, que conecta o indivíduo à espiritualidade e à divindade guia da pessoa.

Assista abaixo ao bate-papo virtual:

image_print