Ato online neste dia 26 cobra justiça para o menino João Pedro e fim das mortes em ações policiais

Às 18 horas, a Coalizão Negra por Direitos realiza manifestação nacional online para denunciar mortes de jovens por agentes do Estado; João Pedro tinha 14 anos e estava dentro de casa quando foi baleado, seu corpo ficou desaparecido por 17 horas.

A partir das 18 horas desta terça-feira (26 de maio) centenas de organizações de direitos humanos e do movimento negro realizam um ato online por justiça para o jovem João Pedro e todas as vítimas da violência de Estado. A manifestação será transmitida pelas redes da Coalização Negra por Direitos, que podem ser acessadas clicando nestes links no Facebook, no Instagram ou no YouTube.

João Pedro Matos Pinto era um menino como muitos de nossos filhos. Tinha 14 anos, vários sonhos, estudava, frequentava o grupo de jovens da igreja evangélica da qual a família faz parte.

Mas João era um menino negro que morava em uma favela na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, na cidade de São Gonçalo. O jovem estava cumprindo o isolamento social e brincando com primos no quintal de casa, no último dia 18, quando a polícia entrou atirando atrás de dois homens, supostos traficantes, que pularam o muro da casa do menino e rapidamente passaram a outra residência. João foi atingido por uma bala de fuzil na barriga.

Os policiais o colocaram em um helicóptero, e por 17 horas, a família ficou em desespero buscando o menino em hospitais, delegacias e, por fim, o localizaram no Instituto Médico Legal de São Gonçalo. Antes, no entanto, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro informou que João Pedro foi deixado já sem vida no Grupamento de Operações Aéreas (GOA) da Lagoa, na Zona Sul da capital daquele estado, a 40 quilômetros de distância de sua casa. Passado o sepultamento do rapaz, a família contou 72 disparos nas paredes da residência.

O assassinato do menino causou comoção internacional ao evidenciar a prática das polícias no país. Dois dias depois, João Victor da Rocha, de 18 anos, foi atingido ao sair de casa para comprar uma pipa. No momento, acontecia uma das quase diárias operações policiais na Favela da Cidade de Deus, zona Oeste da capital fluminense, mesmo em meio a uma entrega de cestas básicas organizada por movimentos que realizam ações de solidariedade durante a pandemia. Nesta segunda (25), Bianca Regina Oliveira, 22 anos, foi atingida quando levantou da cama ao ouvir o barulho do tiroteio, na mesma comunidade, e foi socorrida por um vizinho, de moto, porque os policiais não se dispuseram, segundo relatou o marido à reportagem do ‘G1’.

A doutrina policial de atirar primeiro e perguntar depois também não é exclusividade do Rio de Janeiro. Juan Oliveira Ferreira, 16 anos, e Gabriel Silva Dantas, 18 anos foram assassinados no Jardim Elba, zona leste da cidade de São Paulo. No dia 20, Gabriel foi morto e aconteceu um ato de protesto no dia 21, organizado por moradores da comunidade. Os familiares de Juan denunciam que um policial civil entrou na casa da família atirando e executou o rapaz.

O inquérito sobre a execução de nove jovens durante um baile funk na favela de Paraisópolis, em dezembro do ano passado, foi arquivado. E durante a pandemia, dezenas de bairros pobres têm denunciado aumento da repressão policial sob a justificativa de combate à quebra do isolamento social. Por outro lado e evidenciando o comportamento discriminatório das polícias, as ‘carreatas da morte’, como vêm sendo chamadas as manifestações e buzinaços em portas de hospitais organizados por empresários contra o isolamento social, não têm sofrido nenhuma interferência.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), foi eleito com a plataforma de “atirar na cabecinha de bandidos”, mas operações policiais aéreas no estado já foram denunciadas por atirar de cima contra escolas, igrejas e casas em geral nas favelas e comunidades pobres. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB) defende também que PM deve “atirar para matar”.

Só no último ano, João Pedro é o quarto brasileiro menor de 14 anos foram assassinados em operações policiais no Rio de Janeiro. E o Brasil é um dos países que mais vitimam também policiais em serviço com a lógica do combate ao inimigo interno.

A Coalizão Negra por Direitos é uma articulação que congrega mais de 10 entidades do movimento negro no país e também vem cobrando às autoridades do Rio de Janeiro apuração sobre a ação policial que resultou na morte de 13 pessoas em operações realizadas no dia 16 de maio no Complexo do Alemão. Foi demandado também à Comissão Interamericana de Direitos Humanos posicionamento, identificação e responsabilização penal dos policiais envolvidos em assassinatos de moradores de favelas e comunidades pobres, além da criação de formas de controle para que essas ações não mais aconteçam.

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