Desabamento no Paissandu: abandono do Estado é a origem da tragédia anunciada


17/05/2018 - Helio Batista Barboza

Manifestação em solidariedade às famílias sem teto vítimas do desabamento, no dia 9 de maio. Foto: Mídia Ninja

O Dia dos Trabalhadores deste ano ficará na história por uma tragédia de repercussão internacional. O desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida matou ao menos quatro pessoas (duas, crianças).

As buscas por restos mortais foram encerradas pelo Corpo de Bombeiros 13 dias após o episó- dio, ainda com quatro desaparecidos. O governador Márcio França afirmou ao G1 no domingo de Mães que as condições do desastre podem ter destruído corpos. Outros 46 moradores cadastrados junto à Prefeitura antes do desabamento não se apresentaram, mas não eram considerados vítimas, pois poderiam estar fora do prédio.

Abandono do poder público

O edifício de 24 andares, com dois subsolos onde em outrora funcionou um gerador de energia elé- trica, ruiu rapidamente na madrugada. Embora tombado, a situação de abandono vinha de muito antes da ocupação. Após a Superintendência da Polícia Federal deixar o prédio, entre 2007 e 2009 funcionou ali uma agência do INSS. Os servidores denunciavam constantes alagamentos, rupturas de encanamento e infestações de ratos e insetos.

“Fizemos comunicados à Superintendência do INSS, que não tomou providência nenhuma, ao Ministério Público, à Vigilância Sanitária e ao Corpo de Bombeiros. Na época, o INSS só fazia manutenção dos três andares que ocupava. Com a chuva, o quadro se agravava porque no subsolo havia um gerador de energia que ficava submerso. A quantidade de ratos, bichos, vidros despencando era inacreditável. Os elevadores já estavam inutilizados, servidores e segurados subiam de escada”, relata Júnia Gouvêa, servidora do INSS aposentada que foi dirigente do Sinsprev e trabalhou na agência Paissandu.

Em 2015 a União tentou leiloar o prédio, mas não houve interessados. Depois, a ‘Torre de Vidro’ foi oferecida à UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) e à Prefeitura nas gestões Kassab e Haddad. Desde 2017 o imóvel estava em processo de transferência ao Município, com impasses. “Ninguém aceitou porque todas as análises constataram que não tinha nenhuma condição de ser utilizado para habitação. Custaria muito caro reformar e eliminar os riscos. A União continuou proprietária do prédio e o deixou, na situação de risco, ser ocupado, se omitiu. Sem nenhuma medida para negociar com os ocupantes uma solu- ção. Simplesmente tirar as famílias e jogar na rua não é solução”, relata o arquiteto Kazuo Nakano, professor da UNIFESP.

Falta de políticas de moradia

A cidade de São Paulo tem um déficit habitacional qualitativo (imóveis precários que exigiriam obras de infraestrutura no entorno e reforma, sem necessidade de novas construções) de 810 mil moradias.

A ambulante Sueli Oliveira Rodrigues, 52 anos, vivia no prédio há dois anos e meio. “Estava chegando na hora em que começou o incêndio”, diz, acampada no Largo do Paissandu. “Queremos um lugar definitivo para morar. Por enquanto querem dar só o auxílio aluguel, mas quem paga um quarto em São Paulo com R$ 400,00?”, relata.

Neuza Cavalcante de Souza, 55, é auxiliar de serviços gerais. Vinda de Januária (MG), estava em casa quando o incêndio começou. “Morava no térreo há uns quatro anos, eu e meu filho, de 15 anos. Saí com a roupa do corpo. Não tenho nem RG ainda pra receber o auxílio. A gente quer a moradia e um emprego para poder pagar. A gente vai conseguir”, diz.

Solidariedade

O Sintrajud mobilizou solidariedade às vítimas. Servidores doaram mais de 50 sacolas com produtos de higiene e uso pessoal.

 

A ‘Torre de Vidro’, Nicolau e o apartheid habitacional de SP

Na noite de 8 de dezembro de 2000, uma sexta-feira, uma pequena multidão se aglomerava em frente à porta de entrada do Edifício Wilton Paes de Almeida. Curiosos e indignados se revezavam em ofensas a um negativamente ilustre preso na então sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. “Ladrão, bandido, leva para o Carandiru…”.

A ira popular tinha como base o escândalo da construção do Fórum Trabalhista da Barra Funda. Foragido por quase 200 dias, o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, que presidiu o TRT-2 de 1990 a 1992, acabara de se entregar. Principal envolvido e posteriormente condenado pelo desvio de enorme fortuna, Lalau, como ficou conhecido, acabou se tornando, à época, um símbolo da corrupção que envolve empreiteiras privadas – no caso a Incal e o Grupo OK, do então senador Luís Estevão – e tira recursos públicos que poderiam ser usados em áreas essenciais, como habitação e saúde.

Dezessete anos e cinco meses depois, os 24 andares do edifício abandonado pelo poder público ruíram em chamas, ceifando vidas, deixando centenas de famílias desabrigadas e expondo o apartheid habitacional em São Paulo. Pouco antes de ser preso, Nicolau teria se hospedado em um hotel de luxo em Miami cuja diária custava 500 dólares. Os desabrigados do Wilton Paes de Almeida passaram a dormir na praça.

Por Hélcio Duarte Filho

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