Colega do TRT-2 analisa o filme ‘Infiltrado na Klan’ em debate nesta quinta (21)

A servidora no TRT-2 Luciana Bento participa nesta quinta-feira (21 de fevereiro) de um debate sobre o filme ‘Infiltrado na Klan’ – ‘BlacKkKlansman’ no original. A iniciativa da Livraria Blooks localizada no Shopping Frei Caneca abordará, a partir de um diálogo sobre o livro autobiográfico do ex-agente de polícia Ron Stallworth e sobre o roteiro […]

A servidora no TRT-2 Luciana Bento participa nesta quinta-feira (21 de fevereiro) de um debate sobre o filme ‘Infiltrado na Klan’ – ‘BlacKkKlansman’ no original. A iniciativa da Livraria Blooks localizada no Shopping Frei Caneca abordará, a partir de um diálogo sobre o livro autobiográfico do ex-agente de polícia Ron Stallworth e sobre o roteiro do filme, o racismo de ontem e hoje no Brasil e no mundo.

Black Klansman, editado no país pela Seoman, assim como o filme, conta a história do primeiro detetive negro no Departamento de Polícia do Colorado (EUA). Ron ganha destaque no Departamento ao formular um plano de infiltração na principal organização supremacista branca estadunidense.

O filme dirigido por Spike Lee é um dos indicados ao Oscar, cuja premiação acontece neste domingo (24 de fevereiro), nas categorias melhor filme, diretor, trilha sonora original, ator coadjuvante, roteiro adaptado e edição.

O evento vai reunir, além de Luciana – colega lotada na Escola Judicial do TRT-2, o ator e rapper André Ramiro (que dá voz ao audiolivro de ‘Infiltrado na Klan’ lançado pela Ubook) e o sociólogo Túlio Custódio, com mediação da bibliotecária Carmem Lúcia Batista. Luciana Bento também é socióloga, escritora, criadora do projeto Quilombo Literário, no Instagram e no YouTube, colunista do portal Lunetas e blogueira no projeto ‘A Mãe Preta‘.

O debate ‘Infiltrado na Klan e o Racismo Hoje e Ontem’ acontece nesta quinta-feira (21/02), a partir das 19 horas, na Blooks Livraria do Shopping Frei Caneca (rua Frei Caneca, 569 – Consolação). A entrada é franca.

Luciana em imagem de seu Facebook pessoal.

A reportagem do Sintrajud conversou com Luciana sobre o contexto do filme. Confira abaixo uma prévia da atividade de amanhã na entrevista concedida por escrito.

“Pautas sociais, que buscam igualdade de direitos, são vistas como “esquerdistas” e ignoradas por quem não se identifica com orientações políticas de esquerda. Mas pensar em equidade de direitos para mulheres, pessoas negras e outros grupos sociais é uma questão que deveria transcender tendências políticas.”

Sintrajud –  Quais são, em sua opinião, as principais reflexões que ‘Infiltrado na Klan’ traz para a realidade brasileira atual?

Luciana Bento – ‘Infiltrado no Klan’ mostra como a sociedade é condescendente com o racismo, a ponto de permitir que um grupo racista se perpetue e perdure até o século XXI, incitando a violência racial com ações terroristas. E uma sociedade que se omite em coibir organizações desse tipo é uma sociedade que implicitamente apoia essas manifestações de ódio. O racismo é estrutural nos Estados Unidos e também no Brasil. Não temos uma organização supremacista branca com o destaque da KKK [Ku Klux Klan], mas temos reproduções de práticas racistas em todas as camadas da sociedade, que foram e são ignoradas e legitimadas pelo discurso de democracia racial, que já não se sustenta mas foi substituído pelo “somos todos iguais perante a lei”.

O filme e o livro nos fazem refletir sobre que compromissos a sociedade brasileira está disposta a assumir para combater a discriminação racial. Hoje temos um governo que incentiva o preconceito e cada vez mais a crença de superioridade branca é externalizada pelos racistas.

A estética do filme traz muitos elementos justapostos. Por isso, ‘Infiltrado na Klan’ foi considerado uma espécie de manifesto antifascista, além de antirracista. Você avalia que essa percepção tem a ver somente com o roteiro e argumento da obra ou é fruto também do contexto em que vivemos?

Sem dúvidas a escolha estética de Spike Lee traz essa sensação de manifesto. Spike Lee é um diretor negro conhecido por seus filmes sobre negritude. Recomendo muito que se leia também o livro que inspirou o filme, que tem uma proposta totalmente diferente. Enquanto o Ron Stallworth, o policial que se infiltrou na Klan, conta sua história no livro sobre um ponto de vista mais pragmático, focando a investigação e no desmantelamento da organização, Lee opta por trazer um forte tom político para o filme, destacando principalmente as cenas em que aparecem pessoas negras dançado e celebrando ou no discurso de Kwame Ture. Essa escolha de alongar essas cenas é uma forma de transmitir uma mensagem ao público, foi uma escolha de visibilizar a negritude de uma forma diferente da esperada ou retratada a partir de uma perspectiva racista. O final do filme é sensacional por realizar uma ponte entre a história e os dias atuais, se configurando em um manifesto antifascista e antirracista. A história original e a montagem do filme se somam pra mostrar que o racismo ainda é muito presente em nosso cotidiano e que sempre que há uma oportunidade ele ressurge e as pessoas sentem-se livres para discriminar.

Os dados de execução de jovens negros no Brasil e de feminicídios de mulheres negras vêm dando sucessivos saltos nos últimos anos. Por que, em sua opinião, essa realidade se perpetua?

Essa realidade se perpetua porque ainda não há uma crença verdadeira de igualdade entre as pessoas. Pautas sociais, que buscam igualdade de direitos, são vistas como “esquerdistas” e ignoradas por quem não se identifica com orientações políticas de esquerda. Mas pensar em equidade de direitos para mulheres, pessoas negras e outros grupos sociais é uma questão que deveria transcender tendências políticas. É uma questão de humanidade.

Os números da violência contra negros e negras são alarmantes, mas parece não incomodar quem não faz parte desse grupo. As pessoas precisam começar a aceitar que não é normal uma pessoa negra ser submetida a situações violentas, física ou simbolicamente, pelo fato de ser negra.

Um exemplo é o caso da socialite que decidiu fazer uma festa em um terreiro de candomblé na Bahia, posando para fotos com duas mulheres negras vestidas de mucamas, ou o caso do segurança que matou asfixiado um jovem negro em um supermercado, com a conivência de vários outros seguranças, alegando legítima defesa. Por que as pessoas fazem isso? Porque estamos vivendo um momento político em que as pessoas perderam a vergonha de serem racistas. Perderam o medo. Se o presidente da república foi eleito dando declarações racistas, porque um cidadão comum não pode dizer que não gosta de negros ou se ressentir por políticas de ações afirmativas? Esse é o pensamento de parte da sociedade, que não consegue ter empatia por uma parcela da população (a maioria) que é julgada constantemente pela sua cor de pele, que já é considerada inferior ou incapaz sem sequer ter a oportunidade de mostrar o seu valor.

Na minha opinião, essa realidade se perpetua porque não é possível acabar com racismo de forma individual. É comum as pessoas declararem que não são racistas. Mas, como diz Angela Davis, “numa sociedade racista não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”.

Precisamos enxergar a opressão racial como um problema de toda a sociedade e não só das pessoas negras, porque a transformação só tem consistência a partir uma ação integrada e não de grupos isolados. Enquanto não tivermos essa consciência e essa postura antirracista, grupos como a KKK ou o racismo à brasileira continuarão ganhando espaço e gerando mais conflitos.

Fechar Menu

Generic selectors
Apenas termos exatos
Buscar nos títulos
Buscar nos conteúdos
Buscar em Publicações
Buscar nas páginas