Aumento da miséria, inflação e queda de doações desafiam campanhas contra a fome


23/04/2021 - helio batista
Com apoio de servidores e do Sintrajud, ações lutam contra a crise humanitária causada pela pandemia e pela política genocida do governo Bolsonaro.

Foto: Reprodução redes sociais

 

A crise humanitária desencadeada pela pandemia atingiu novo patamar neste ano. O alerta feito por organizações e movimentos que ajudam as vítimas é confirmado por servidores do Judiciário Federal engajados nessas iniciativas, várias delas apoiadas também pelo Sintrajud.

Enquanto a segunda onda do coronavírus multiplica o número de mortos, cresce de forma exponencial a quantidade de pessoas que passam fome, além das que não dispõem de moradia ou abrigo e de itens básicos de sobrevivência.

Vários fatores contribuem para o recrudescimento da tragédia, todos ligados ao desgoverno Jair Bolsonaro. O auxílio emergencial foi interrompido no final do ano passado e agora está sendo retomado com valores menores e menos beneficiários. O desemprego segue em alta e os preços dos alimentos sobem a um ritmo ainda mais acelerado do que a inflação oficial. Por outro lado, diminuiu o volume de doações em campanhas de arrecadação e outras ações solidárias.

Como resultado, a paisagem das cidades é cada vez mais povoada por pessoas que dormem nas ruas e alongam filas quilométricas de distribuição de alimentos, a exemplo da que é organizada pelo padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Projeto Formigueiro (Foto: Divulgação)

Nas favelas e ocupações, assim como em muitos bairros da periferia, o quadro também é dramático. Ao distribuir cestas básicas em um desses locais, o servidor do TRT-2 Alexandre Zanella, organizador do Projeto Formigueiro, viu uma mulher preparar o jantar para os filhos com os alimentos que acabara de receber. “Ou seja, eles já não tinham o que comer”, conta Alexandre.

“A demanda por cestas básicas e o número de pessoas na rua aumentaram demais”, constata o servidor. “Às vezes, a distribuição de marmitas termina e ainda sobram cerca de 100 pessoas na fila. Isso é muito doloroso e ultimamente estou até evitando lugares onde sei que a quantidade que levamos não será suficiente”, afirma.

O servidor do TRF-3 Dalmo Duarte, que participa da campanha de solidariedade do grupo Emancipação Socialista, presenciou situação semelhante na comunidade Santa Cristina, em Santo André, onde o grupo distribui alimentos, itens de higiene, máscaras e álcool gel, atendendo desempregados e trabalhadores terceirizados. “Algumas pessoas apareceram chorando na escola onde fazemos a distribuição”, lamenta.

Trabalhador doa para trabalhador

Alexandre Zanella começou o Projeto Formigueiro cerca de duas semanas antes de a pandemia chegar ao Brasil, ajudando uma mulher que distribuía doações na Vila Brasilândia. “Parece que ouvi um chamado”, diz. Logo ele começou a espalhar a ideia pelas redes sociais, vendo o número de voluntários crescer rapidamente, assim como a quantidade de refeições entregues.

Marmitas distribuídas pelo Projeto Formigueiro (Foto: Divulgação)

Hoje, o Projeto conta com 90 voluntários. “No ano passado, chegamos a distribuir mil refeições e mil litros de água por semana”, lembra, destacando que o apoio do Sintrajud também foi muito importante para a iniciativa.

Depois desse pico, parte dos voluntários se dispersou e o volume de doações chegou a diminuir em torno de 40% neste ano, segundo o servidor. O Projeto Formigueiro ainda conseguiu fazer um grande evento de doações para pessoas em situação de rua no Natal do ano passado, mas Zanella aponta que os próprios doadores passaram a sentir um baque em suas finanças pessoais e alguns tiveram de socorrer familiares em dificuldades. O Sintrajud também contribuiu para esta ação.

O grupo Emancipação Socialista também registrou queda no volume de doações e teve até de interromper suas ações durante algum tempo. “Quem doa são trabalhadores e suas dificuldades também aumentaram”, confirma Dalmo Duarte.

Nas últimas semanas, Zanella constatou o início de uma recuperação no Formigueiro. “Em março voltamos à média de 400 marmitas por dia de distribuição e na semana passada batemos o recorde de 550”, conta. Para impulsionar a doação de cestas básicas, ele prometeu ao grupo cortar o cabelo e a barba de seis anos se o projeto atingisse 500 cestas básicas. Com o total se aproximando de 900 cestas doadas, Zanella já vê a “ameaça” de se submeter a uma depilação completa. “Percebi que essas brincadeiras aumentam a motivação [dos doadores]”, afirma, entre risos.

Reforço escolar

Brincadeiras à parte, Zanella e seus companheiros do Projeto Formigueiro se defrontam com o impacto da elevação do custo de vida sobre a ajuda humanitária. “No começo do ano passado, eu pagava R$ 7,90 em um saco de arroz [de 5 kg]; agora pago R$ 17,90. A carne e o feijão tiveram aumentos de mais de 100%”, calcula. O preço do botijão de gás acaba de atingir recorde histórico.

De acordo com um levantamento do Ipea, em dezembro do ano passado a inflação em 12 meses para as pessoas de renda alta foi de 2,7%, enquanto para as de renda muito baixa foi de 6,2%. Essa diferença de 3,5 pontos percentuais é bem maior do que a de antes da pandemia – em fevereiro do ano passado, a distância era de apenas 0,1 ponto percentual.

O impacto da inflação também foi notado pelo grupo Emancipação Socialista e no Projeto Aurora Solidária, que distribui cestas básicas em duas ocupações no Grajaú, zona sul da cidade. “A cesta básica que nos custava por volta de R$ 65 agora custa quase R$ 80”, aponta Eveline Davi de Lima, servidora do TRE que ajuda a organizar o Projeto juntamente com colegas do Judiciário Federal.

Aula de reforço escolar no Projeto Aurora Solidária (Foto: Divulgação)

Para enfrentar o aumento de preços, o Projeto mudou a forma de distribuição dos alimentos: agora, mulheres das próprias comunidades se encarregam de montar as cestas, que antes já vinham prontas. A cada mês, são distribuídas 50 cestas básicas nas duas ocupações (Porto Velho e Anchieta). “As mulheres nos relatam que do ano passado para cá aumentou muito a demanda pelas cestas”, diz Eveline.

Além dessa iniciativa, o Projeto oferece aulas de reforço escolar para cerca de 60 estudantes de quatro a 15 anos, contando com três pedagogas contratadas. As aulas são gravadas e transmitidas por meio de grupos de WhatsApp.

O prejuízo causado pela pandemia ao aprendizado de crianças e adolescentes terá repercussões de longo prazo e será ainda mais acentuado entre os alunos pobres. Por isso, o projeto prepara-se para continuar atuando nas comunidades depois da crise sanitária.  “Nosso objetivo é fazer um trabalho permanente e por isso estamos no processo de constituição de uma ONG”, afirma Eveline, que conduz o Projeto com mais 14 pessoas, a maioria servidores e servidoras do Judiciário Federal.

 

Apoio do Sintrajud vai de aldeias indígenas a ocupações urbanas

Sindicato destina recursos para ações solidárias desde o começo da pandemia

Desde o início do período de isolamento social, o Sintrajud apoia diversas ações de solidariedade às vítimas da depressão econômica.

Desde o ano passado, o Sindicato apoiou a campanha de solidariedade organizada pelo padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, prestou auxílio a  aldeias indígenas da Baixada Santista e a movimentos de ocupação urbana na capital, além de ajudar a Rede de Educadores e Solidariedade, que distribui cestas básicas para famílias de alunos das escolas municipais e cursinhos populares da periferia.

Os projetos Formigueiro e Aurora Solidária, além da Comunidade Santa Cristina em Santo André, também receberam contribuições do Sindicato.

No começo deste ano, o Sintrajud colaborou com 100 cestas básicas para a “Campanha de Solidariedade #SOSAMAPÁ Solidariedade Salva Vidas!”, destinada às famílias atingidas pelo apagão no Amapá.

Abaixo publicamos um resumo das ações apoiadas pelo Sintrajud. As listas completas de doações realizadas pelo Sindicato conforme deliberações de assembleias e congressos e solicitações encaminhadas à diretoria executiva estão disponíveis na página de prestações de contas (clique aqui).

 

Como ajudar

Veja o que e como doar para os projetos, que também recebem trabalho voluntário

O Projeto Formigueiro recebe doações de dinheiro, alimentos, água, itens de higiene e roupas, além de móveis, utensílios e eletrodomésticos em bom estado. No caso do dinheiro, Alexandre Zanella diz que doações regulares, mesmo que de pequenos valores, são mais importantes do que as doações pontuais de grandes quantias. “Isso é importante para estruturarmos o trabalho; quando recebo doação alta, procuro dividir o gasto ao longo do tempo”, explica o servidor.

O Projeto pede também garrafas PET cristal, que são usadas para a distribuição de água. As garrafas precisam ser lavadas e separadas das tampas (para não gerar mofo).

Outra forma de ajudar é com o próprio trabalho voluntário. “Além de distribuir comida, fazemos uma espécie de acolhimento e de escuta terapêutica”, diz Zanella.

O Projeto Aurora Solidária recebe doações em dinheiro na conta bancária e também está aberto à integração de novos voluntários. A servidora do TRE Eveline Lima diz que para o projeto pedagógico também é importante a doação de microcomputadores, livros e material escolar.

Para a Comunidade Santa Cristina, que vem recebendo ajuda do grupo Emancipação Socialista, são bem-vindas doações de alimentos e de produtos de higiene e limpeza, mas também depósitos em conta bancária e trabalho voluntário. “Fazemos a prestação de contas de todas as contribuições em dinheiro”, avisa Dalmo Duarte.

 

Projeto Formigueiro

Alexandre Zanella (TRT-2) – (11) 98578-4432
Chave PIX: [email protected]
NU Pagamentos S/A: Banco 260 – Ag. 0001 – Conta: 73762151-6
CPF: 173960538-11

Picpay

 

Projeto Aurora Solidária

Eveline Davi de Lima (TRE) – (11) 97368-2488
Banco do Brasil – Ag. 5704-5 – C/C 86615-6
Chave PIX: (11) 97368-2488

 

Grupo Emancipação Socialista/Comunidade Santa Cristina

José Dalmo Duarte (TRF) – (11) 97019-0193
Chave PIX: [email protected] (em nome de Silas Justiniano)

 

CSP-Conlutas lança campanha solidária

Central mobiliza sindicatos, movimentos e entidades filiadas

A CSP-Conlutas, central sindical a que o Sintrajud é filiado lançou no dia 12 de abril a campanha “Faça uma doação e alimente a luta pela vida”. Todos os sindicatos, movimentos populares e demais entidades filiados à central passam a usar suas sedes e contas em redes sociais para a coleta de doações.

“O objetivo é dar apoio aos mais necessitados de nossa classe diante da catástrofe econômica e sanitária imposta ao povo de nosso país pelos genocidas Bolsonaro e Mourão”, diz nota da CSP-Conlutas.

De acordo com a central, a campanha visa “promover a solidariedade concreta, e de classe, entre os debaixo, contra o genocídio e desprezo pelo amparo público e social promovido pelos de cima”.

A entidade defende um lockdown nacional de 30 dias com auxílio emergencial de um salário mínimo.

 

Campanha “Faça uma doação e alimente a luta pela vida”

Banco do Brasil

Central Sindical e Popular Conlutas

CNPJ 07.887.926/0013-23

Ag. 303-4

C/C 45567-9

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