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SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL NO ESTADO DE SÃO PAULO
30/maio/2018

50 anos do Maio de 68: um ano de revoltas nas ruas e sua atualidade

Em entrevista exclusiva, Maria Lygia Quartim de Moraes, professora de Sociologia da Unicamp, analisa as raízes e o legado dos protestos na França e em outros países, inclusive no Brasil.

Hélio Batista Barboza

Barricadas nas ruas de Paris (Bettmann/Getty Images, retirado do site da Rádio França Internacional/RFi).

O mês de maio trouxe muitos balanços e retrospectivas sobre os 50 anos do Maio de 68, como não poderia deixar de ser em relação a um momento histórico com tantas repercussões, ainda presentes, no debate político e na mobilização social.

A professora Maria Lygia Quartim de Moraes, do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e do Núcleo de Estudos de Gênero (Pagu), ambos da Unicamp, publicou no último número da revista Margem Esquerda, da Editora Boitempo, um artigo que mostra não apenas a dimensão dos protestos em Paris, como também de outras mobilizações ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

O artigo “Relatos do ano 1968” analisa, além da revolta de estudantes e operários na França, os movimentos hippie e de contracultura que nos EUA se manifestavam contra a Guerra do Vietnã, bem como o movimento pelos direitos civis de negros e negras, com os Panteras Negras e a figura emblemática de Angela Davis.

Maria Lygia narra também o massacre de estudantes em Tlatelolco, no México, durante uma revolta que havia começado de forma prosaica, com uma briga de torcidas, e que acabou se ampliando para uma rebelião contra o autoritarismo do governo.

Repressão às manifestações em Tlatelolco (Crédito não identificado. Publicado pela Televisa).

No Brasil, em plena ditadura militar, os protestos estudantis começaram em janeiro, contra a falta de democracia na direção das universidades. Em março, a repressão da Polícia Militar a uma manifestação contra o fechamento do restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, resultou na morte do estudante Edson Luís de Lima Souto. A reação uniu diversos setores aos estudantes, como artistas e intelectuais, culminando na famosa Passeata dos 100 mil. Em São Paulo, a “Batalha da Maria Antônia” colocou em confronto estudantes do Mackenzie, aliados a movimentos anticomunistas, e os da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, numa época em que os principais departamentos da Universidade ainda funcionavam no Centro de São Paulo.

Maria Lygia lembra outros incidentes daquele ano: a manifestação de Primeiro de Maio, na Praça da Sé, com  estudantes e operários unidos numa vaia que interrompeu o discurso do então governador Abreu Sodré; a prisão de estudantes no Congresso da UNE de Ibiúna, a greve de metalúrgicos em Osasco e a invasão dos militares ao Conjunto Residencial da USP (Crusp).

Nesta entrevista concedida ao Sintrajud por e-mail, a professora da Unicamp, que participa nesta semana de atividades acadêmicas em Londres, aborda os fatores que levaram às agitações de 1968 e aponta alguns paralelos entre a conjuntura atual e a daquela época.

 

1) Alguns analistas afirmam que não houve um Maio de 68, mas vários, em diferentes países e até em momentos diferentes daquele ano. Seu próprio texto traça um panorama que mostra essa diversidade. O que une e o que separa esses movimentos?

Na Europa, a geração 68 correspondeu ao baby boom que se seguiu ao final da II Guerra Mundial e à recuperação econômica impulsionada pelo Plano Marshall. Na Europa capitalista a democracia permitiu o fortalecimento da esquerda, especialmente dos partidos comunistas e socialistas, mas, ao mesmo tempo, permaneceram os costumes conservadores e a rigidez do sistema universitário. A Inglaterra antecipou-se à maré libertária da França e da Itália ao abrandar a disciplina escolar e, principalmente, ao descriminalizar a homossexualidade e liberar o aborto, em 1967. Na França, o estopim entre os jovens foi a arcaica estrutura de poder das universidades, tendo se iniciado na tomada da Universidade de Nanterre, em maio de 1968. A partir daí, e em resposta à repressão policial, o movimento se alastrou. Também na Itália, Alemanha, Bélgica, entre outros países, a força motora foram os estudantes universitários, com maior ou menor apoio de outros movimentos sociais.

Apesar das diferenças sociais e políticas, nos EUA, no México e no Brasil também são os jovens universitários ou secundaristas que tomam as ruas e enfrentam a repressão. E é a reação violenta das polícias que termina por levar outros setores sociais a apoiarem os estudantes.

Vimos a mesma coisa em São Paulo, em 2013. A violência da polícia do [governador Geraldo] Alckmin contra os estudantes que se manifestavam pelo passe livre gerou enorme apoio da população que, no dia seguinte à repressão, concentrou-se no Largo da Batata. Eu mesma, que não era exatamente uma apoiadora do passe livre, fiz questão de participar da manifestação contra a repressão policial.

Protestos em Paris

Assim, a juventude estudantil e suas aspirações libertárias foram o elemento unificador das revoltas de 1968.

O balanço imediato não foi de vitórias, é certo. Na França, por exemplo, o medo do radicalismo libertário garantiu a vitória da direita nas eleições que se seguiram. Mas, como os movimentos sociais se constroem na luta, nos anos seguintes o movimento feminista encabeçou as lutas contra os conservadores, garantindo o divórcio e o aborto na Itália e o aborto na França e na Alemanha nos anos 70.

 

2) É possível afirmar que havia maior unidade da classe trabalhadora naquela época e também maior integração entre as lutas dos estudantes e as dos trabalhadores? Por que é mais difícil repetir essa solidariedade entre os movimentos sociais hoje em dia?

O movimento operário desenvolveu-se como defesa contra a exploração dos patrões e donos das indústrias da metade do século XIX aos meados do XX. Com a crescente automação do processo produtivo (a passagem do taylorismo para o toyotismo como forma de organização das fábricas) e as profundas mudanças introduzidas pela eletrônica, a composição da classe trabalhadora mudou muito, diminuindo o contingente de trabalhadores menos qualificados que poderia ser empregado. Hoje é mais do que evidente que o sistema capitalista não tem como absorver a força de trabalho disponível, o que aumenta a concorrência entre os que precisam de um trabalho e o poder de barganha dos empregadores. A perda de direitos trabalhistas, a vulnerabilidade do desemprego e o cinismo da ideologia do empreendedorismo, que culpabiliza o desempregado pelas mazelas do sistema, são evidências de nossa realidade planetária.

A diminuição dos empregos formais, a queda da taxa de sindicalização e a rotatividade da mão de obra reduzem ainda mais o poder de barganha dos operários. Só os protegidos pela legislação ousam fazer greve. No Metrô, por exemplo, as linhas privatizadas não participam das paralisações, via de regra. Não à toa, as privatizações do setor público são uma preocupação prioritária das políticas neoliberais. Na França de maio de 2018 os ferroviários, cujo sindicato é poderoso, resistem às perdas de direitos trabalhistas com uma greve que já dura semanas e a oposição às políticas neoliberais de [Emmanuel] Macron tem crescido enormemente.

Pode-se dizer que a desmoralização dos partidos tradicionais de centro-esquerda, como a social-democracia, deve-se principalmente ao fato de terem se curvado às exigências do FMI e das poderosas forças econômico-financeiras pomposamente chamadas de Mercado. Basta observar o que acontece na Itália e na Espanha, com o desmoronamento dos partidos tradicionais. Em compensação, novos movimentos sociais ocupam a cena política, seja com propostas de direita (no caso europeu, baseadas no sentimento anti-imigrantes que viraram o bode expiatório da crise econômica), seja com um nacionalismo sem perspectivas, como na Catalunha. A desmoralização dos políticos tradicionais abre espaço para oportunistas que se apresentam como o “Novo”, como o ex-prefeito João Doria e o candidato de extrema-direita Bolsonaro.

Mas não concordo com a afirmação de que em 1968 houve uma solidariedade entre os movimentos sociais que não existe hoje. Ao contrário, o que temos presenciado é a renovação dessas alianças dos movimentos sociais progressistas e um crescimento das manifestações contra as políticas de austeridade e de usurpação de direitos.

 

3) Citando o elogio de Hannah Arendt aos jovens de 68, que tinham “determinação para agir” e “certeza de poder mudar as coisas pelos seus próprios esforços”, você diz que essas características desaparecem quando o “sujeito” da reivindicação depende da caridade e das políticas compensatórias. Como isso se aplica ao Brasil de hoje?

A melhor maneira de se consolidar e radicalizar as instituições democráticas reside no fortalecimento dos movimentos sociais e dos direitos de cidadania. Nossa independência se deu por um arranjo no interior da monarquia portuguesa, diferentemente dos demais países da América Latina. Fomos um dos últimos países a abolir a escravidão, abandonando os antigos escravos à sua sorte e ainda há quem diga que não somos racistas… Não tivemos revolução burguesa, pois a classe de latifundiários permaneceu no poder e continua vampirizando o Norte e o Nordeste, com os Alves, os Sarneys, os Barbalhos, os Lyra, os Magalhāes e outas oligarquias familiares.

Getulio Vargas reprimiu as organizações independentes de trabalhadores e tutelou o movimento operário por meio da CLT, que só valia para a indústria, de maneira que a situação dos trabalhadores e pequenos produtores do campo sempre foi miserável. Quando Lula surgiu como alternativa aos pelegos da ditadura militar, houve a esperança de que finalmente algo de novo e de muito importante ocorria no país.

Quando o PT do Rio Grande do Sul introduziu novas políticas sociais e na aérea da administração pública preconizou a transparência orçamentária, as esperanças cresceram. Quando da organização e mobilização em torno do Fórum Social Mundial, a partir de 2001 nosso país se tornou referência internacional. Finalmente o Brasil tinha um partido próximo dos movimentos sociais e preocupado com a boa gestão pública. E quando Lula introduziu a Bolsa Família e seu governo foi o primeiro a demonstrar uma sintonia com os problemas da maior parte da população, o Brasil virou um modelo para a esquerda mundial.

Maria Lygia Quartim de Moraes

Mas a lógica do “realismo político” prevaleceu. Não tenho dúvidas que José Dirceu acreditava sinceramente que era melhor para o país dar uma mesada para a canalhada que dominava o Congresso do que conceder cargos. Mas não podemos nos esquecer que o” mensalão” também objetivava garantir votos para uma reforma da Previdência que tirou direitos dos professores sem ousar mexer no Judiciário ou nas forças armadas.

Além da comprovada institucionalização da corrupção na Petrobras e nas obras públicas, o PT permaneceu tutelado pelo conservadorismo da Igreja Católica no tocante aos direitos da mulher (sem negar a importância da luta contra a violência sofrida pelas mulheres), como se observa no retrocesso do direito ao aborto (porque o direito a decidir sobre o próprio corpo é um direito inalienável da mulher), diferentemente do que aconteceu em Portugal, no Uruguai e deve ocorrer na Irlanda do Norte após o referendo de 27 de maio de 2018. É uma ironia que tenha sido somente na Parada LGBT de 2017 que a defesa do Estado Laico tenha tido sua importância ressaltada.

Em outras palavras, o partido que nasceu dos movimentos sociais passou a tutelar esses movimentos e acreditar que eles deveriam ser gratos ao governo petista, como reveladora e canhestramente formulou Gilberto Carvalho por ocasião das manifestações de 2013: ‘puxa! que ingratidão dos movimentos sociais!’

Enquanto prevalecer essa concepção de tutela dos movimentos sociais e a ideia de que as relações entre movimentos sociais e governo devam ser de gratidão, nossa democracia continuará atada ao patrimonialismo político.

“Diferentemente de outras revoluções, a de 1968 tina como objetivo mudar o mundo, e não tomar o poder, no sentido de se apropriar do poder de Estado”, diz Maria Lygia. Foto: Goksin Sipahioglu

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