Cinco anos depois, servidores lembram a noite que mudou as “Jornadas de Junho”

Há cinco anos a cidade de São Paulo foi sacudida por uma manifestação popular e uma repressão policial que marcaram a história das mobilizações políticas e sociais no país. Na noite de 13 de junho de 2013, um ato convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL), que defendia a revogação do aumento das passagens de ônibus […]

PM atira bombas em direção a manifestantes na esquina das ruas da Consolação e Caio Prado, em 13 de junho de 2013. Foto: Jesus Carlos

Há cinco anos a cidade de São Paulo foi sacudida por uma manifestação popular e uma repressão policial que marcaram a história das mobilizações políticas e sociais no país.

Na noite de 13 de junho de 2013, um ato convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL), que defendia a revogação do aumento das passagens de ônibus (de R$ 3,00 para R$ 3,20), foi brutalmente reprimido pela Polícia Militar, numa explosão de violência que resultou na detenção de mais de 230 pessoas.

Foto: Jesus Carlos

Pelo grau de violência policial e pela virada que isso provocou na opinião pública (até então favorável à repressão) aquela noite é considerada o momento decisivo de um ano que entrou para a História como o ano das grandes manifestações de rua.

Iniciados como revolta contra o aumento das passagens na capital paulista, os protestos acabaram se espalhando pelo país e incorporando outras pautas, como a melhoria dos serviços públicos, mais investimentos em educação e saúde, reforma das polícias, etc.

Enquanto os governos corriam para entregar as obras exigidas pela organização da Copa do Mundo de 2014, o sentimento de indignação exibido nas ruas frustrava a expectativa de um ambiente de empolgação e ufanismo.

Cercados pela PM

Servidores do Judiciário Federal em São Paulo participaram dos protestos e acompanharam de perto seus desdobramentos. Entre eles estavam os servidores do TRT Marcus Vergne e Henrique Sales Costa, hoje diretores do Sintrajud. “A Polícia Militar de São Paulo, do tucano [Geraldo] Alckmin [então governador do Estado], apoiada pelo petista [Fernando] Haddad [então prefeito], causou cenas que jamais serão esquecidas por mim”, conta Marcus.

Foto: Jesus Carlos

No dia 13 de junho ele saiu do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa para se juntar à concentração em frente ao Theatro Municipal. Dali os manifestantes subiram em passeata pela Rua da Consolação, mas na esquina com a Rua Caio Prado a Tropa de Choque da PM – que tinha ordens de impedir o acesso à Avenida Paulista – cercou o ato e dispersou os participantes com bombas e balas de borracha.

“Só consegui voltar para casa às 22 horas, porque a polícia bloqueou todos os acessos”, diz o servidor. Das lembranças daquela noite, três ainda são nítidas em sua memória: o som dos cassetetes da polícia batendo contra os escudos, para marcar o avanço da Tropa de Choque; o cheiro do gás de pimenta (“fica com você até o dia seguinte”) e a solidariedade entre pessoas que nem se conheciam. “Talvez tenha sido a primeira manifestação de muitos dos que estavam ali”, observa Marcus.

“Um aspecto importante é que todas as agressões da PM se deram enquanto os manifestantes gritavam ’Sem Violência!’”, lembra. Ele relata ter visto os próprios policiais quebrando bens públicos e privados, como vitrines de bares e lanchonetes onde as pessoas se refugiavam.

Foto: Marcus Vergne

“O belo ato dos milhares de garotos, jovens universitários, estudantes de ensino médio, alguns acompanhados por seus pais, com suas namoradas e namorados, com flores na mão, com palavras de ordem, manifestando-se democraticamente contra o poder público, não só pelo reajuste na passagem do transporte em São Paulo, mas por uma insatisfação geral contra um Estado opressor, que abusa da sua autoridade, concentrador de renda e fascista, foi transformado num cenário de guerra urbana”, afirma o servidor.

Mudança de rumos

Henrique conseguiu escapar do “cerco” na Consolação pela Rua Amaral Gurgel, debaixo do viaduto Minhocão, de onde foi para o metrô República. Ele lembra as mudanças nos rumos da mobilização depois do 13 de junho: da manifestação daquele dia participaram principalmente pessoas e movimentos de esquerda,  ao passo que um ato na segunda-feira seguinte reuniu uma multidão mais heterogênea e praticamente impossível de ser contida.

Marcus Vergne e Henrique Costa na greve geral de 30 de abril de 2017. Foto: Joca Duarte

Na quarta-feira, 19 de junho, Alckmin e Haddad anunciaram a revogação do reajuste. “Mas no dia seguinte, outra quinta-feira, as pessoas voltaram às ruas”, recorda Henrique. “O ‘Vem Pra Rua Contra o Reajuste’ virou ‘Vem Pra Rua contra o Governo’, com maior presença de setores à direita”.

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