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SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL NO ESTADO DE SÃO PAULO
12/jun/2018

Crise no Hospital da USP prejudica atendimento médico de 500 mil paulistanos

Trabalhadores, estudantes e moradores protestam por repasse de verba já aprovada pela Assembleia Legislativa.

Hélio Batista Barboza

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A combinação das crises da saúde pública com a das universidades estaduais paulistas atingiu em cheio o Hospital Universitário (HU) da USP e prejudicou o atendimento médico de cerca de 500 mil paulistanos da região do Butantã, na zona oeste de São Paulo.

Na próxima segunda-feira (18), o Hospital passa a funcionar sob um novo sistema de atendimento: o Pronto-Socorro Adulto (que chegou a ser fechado no ano passado) receberá apenas pacientes encaminhados por outras unidades e serviços de saúde, enquanto estudantes e professores da USP serão atendidos somente durante a semana, das 7 às 19 horas.

Na manhã desta quarta-feira (13 de junho), às 7 horas, o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) fazem um ato de protesto em frente ao portão 1 da Universidade. Eles vão exigir o repasse ao Hospital de R$ 48 milhões – verba decorrente de royalties do petróleo e destinada ao HU por uma emenda ao orçamento estadual aprovada pelos deputados no final do ano passado.

O governo do Estado alega que o dinheiro até agora não chegou ao HU porque o relator do Orçamento, deputado Marco Vinholi, classificou a verba como sendo de custeio, e não de gasto em pessoal, principal carência do Hospital.

Além de exigir o repasse do dinheiro, trabalhadores e estudantes vão reivindicar no ato desta quarta-feira a contratação imediata de funcionários para o HU.

Protesto contra o desmonte do Hospital mobiliza a população. Foto: Coletivo Butantã na Luta

“Política de desmonte”

O “erro” na classificação da verba não seria obstáculo para a destinação dos recursos, diz Marcelo Aguirre, do Coletivo Butantã na Luta, um movimento de moradores do bairro que tem atuado contra o desmonte do Hospital.

O fato estaria sendo usado pelo governo para justificar a continuidade do que Marcelo aponta como “política deliberada de desmonte” do HU.  “Bastaria o governador Márcio França [PSB] baixar um decreto”, afirma.

A ameaça de fechamento, que paira sobre o HU pelo menos desde 2014, afeta de maneira ainda mais contundente os moradores da favela São Remo, vizinha ao campus universitário, mas também professores, alunos e funcionários da maior universidade do país.

Além disso, a interrupção dos serviços já vem prejudicando a formação de futuros médicos, enfermeiros, dentistas e outros profissionais de saúde que têm no HU o principal  local para realização de estágios e de outras atividades acadêmicas.

“É nesse serviço que os alunos têm contato com os cuidados maternos e infantis de baixo risco e com doenças mais prevalentes na população, como pneumonia, asma e apendicite, por exemplo”, escreveu Gerson Salvador, médico do HU e diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), em artigo publicado na revista Carta Capital no final do ano passado.

Responsabilidade dos reitores

Marcelo Aguirre destaca a responsabilidade dos reitores da USP – o atual, Vahan Agopyan, e o anterior, Marco Antonio Zago, na crise do Hospital.

Zago, aliás, desde abril é o secretário de Saúde do Estado. Em sua gestão à frente da USP, ele tentou desvincular o hospital da Universidade, mas estudantes e trabalhadores reagiram com greves e passeatas até que o então governador Geraldo Alckmin (pré-candidato do PSDB à Presidência da República), acabou barrando a medida.

Em 2014, Zago implantou um Programa de Demissão Voluntária (PDV) que atraiu mais funcionários do que o previsto e resultou no fechamento de 21% dos leitos do HU. Os atendimentos caíram 30% e os procedimentos cirúrgicos diminuíram 25%. Além do PDV, o quadro de pessoal foi reduzido também pela falta de reposição dos funcionários que se aposentaram.

O passo seguinte foi a tentativa, no ano passado, de repassar a operação do Hospital para a Prefeitura, mas uma dívida da Universidade com o Município inviabilizou o convênio. No ano passado, o Hospital fechou os prontos-socorros adulto e infantil.

Fim da regionalização

Agopyan assumiu a reitoria da USP no final de janeiro deste ano e já declarou que a Universidade “não é entidade assistencialista”. Ele defende que as universidades públicas se concentrem no ensino e na pesquisa e deixem de lado o terceiro tripé constitucional que diferencia uma universidade de uma instituição de ensino superior: a extensão, ou articulação do ensino e da pesquisa na relação com a sociedade. Para Agopyan, meros “esquemas para dar apoio ao aluno”.

Segundo a diretora do Sintusp Bárbara Dellatorre, que trabalha no setor de Estatísticas do HU, o modelo de atendimento que o Hospital adotará a partir da próxima semana ainda “passa por cima de um dos princípios do SUS, que é a regionalização”.

O novo modelo está vinculado à Central de Regulação da Oferta de Serviços de Saúde (CROSS), um sistema do governo estadual para distribuir a demanda entre os serviços de saúde que tenham vagas disponíveis.

“Aparentemente, isso acabaria com a fila de espera, com a planificação da oferta de vagas”, explica Bárbara. “Na prática, o que acontece é que não se tem continuidade no tratamento nem o acompanhamento dos pacientes.”

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