Coletivo de Mulheres define calendário de formação e atividades até o fim do semestre


15/04/2021 - Luciana Araujo
Roda de conversa deste mês discutiu as dificuldades que as mulheres ainda encontram para desenvolver atividades políticas institucionais e nos movimentos sociais; inscrições para a primeira atividade do ciclo de formação de 2021 já estão abertas.

Na terceira roda de conversa realizada pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud – Mara Helena dos Reis neste ano, servidoras deram continuidade a discussões sobre a participação feminina na política. De acordo com o ranking da União Interparlamentar (IPU, na sigla em inglês), o mais confiável sobre o tema, o Brasil ocupa a 142ª posição em 192 países em representatividade de mulheres no parlamento — atrás de Myanmar, da Líbia, do Gabão e todas as nações consideradas democráticas no mundo.  Na Câmara dos Deputados elas são hoje 12,4% dos representantes eleitos, com apenas 15 negras (pretas ou pardas) exercendo mandatos federais.

A violência política contra mulheres que exercem os direitos políticos previstos na Constituição Federal também vem crescendo, e na mira estão especialmente as parlamentares negras em todas as esferas de poder. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, em 14 de março de 2018, tornou-se símbolo internacional do descaso do Estado brasileiro com a vida das mulheres negras que ocupam espaços de poder. Mais de três anos depois, não há ainda respostas sobre os mandantes da execução de Marielle e Anderson Gomes, motorista que conduzia o veículo da parlamentar quando sofreram a emboscada e foram mortos a tiros no Centro do Rio de Janeiro.

“O caso Marielle evidencia as dificuldades que temos que enfrentar no dia-a-dia”, comentou a diretora do Sintrajud Maria Ires Graciano Lacerda, servidora do JEF/Capital.

Na roda de conversa do mês de fevereiro o Coletivo do Sintrajud exibiu o documentário ‘Sementes: mulheres pretas no poder’, que relata a execução de Marielle e os obstáculos vividos por outras mulheres negras que tentaram ou foram eleitas para mandatos legislativos.

Acolhimento com sigilo

As rodas de conversa vêm sendo realizadas pelo Coletivo de Mulheres desde 2019 como espaços onde as trabalhadoras podem debater temas de interesse. As sugestões dos assuntos são debatidas nas reuniões do colegiado e já foram abordadas questões como defesa pessoal e comunicação não-violenta. A partir de janeiro deste ano o espaço passou a acontecer mensalmente de forma virtual, como parte das medidas de prevenção ao novo coronavírus. Os debates são voltados exclusivamente a mulheres servidoras, estagiárias, terceirizadas que atuam nas unidades judiciárias e funcionárias do Sintrajud, por vezes com a participação de convidadas, e todas as discussões têm garantia de sigilo para que as participantes estejam mais confortáveis.

“É um espaço de acolhimento, onde cabe o sigilo, para que as mulheres possam falar o pensam, o que sentem”, ressaltou a servidora do TRT-2 e integrante da coordenação do Coletivo Camila Oliveira Gradin.

Agenda

Ao final do debate, as participantes aprovaram o calendário das atividades a serem realizadas até o final do semestre (veja no quadro ao final do texto). Será promovido um novo ciclo de formação, com o objetivo de desmistificar o conceito de feminismo, sua importância para as conquistas já alcançadas pelas mulheres e para os desafios ainda colocados à igualdade entre as parcelas feminina e masculina da população.

O ciclo tem início com o curso ‘Introdução ao feminismo’, no próximo dia 24 (sábado), das 14h às 17h, via plataforma Zoom. A atividade será conduzida pela juíza do Trabalho no TRT-15 Patrícia Maeda, que integra a Comissão Anamatra Mulheres da Associação Nacional dos Magistrados Trabalhistas. Clique aqui para se inscrever e participar

Também estão na agenda atividades formativas sobre a perspectiva do feminismo classista — que destaca que as mulheres das elites econômicas que se beneficiam da exploração das mulheres trabalhadoras — e do feminismo negro, que aponta a necessidade de reconhecer que o racismo se impõe como sistema discriminatório fundamental em sociedades como a brasileira, alijando a parcela negra da população do acesso a direitos e tornando desigual a vivência de ser mulher.

A condição racial é o principal marcador de vulnerabilidades da cidadãs pretas ou pardas e indígenas. Elas são a maioria entre as vítimas de violências e violações de direitos promovidas pelo Estado e os poderes públicos. No entanto, como destacou a teórica fundadora da perspectiva feminista negra no Brasil, a antropóloga e professora da PUC-RJ Lélia Gonzalez (morta em 1994), a tradição de resistência que as mulheres negras acumularam na preservação da ancestralidade sociocultural e política das sociedades africanas demonstra também a capacidade transformadora e de superação de iniquidades. Desde as lutas contra a escravização de seres humanos, passando pela demanda por justiça reprodutiva e acesso pleno aos direitos sociais, sexuais e políticos, o enfrentamento à ditadura e a luta contra o genocídio da população negra reforçado na política do atual governo federal, os mecanismos de organização das mulheres negras em busca do bem viver vêm promovendo mudanças progressivas que beneficiam o conjunto da sociedade, enfrentando o machismo e o racismo.

“A política de formação do Coletivo é importante porque muitas de nós queremos participar e ocupar com propriedade os espaços políticos que existem nas entidades do sindicalismo e nos mais diversos espaços de representação. Para isso, a gente precisa de formação para uma atuação qualificada. As pautas das mulheres têm estado cada vez mais presentes nos espaços, e onde isso não acontece a gente tem que levar esse debate”, destaca Luciana Martins Carneiro, diretora do Sintrajud. Luciana é servidora do TRF-3 e integra a coordenação do Coletivo.

O Coletivo Mara Helena dos Reis

O Coletivo de Mulheres do Sintrajud adotou o nome Mara Helena dos Reis em homenagem à servidora da Justiça Federal em São Bernardo do Campo e ex-diretora de base vítima de feminicídio cometido pelo homem com quem vivia em 2018. Fundado um ano antes, o colegiado já realizou sete seminários de formação política feminista e diversas transmissões ao vivo durante a pandemia para debater direitos das mulheres.

A principal campanha do Coletivo é o combate ao assédio sexual no Judiciário Federal, que tem a cartilha ‘Assédio sexual: a culpa nunca é da vítima’ (baixe aqui o PDF) como material de apoio e já fez com que o TRF-3 e o TRT-2 avançassem na constituição de comitês específicos para tratar do tema. O Sindicato defende a estruturação de uma política institucional de enfrentamento ao assédio sexual no PJU.

Agenda do Coletivo de Mulheres Mara Helena dos Reis*

24/4 (sábado)
às 14h
 Curso ‘Introdução ao feminismo’
(Clique no link para se inscrever e participar)
03/5 (segunda)
às 19h
Reunião de amplilada de planejamento de atividades e iniciativas
19/5 (quarta)
às 19h
Roda de leitura ‘O que é feminismo?’
12/6 (sábado)
às 14h
Curso de formação ‘Feminismo classista e vertentes feministas’
28/6 (segunda)
às 19h’
Roda de conversa ‘A diversidade de ser mulher’
24/7 (sábado)
às 14h
Curso ‘Feminismo negro e o pensamento de Lélia Gonzalez’

* Todos os eventos serão realizados via plataforma Zoom. As atividades de formação são abertas à a participação de homens, mas as reuniões são voltadas exclusivamente para mulheres (servidoras do PJU, estagiárias, trabalhadoras terceirizadas que atuam nas unidades judiciárias e funcionárias do Sindicato).

 

NOTA DA REDAÇÃO: A mestra em educação Amanda Lino não poderá mais participar do evento do dia 24, conforme divulgado originalmente. Texto atualizado em 16/04/2021 às 20h.

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