DPC - Diagnóstico
e Premissas
Conforme entendimento da última
reunião do grupo temático sobre DPC, as entidades sindicais
apresentam suas considerações sobre diagnóstico.
Há que se registrar que existe diferença de opinião
entre governo e sindicatos quanto ao diagnóstico necessário
para embasar o debate sobre a carreira. A apresentação da
situação atual, sobretudo dos pontos em que existiriam as
maiores distorções não é suficiente para se
alcançar uma visão crítica da situação.
Entender os mecanismos que propiciaram tais distorções é
tão ou mais importante do que constatá-los.
Nestes termos é importante apresentarmos algumas preliminares que
permeiam todo o debate sobre carreiras, conquanto não seja possível
no curtíssimo prazo proposto elaborar uma avaliação
aprofundada dos fatores envolvidos.
1. Preliminares para DPC
1.1. Isonomia
As primeiras constatações
que saltam aos olhos quando se observa a situação das carreiras
na Administração Pública Federal (APF) é:
a) de um lado a disparidade entre salários nas diversas categorias
dentro de um mesmo nível sem que se consiga perceber, numa análise
preliminar, razões para essa disparidade; b) e de outro lado a
evidente desorganização presente entre atividades assemelhadas.
Não são somente os imperativos
de racionalidade que buscam equacionar as retribuições salariais.
A percepção das distorções gera uma demanda
natural, sobretudo quando as disparidades variam em níveis irracionais
de diferença. Claro que a situação de arrocho adotado
como efetiva política de remuneração potencializa
esse problema. Mas o prejuízo maior fica por conta da própria
APF, cujas carreiras concorrem entre si de maneira despropositada.
Entendemos que estabelecer parâmetros
mínimos de isonomia é essencial para se estabelecer Diretrizes
consistentes no âmbito das Carreiras. Outras razões são
apresentadas adiante.
1.2. Política Salarial
Como já afirmado em mais de
um momento, a ausência de uma política salarial expõe
as categorias a toda sorte de casuísmos. Serão artificiais
e frágeis todas as iniciativas de se organizar as carreiras no
âmbito da APF se não houver compromisso efetivo com uma política
de reposição de perdas que permita manter o equilíbrio
eventualmente alcançado a partir de diretrizes gerais.
Uma vez definidos os parâmetros
que orientam a organização das carreiras na APF, somente
uma política geral de remuneração manterá
essa organização.
2. Elementos de diagnóstico
2.1. Precariedade de Informações e política de
desmonte
O principal empecilho para que se
possa fazer um diagnóstico mais qualificado da APF é a ausência
de dados sistematizados sobre a realidade da administração
pública. Se durante o regime militar a organização
do Estado não fazia parte das prioridades, o período da
chamada redemocratização não avançou substancialmente
nesse aspecto. Se os sindicatos conseguem aprofundar a análise
sobre a situação da APF isso se deve à constatação
empírica dos trabalhadores associada à formulação
política e a um árduo trabalho de unir fragmentos.
Apesar da fragilidade os resultados
obtidos acabam sendo mais consistentes do que os que parte dos órgãos
de gestão. A ausência de parâmetros teóricos
mais elaborados para justificar a implantação das políticas
de gestão ou o uso de parâmetros flagrantemente contraditórios
com o papel do Estado até mesmo para os marcos da democracia burguesa
impõem aos órgãos de gestão leituras inconclusivas
ou que levam a conclusão de falsas premissas.
2.2. Relações promíscuas entre o público
e o privado
Durante o governo Collor, as tentativas
atabalhoadas de desmontar de forma desesperada o Estado foi respaldada
por uma campanha difamatória que começa a reverter a expectativa
da sociedade em relação ao Estado. Após a ditadura
militar os serviços públicos de forma geral e para além
de sua precariedade generalizada ainda era distinguido pela população
como um bem comum.
Os elementos mais impactantes que
iniciariam a reverter essa expectativa, além da criminosa difamação,
surgem da percepção dos resultados de décadas seguidas
de gestões privadas do Estado. Não caberia aqui aprofundar
esse debate, inclusive porque Raymundo Faoro o situa já no nascedouro
de nossa história. Mas é certo que a crise do governo Collor
repercutiu negativamente na APF, sobretudo porque setores formadores de
opinião vincularam a corrupção ao funcionamento da
máquina para acobertar sua relação com o crime organizado
que existe (ainda hoje) em inúmeras esferas da relação
estatal/privado.
Essa promiscuidade avança sobre
praticamente todos os setores em que o Estado atua. Claro que é
necessário perceber que a atuação do Ministério
Público que se aprimora a partir da CF 88, expõe algumas
das situações mais flagrantes. Mas coube à mídia
o papel de associar de forma indiscriminada as ações de
saneamento com as debilidades crônicas da administração
pública.
Evidentemente não se menciona
que, sobretudo nos últimos anos o que pautou a política
de recursos humanos no setor público (para além do clientelismo
sistemático) foram visões tipicamente privadas do papel
do Estado, quando não essencialmente privatistas. Apenas para citar
os mais flagrantes, mencionamos João Mellão Neto e Bresser
Pereira.
Não se pode desconsiderar esses
elementos essenciais na conformação do Estado nos últimos
anos quando se pensa em diagnosticar qualquer aspecto envolvendo a APF.
Especificamente em relação
às carreiras, ao passo que desmontava diversas repartições
federais, o governo Collor procede a um enxugamento do número de
tabelas existentes em nível federal. Ao invés de propor
um amplo debate e realizar estudos conseqüentes para possibilitar
a superação das distorções então existentes,
o governo realiza de forma praticamente unilateral as alterações,
cumprindo aos sindicatos da área procurar conquistar um enquadramento
menos desfavorável para sua categoria.
Além disso, Collor inaugura
também no Estado a safra de demitidos de forma arbitrária,
vários dos quais até hoje procuram seus direitos, mormente
através do judiciário e de iniciativas legislativas.
Naquele momento é atinge um
novo patamar a adoção do casuísmo na formatação
das carreiras que mais tarde diante de impasses em relação
à política salarial na APF irão agravar uma situação
já francamente precária. A forma indiscriminada e precipitada
como o governo propõe solucionar os problemas das carreiras impulsiona
o fortalecimento de bandeiras como isonomia e pavimenta o caminho para
as soluções emergenciais através da redefinição
de tabelas.
Nesse aspecto, o governo Itamar representa
apenas uma transição para o seguinte. Quem consagra efetivamente
essa investida é o governo FHC que inaugura a adoção
de redefinições nas carreiras por medida provisória.
Demandaria um livro inteiro aprofundar
as iniciativas desse governo na área da APF. Num primeiro momento
a privatização das funções públicas
através das agências executivas somada a pretensão
de estabelecer "núcleos estratégicos" na APF representou
uma investida bárbara não somente nas atribuições
e papel do Estado comprometendo de forma irreversível as fundações
da organização das carreiras. Não satisfeitos com
a capacidade de auto-preservação do Estado, no segundo mandato
o governo parte para investida ostensiva contra todas as estruturas existentes.
O governo abandona até mesmo as variações bresserianas
de Estado Mínimo e atenta, da forma mais indiscriminada possível,
contra as diversas formas de organização do Estado.
Com FHC é inaugurada a fase
de estrangulamento do orçamento na área social para ser
redirecionado aos interesses do mercado de capitais. Processo que se mantém
de forma persistente e crescente durante o governo Lula.
Dessa forma uma verdadeira sangria
dos recursos originalmente públicos são utilizados para
dar sustentação aos interesses privados no país e,
principalmente, fora dele.
2.3. Um Estado sem dimensão de si
Considerando-se o interesse de se
desmantelar o Estado, é de se supor que a precariedade de informações
e estudos acerca da APF tenham sido agravados pela radicalização
da visão privatista do Estado.
Iniciativas esparsas e fragmentadas
tentaram equacionar a situação existente, várias
delas nem sequer se originaram nos departamentos do Estado, mas nas proposições
alinhavadas no mundo acadêmico.
Se considerarmos Bresser Pereira como
um parâmetro válido, este representa o pensamento mais consistente
existente nas últimas décadas. Na visão do movimento
sindical, o pensamento de Bresser representa a mais séria investida
contra a função social do Estado e em favor de uma visão
adaptada de Estado Mínimo cuja orientação está
intimamente vinculada à leitura neoliberal do papel dos Estados
nacionais em países periféricos.
Não se deve ceder à
formulação simplista de que o Estado brasileiro de forma
geral e a APF especificamente sejam ineficientes. Em vários momentos
é possível perceber orientações suficientemente
claras que compreendem em atuação programática do
Estado em direção a um tipo de concepção de
administração pública. Não é possível
negar que o Estado em diversos setores e aspectos está
garantindo a incursão e permanência de práticas contraditórias
ao interesse público.
Os expedientes utilizados consistem
desde brechas e manipulações da Lei 8.666/93, passando por
uma série de dispositivos e indo confluir na Lei complementar 101/00,
que sacramenta a subordinação absoluta dos interesses públicos
à conveniência do apetite privado.
A própria anomia em que é
lançada a CF88, omitindo a regulamentação de inúmeros
dispositivos de interesse social, contribui para uma subversão
frontal do espírito que norteou a redefinição do
Estado no pós-ditadura.
Como desfecho dessa política
premeditada encontramos as contra-reformas de caráter neoliberal
cuja versão para a previdência concluída já
no governo Lula é exemplo por demais eloquente.
A ausência de acompanhamento
e diagnóstico permanente da APF não é um fato isolado
e acidental. Trata-se de conseqüência de uma política
de inversão de valores que correspondem a uma extensão da
proposta de exceção democrática que tomou de assalto
o país nos idos dos anos 60. O Estado que passava por inúmeros
questionamentos e pressões por maior democracia na primeira metade
do século passado foi lançado em uma transversal que buscou
resguardar tanto o ambiente político autoritário e profundamente
elitista, quanto o aparelho do Estado francamente sensível e disponível
à orientação e aos interesses das elites nacionais
e, sobretudo, estrangeiras.
A organização do Estado,
mesmo em termos essencialmente liberais não é conveniente
aos interesses das classes dirigentes. A óbvia falência dos
mercados em produzir qualquer espécie de reorganização
sócio-econômica em favor dos excluídos não
deve ser confrontada com um projeto de reorientação da máquina
pública.
Dessa forma, quanto mais desorganizada,
incógnita e deficiente for a APF, mas vantajosa é a posição
dos setores dominantes.
Ao contrário do que se faz
supor, a definição de uma estrutura racionalizada e consistente
de carreiras públicas corresponde a avanços substantivos
aos interesses gerais da população, sobretudo a que depende
socialmente das funções do Estado, em oposição
aos que somente se valem de seu papel coercitivo sócio e economicamente.
2.4. Balanço do Desmonte
Os Serviços Públicos
estão sendo extintos e isso é resultado de uma política
autoritária e equivocada do Governo de FHC. Se é verdade
que o processo de extinção de órgãos, servidores,
etc, iniciou no Governo Collor, também é verdade que foi
no primeiro e no segundo Governos de FHC que tomou força, corpo
e política após a publicação do Plano Diretor
da Reforma do Aparelho de Estado. Assim como, condiz com a verdade dizer
que o Governo atual continua encaminhando a mesma política que
vinha sendo implementada pelos governos anteriores.
A lista de órgãos "liquidados"
não é pequena. Entre os 45 órgãos extintos
podemos citar para conhecimento: MARE; MBES; MCT; SUDAM; INDESP; SUDENE;
SUNAB; LBA; FAE; Delegacias do MEC; Delegacias do Ministério das
Comunicações; DNER; entre vários outros. Vejam é
uma gama ampla de atividades que são destruídas pelo Governo:
Administração, Assistência Social, Desenvolvimento,
Educação, etc. Na verdade, isso ocorreu para fazer valer
as determinações do FMI para conter os gastos públicos
e manter o superávit primário.
Devemos ter clareza, no entanto, que
a política é uma só. Não existe discussão
com a sociedade, com os servidores e, quase nunca, com o próprio
parlamento (mesmo com maioria conservadora e governista). É fácil
constatar essa nossa afirmação principalmente através
de uma análise atenta dos instrumentos utilizados para o processo
de liquidação, pois, a grande maioria dos órgãos
foram extintos por meio de Medidas Provisórias e Decretos. Foram
"canetadas" irresponsáveis de quem só tem, como
objetivo, cumprir as determinações do imperialismo.
Na verdade, o primeiro projeto do
Governo de FHC, pretendia transformar os órgãos em Organizações
Sociais e Agências Executivas (ou reguladoras). As Organizações
Sociais são uma espécie de ONG criada pelo próprio
Estado, por dentro do próprio Estado, que altera a forma de propriedade
e que, por conseqüência, transforma o Aparelho de Estado alterado
em propriedade privada. Dizia o documento governista da época que
tais propriedades seriam "sem fins lucrativos". Isso seria verdade
se o lucro (e a margem de lucro) for, única e exclusivamente, produto
da apropriação do excedente, após pagar trabalhadores,
comprar matérias primas e manter a infra-estrutura necessária.
No entanto, como estamos falando de serviços, essas coisas não
são tão simples assim. Verifica-se que os altos salários,
as terceirizações, a precarização progressiva
do contrato de trabalho, a transformação do serviço
em mercadoria de troca, (ou qualquer forma de transferir recursos do Estado
para propriedades privadas) acabam formando ingredientes para o lucro
dos capitalistas. É claro que no meio de tudo há uma grande
pitada de patrimonialismo e corrupção, tudo "dentro
da Lei" e assegurado por meio do Contrato de Gestão.
Já as Agências Executivas
(ou Reguladoras) são, segundo o Governo, autarquias especiais.
Não há, aparentemente, alteração da forma
de propriedade. Mas isso é, na verdade, um ledo engano. O que altera
a propriedade, nesses casos, são os próprios contratos de
gestão, que repassam, também para o Gerente, o controle
total do patrimônio, dos servidores, e das verbas. Nesse caso, tudo
é possível de ser feito para se manter as metas e o setor
auxiliar é, quase que imediatamente, terceirizado (quando já
não é terceirizado no ato da transformação).
Mas, todas estas mudanças,
fazem parte de um corpo único, algo que é menos conceitual
e muito mais pragmático, sustentado na necessária desocupação
do espaço da propriedade estatal para o crescimento da propriedade
privada. Ao fim e ao cabo, o Governo investiu em condições
para ampliar a margem de lucro dos capitalistas. Se na Europa esta margem
de lucro foi ameaçada pelo Welfare State, no Brasil não
passamos de um modelo desenvolvimentista que, do ponto de vista das relações
políticas, restringiu os pressupostos democráticos.
Por isso, ao apresentar esta contribuição
sobre diagnóstico para a Mesa de Negociação Nacional,
queremos abordar três aspectos centrais dos problemas gerais gerados
nos Serviços Públicos e na Administração Pública
pelos governos de FHC. Tais aspectos são: a) a lógica da
reforma do Estado - que impõem a substituição dos
serviços públicos pela privatização progressiva,
transformando-os em mercadoria e alterando a propriedade que os regula,
impondo, à sociedade a desregulamentação dos direitos
sociais conquistados; b) o modelo gerencial - que busca a produtividade
no lugar da qualidade e condiciona parâmetros todo o serviço
público (inclusive a administração) à lógica
fria da produção; c) a retirada de direitos trabalhistas
e a criação das mais desastrosas distorções
aos direitos e salários dos trabalhadores do Serviço Público
- o que abala as condições reais para uma alteração
profunda da realidade dos Aparelhos de Propriedade Estatal no Brasil.
Nosso objetivo é construir,
por meio de um esforço coletivo, um entendimento sobre a política
a ser adotada para superar os absurdos criados e aprofundados na era neoliberal
da formação social brasileira (ainda em curso). Para tanto,
se faz necessário medidas que acumulem na direção
da universalização dos Serviços Públicos.
Universalizar tanto o acesso quanto o atendimento. Isso, por sua vez,
exigirá, no âmbito dos aparelhos do estado (de propriedade
estatal), a implementação de um novo modelo de Serviços
Públicos.
Portanto, buscaremos apresentar aqui
as principais críticas e distorções. Iniciaremos
com a análise do PDRAE porque tudo indica que o Governo de Lula
adotou as linhas mestras apresentadas em 1995 pelo extinto MARE. Principalmente
porque nada foi feito até agora para superar a concepção
no pretérito apresentada. Daremos continuidade com a análise
da situação dos serviços públicos federais
buscando assim responder o diagnóstico apresentado ao movimento
pelos representantes do MPOG.
2.5. As bases teóricas do PDRAE
A diferença que guarda nossa
análise sobre o Estado em relação àquela que
consta no Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado, editado pelo
MARE em 1995, é de cunho epistemológico e conceitual. Epistemológico
porque o trabalho do antigo Ministério da Administração
e Reforma do Estado utiliza conteúdos fundamentais do positivismo:
a ilusão de neutralidade, a "desistorização",
a falsa idéia de que se pode partir do dado imediato, etc. Conceitual
porque apresenta conceitos que são verdadeiras totalidades caóticas,
que não explicam e não podem dar conta do movimento histórico
que engendrou o capitalismo brasileiro no final do século passado,
além de apresentar base conceitual "jus naturalista"
ou "liberal" de política (por mais que negue tal vínculo).
Certamente que esta diferença
é determinada, em última instância, pelo caráter
de classe que tem cada uma das concepções (a do PDRAE e
a do Movimento Sindical). Tal diferenciação cria uma barreira
intransponível que só pode ser superada por meio da própria
luta de classes. Vamos procurar identificar estas diferenças lançando
mão da "arma da crítica", buscando contribuir,
dessa forma, para reforçar a ação dos trabalhadores.
Se começarmos pela caracterização
do Estado, um dos conceitos centrais tratados no texto de FHC e Bresser,
identificaremos diferenças intransponíveis e insuperáveis.
Segundo o PDRAE "o Estado é a organização burocrática
que tem o monopólio da violência legal, é o aparelho
que tem o poder de legislar e tributar a população de um
determinado território". Esse conceito é vazio, não
explica nem situa o papel que cumpre o Estado. Certamente não passa
de uma constatação, se apropriando apenas da aparência
e do funcionamento deixando de lado sua caracterização fundamental.
O Estado é um instrumento de
dominação de uma classe sobre a outra. Isso serve tanto
para o modelo restrito analisado por Marx, quanto pelo modelo amplo estudado
por Gramsci. Em nenhum dos casos, fruto de momentos históricos
e formações sociais distintas, o Estado perde sua principal
característica que, por sua vez, não é determinada
por ele mesmo, mas por conta das relações sociais de produção,
ou seja, pelos diferentes papéis desempenhados pelas classes fundamentais
no capitalismo. Mas o Governo não pode admitir isso, pois tal posição
o levaria a dar organicidade ao seu propósito, ligando-o a uma
das classes fundamentais, coisa que a "pretensa neutralidade"
não permite.
A totalidade das relações
de produção forma "a estrutura econômica da sociedade,
a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica
e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas
de consciência. O modo de produção da vida material
condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual"
. Tal compreensão é fundamental para o debate, já
que parte de determinações diferenciadas das que são
propostas pelo Plano Diretor.
Mesmo que as mudanças sejam,
no Estado (na superestrutura), apresentadas como elementos fundamentais,
elas não são, diferentemente do que afirmam, a saída
para a superação da crise atual. Isto porque tais mudanças
decorrem, necessariamente, de uma modificação nas formas
de propriedade. Na verdade, as alterações que são
propostas no PDRAE se justificam porque, para as classes dominantes, é
necessário aumentar o arco de poder econômico da burguesia,
ampliar a margem de lucro, incrementar a ocupação de espaço
na propriedade privada do capital, de forma a expandir a participação
dos capitalistas nos setores de serviços ou mesmo de produção
de matéria-prima.
Isso é o que está por
trás das privatizações, coisa que o conceito colocado
pelos "intelectuais" do antigo MARE não permite constatar.
No entanto, identificar o movimento real operado pelo neoliberalismo significa
superar epistemologicamente o conceito de Estado apresentado e assumir
um conceito histórico e materialista, que dê conta da análise
das condições atuais.
Se essa é uma das mais importantes
rupturas teóricas que devemos fazer, há outras que são
decorrentes de tal pensamento. Então vejamos: a conseqüência
da atitude dos governistas, na época de FHC, foi propor uma reforma
administrativa. E não poderia ser diferente, pelo menos no discurso.
O problema é que o grau de ideologização e politização
que tem uma reforma administrativa, mesmo que escondido pela retórica
escrita e no culto à técnica, torna inverossímil
tal proposição. O Estado nunca está acima da sociedade,
mesmo quando bonapartista, pois é sempre fruto da luta de classes,
da correlação real, das disputas entre agentes e representações
fundamentais das classes sociais.
Abstrai-se, dessa forma, o papel do
Governo, do Imperialismo, dos proprietários da propriedade privada
do capital, dos trabalhadores, dos partidos, dos movimentos sociais, e
apresenta-se uma visão típica do "contrato social",
que facilmente pode oscilar entre fascista e liberal. É claro que
o centro do contrato, aquilo que o representa, principalmente na sociedade
moderna, é a Constituição. E o é também
para os governos da burguesia: uma Constituição que, para
eles, está acima do bem e do mal, e não impregnada de conflitos,
ideologias, visões de classes distintas, de acordo com a correlação
de forças existente em sua formulação. Ou seja, antes
de um instrumento legal ou jurídico, a Constituição
é, fundamentalmente, um instrumento político que dá
o corpus necessário para um processo de dominação
entre as classes.
É claro que a teoria orgânica
burguesa tende a levar seus representantes em governos a reproduzir afirmações
no mínimo questionáveis, para não dizer comprometidas
com o processo de dominação que defendem. Por exemplo, o
texto afirma que "a desordem econômica expressava agora a dificuldade
do Estado em continuar a administrar as crescentes expectativas em relação
à política de bem-estar aplicada com relativo sucesso no
pós-guerra". Como se a ordem ou a desordem econômica
existente nas várias flutuações ou momentos históricos
do capitalismo fossem decorrentes de ações naturais (ou
quem sabe sobrenaturais). Além do mais, ao afirmarem isso, incorporam
outro problema que é o de dizer que nesse momento deve-se destruir
as políticas de bem-estar e, junto com elas, destruir também
os direitos conquistados. É certo que isso não é
dito, mas fica bem entendido na afirmação colocada, pois
o momento do pós-guerra, foi, sem sombra de dúvidas, um
período de conquistas de direitos sociais, tanto para os países
desenvolvidos, como para os não desenvolvidos. Os limites desses
direitos foram determinados pela formação social de cada
um deles, com elevações maiores ou menores. É certo
que nem todos os países viveram o modelo de bem-estar, como é
o caso do Brasil, em que o modelo desenvolvimentista não poderia
dar essa qualidade às políticas executadas. Porém,
o mundo não se dividia entre desenvolvidos e não desenvolvidos,
mas entre socialistas e capitalistas, o que foi marcante após a
Segunda Guerra Mundial, com o início de uma guerra fria, que só
acaba com a destruição do chamado "socialismo real".
Contudo, se isso não bastasse,
afirmaram ainda no texto de 1995: "Não obstante, nos últimos
20 anos esse modelo" (de bem-estar social) "mostrou-se superado,
vítima de distorções decorrentes (...) de empresários
e de funcionários que buscaram utilizar o Estado em seu próprio
benefício (...) também do desenvolvimento tecnológico
e da globalização, que tornaram a competição
entre as nações muito mais aguçada".
Sobre os argumentos baseados no desenvolvimento tecnológico e na
globalização, Petras nos mostra os seus pés de barro,
ao afirmar que nada tem a ver desenvolvimento tecnológico e globalização,
pois a política de "globalização vem ocorrendo
há vários séculos" . Além disso, corrobora
a visão aqui expressa, pois afirma que "a política
estatal é uma função da correlação
de forças sociais: a capacidade de diferentes classes mobilizarem
recursos para influenciar a política econômica do Estado"
. Ou seja, "não são forças econômicas
globais impessoais que estão operando aqui, mas uma estratégia
econômica enraizada nos interesses da classe alta e das corporações"
. Portanto, não são ajustes necessários a um desequilíbrio
casual que força a superação da política promovida
pelo capital, mas sim a necessidade de responder às exigências
da burguesia e das grandes corporações monopolistas e oligopolistas
em nível internacional e não apenas de problemas localizados
nacionalmente. Por conseguinte, podemos afirmar que movimentar uma oposição
coerente e que tenha conseqüências favoráveis contra
a aplicação do neoliberalismo exige, além de outras
coisas, uma ruptura conceitual ao modelo expresso pelo Plano Diretor da
Reforma do Aparelho de Estado. Não se pode ficar apenas nas críticas
às implementações, por mais que sejam importantes
e necessárias. É imprescindível uma crítica
global ao conjunto teórico que as inspira, por mais que este seja
progressivamente invisível. Assim, se o fizermos, daremos um salto
de qualidade substantivo para o processo de disputa hegemônica que
demanda essa luta.
2.6. Crise Estrutural
A crise estrutural que atinge a APF
está vinculada tanto ao histórico de descaso e desmonte,
como à reestruturação produtiva que reorganiza as
formas do trabalho em nível mundial. Portanto não há
como dissociá-la do atual estágio do capitalismo, o neoliberalismo.
A APF não padece de um distúrbio
passageiro causado por lapsos de gestão. Trata-se de uma instrumentalização
que atende a interesses bastante definidos. O desmonte é uma política
de governo que visa afastar o Estado de qualquer meta social.
Da mesma forma que os tópicos
anteriores, este mereceria um estudo mais minucioso, no entanto é
importante destacar alguns dos aspectos mais nitidamente relacionados
ao debate sobre DPC.
Quanto mais grave é a situação
sócio-econômica da maioria da população, mais
o Estado cumpre papel fundamental na sobrevivência e qualidade da
vida da população.
O Estado brasileiro foi historicamente
constituído para atender precipuamente aos interesses das parcelas
privilegiadas. Até mesmo o emprego público cumpria tal papel.
Com a democratização que se vai alcançando ao longo
da história, alguns avanços vão sendo estabelecidos.
A democratização do acesso ao cargo e aos serviços.
Internamente, a vedação de critérios pessoais, como
o nepotismo etc.
Mas esta crise estrutural pauta uma
exigência para qual a APF ainda está insensível. O
Estado têm sido incapaz de estabelecer parâmetros de dimensionamento
tanto de suas repartições, quanto de suas necessidade de
quadros em termos de qualificação e quantidade.
Alcançar uma equação
satisfatória para esse dimensionamento não é tarefa
fácil, mas quanto antes a APF enfrentar esse desafio mais cedo
encontrará a solução.
Como a Carreira pressupõe a
ocupação dos cargos, bem como a variação das
especialidades e complexidades, é fundamental que a APF defina
parâmetros básicos para encarar esse desafio que é
permanente.
A proporção entre funcionários
por habitantes deve ser estabelecida mediante um diagnóstico aprofundado
das deficiências que a APF encontra na prestação de
serviços nas diversas áreas em que atua (retomamos esse
aspecto adiante). Se buscamos de fato solucionar os problemas que repercutem
na administração das carreiras, faz-se necessário
que se estabeleça quais as condições ideais para
que os diversos segmentos da administração pública
cumpram adequadamente suas funções.
Ao pensar as diretrizes é preciso
não apenas condicionar a criação e alteração
das carreiras, mas também a extinção de carreiras
precisa ser balizada antes pelo interesse público (lembrando que
condicionar não quer dizer impedir, mas definir critérios
a serem atentidos).
Evidentemente não se trata
de estabelecer um parâmetro fixo, mas de se constituir parâmetros
de avaliação institucional que permitam à APF adequar-se
às necessidades e demandas da sociedade. Temos certeza de que alterações
cosméticas e superficiais não irão solucionar os
impasses, distorções e deficiências da APF, provavelmente
irão agravá-los.
2.7. O objetivo da Reforma Administrativa: um percurso parcialmente
cumprido
O processo da reforma administrativa,
que é o núcleo central da chamada reforma do Estado, atingiu
parcialmente seus objetivos e, mesmo assim, continua fazendo o seu percurso.
Esse percurso tem que ser obstaculizado ao mesmo tempo em que colocamos
em prática medidas que possam resgatar conquistas perdidas e avançar
para uma construção que seja coerente com a construção
da universalização real dos serviços públicos.
Para isso, no entanto, é necessário barrar o trânsito
para essa quarta fase do Estado brasileiro, inaugurada pelo neoliberalismo,
que foi desastrosamente iniciado por Collor, teve seu ponto máximo
de consolidação em FHC e continua em curso no Governo atual.
Já do ponto de vista legal,
a Emenda Constitucional 19 agrupa as medidas fundamentais que dão
escopo para o processo de alteração dos Aparelhos de Estado,
dos Serviços Públicos e do Regime de trabalho dos servidores.
Após 1998, com sua aprovação, temos: a precarização
da estabilidade; a instituição legal dos contratos de gestão;
o fim do Regime Jurídico Único (com abertura legal para
o surgimento de vários regimes de trabalho); a total desregulamentação
dos direitos dos servidores; uma profunda mudança na forma de propriedade
(privatizações, terceirizações, etc); profunda
queda na qualidade de trabalho e rebaixamento do poder de compra dos servidores.
Há uma série de Leis complementares no meio do caminho,
mas é a análise dos recuos e avanços que o PDRAE
fez, em relação à EC 19/98, é fundamental.
Já havia, no texto do antigo
MARE, um anúncio do objetivo das emendas a serem apresentadas:
fim da obrigatoriedade do RJU, permitindo-se a volta de contração
de servidores celetistas; processo seletivo público para contratação
de celetistas e concurso público para a de estatutários;
flexibilizar a estabilidade através da possibilidade de demissões
por falta grave, por insuficiência de desempenho ou por excesso
de quadros ou gastos; criar a possibilidade da disponibilidade; permitir
a contratação de estrangeiros no serviço público;
limitação rígida da remuneração dos
servidores; limitação rígida dos proventos das aposentadorias
e das pensões; facilitação de transferência
de pessoal e de encargos entre pessoas políticas; eliminar a isonomia;
descentralização e fixação dos servidores
dos três poderes. Esses seriam
os objetivos das emendas constitucionais, significativamente cumpridos
pela EC 19/98.
No fundamental, podemos ver que tais
modificações não mudaram, em nada, a crítica
feita pelo próprio documento governista. Continuam, progressivamente,
incentivando uma administração patrimonialista e em nada
avançam para superar essa característica do Estado brasileiro
que foi determinada a partir do modelo de colonização e
pela formação tardia, conservadora e autoritária
que teve o capitalismo no país. Afirmaram, por meio do PDRAE, que
o patrimonialismo é uma "excrescência inaceitável",
pois existe como conseqüência inerente "à corrupção
e ao nepotismo". E afirmam que, "no momento em que o capitalismo
e a democracia se tornam dominantes, o mercado e a sociedade civil passam
a se distinguir do Estado". Ou seja, essa distinção
seria fruto do desenvolvimento capitalista, que exige que o Estado e a
Sociedade Civil se unifiquem a fim de superar um modelo que é obstáculo
ao próprio desenvolvimento do capitalismo.
As afirmações do PDRAE
que são excrescências que aparecem de variadas formas e por
diversificadas razões: 1) afirmam que o desenvolvimento do capitalismo
gera a necessidade de superação de um modelo administrativo
e tal mudança é forçada pela unidade entre sociedade
civil e Estado; 2) fazem a sociedade civil ganhar o caráter neutro,
de uma totalidade caótica (teoria já criticada por nós
nesse texto) que, unificada, adere ao processo de apoio ao capitalismo;
3) decidem privatizar e repassar patrimônio público para
o setor privado e migrar o setor privado para a administração,
confundindo mais ainda o mercado com Estado, aumentando o poder do primeiro
e aprofundando o patrimonialismo; 4) trabalham o conceito de democracia
como sinônimo de "livre iniciativa", deixando claro seus
limites e não explicitando aquilo que seria democrático
.
Mas isso não dá conta
ainda do conjunto das questões que envolvem o debate sobre administração,
do ponto de vista político e conceitual. Apresentam dois modelos
que são alternativos ao brasileiro: a administração
pública burocrática e a administração pública
gerencial. Afirmam que, como conseqüência do modelo burocrático,
"o Estado volta-se para si mesmo, perdendo a noção
de sua missão básica, que é servir à sociedade".
Embora esta nunca tenha sido a missão básica do Estado.
No formato liberal, predominante até a Primeira Guerra Mundial,
mantinha-se uma estrutura mínima segundo a lógica do individualismo,
considerando que os interesses individuais livremente desenvolvidos seriam
harmonizados pela "mão invisível", que garantiria
também a livre concorrência. Nesse período, havia
uma forte rejeição a qualquer tipo de intervenção
estatal na vida econômica. A política do laissez-faire era
garantir a livre concorrência e a propriedade privada do capital,
assim como o legítimo direito ao lucro e à exploração,
sem que existisse um maior grau de ação estatal. Esta etapa
do Estado capitalista na história da humanidade tem seu predomínio
no século XIX, mas persistiu até o início do século
passado. Não há uma relação direta, portanto,
com o modelo administrativo burocrático, que é uma visão
weberiana , um tipo ideal e não um formato real de organização
ou de sociedade.
O mais estranho é que os estudiosos
do antigo MARE não conseguem afirmar qual era o modelo predominante
no Brasil, se o patrimonial ou o burocrático. Mas vejam: tinha
que ser assim, pois, a concepção metodológica e conceitual
desses estudiosos não permite a contradição como
elemento chave de análise. Não há proponentes nem
defensores do modelo patrimonial. O que há, nesse caso, são
visões que podem ser aproximadas a partir de uma defesa de excesso
de poder.
É claro que o Brasil viveu
e vive tanto um modelo quanto outro (burocrático e patrimonialista),
pois, não se excluem necessariamente. O desenvolvimento do capitalismo,
principalmente a partir da década de 30, e depois nas décadas
de 50 e 60, trouxe contradições de toda a ordem, inclusive
no formato administrativo. Colocado na forma do texto, o que ocorre é
a expressão de uma aparência de escolha entre um ou outro.
Mas isso não é possível nos limites do capitalismo
brasileiro. Enquanto em nível internacional podemos mostrar os
vários regimes capitalistas, datá-los e apontar o modelo
estatal de forma mais precisa, não é possível fazer
a mesma coisa no Brasil. Houve uma mistura permanente, pela própria
condição de formação do capitalismo e das
classes fundamentais, que alternou e fez simbioses entre concepções
liberais e marginalistas . Portanto, do ponto de vista administrativo,
cultural e ideológico, o Estado era e é predominantemente
patrimonialista e a superação desse modelo, no país,
demanda rupturas; e não medidas disfarçadas em discursos
teóricos que têm como verdadeiro objetivo concentrar a propriedade
e ampliar o lucro dos capitalistas .
É claro que restará
como "modelo perfeito", segundo a ótica do Governo, a
imposição da tal administração gerencial.
Dizem que tal formato "emerge na segunda metade do século
XX, como resposta, de um lado, à expansão das funções
econômicas e sociais do Estado e, de outro, ao desenvolvimento tecnológico
e à globalização da economia mundial, uma vez que
ambos deixaram à mostra os problemas associados à adoção
do modelo anterior". O modelo anterior ao qual fazem referência
é o welfare state, mais conhecido como Estado de Bem-Estar Social.
Abramos parêntese para melhor explicitar este ponto.
Esse modelo de Estado surge para administrar
a insuficiência do capitalismo e assim dar conta de uma crise detonada
em 1929. Representa também uma resposta, como alternativa, ao modelo
socialista que consegue uma grande expressão real, com capacidade
de disputa internacional, a partir da revolução Russa de
1917. Todavia, tanto o Welfare State na Europa, quanto o New Deal de Roosevelt
(que teve menor tempo de vida), não conseguiram resolver a crise
do capital, que recrudesceu pela exigência de aumento da margem
de lucro dos próprios capitalistas. Mas, sem dúvida, tais
políticas, pelo forte investimento do Estado em setores sociais
e sua significativa abrangência na área econômica,
acabaram firmando-se como um dos elementos de uma crise que teve como
resposta o modelo neoliberal. Conhecida como crise fiscal, na verdade,
essa crise alcançou grandes proporções, por estar
implicada ao desenvolvimento das forças produtivas e a uma nova
disputa internacional que redimensiona as potências centrais, também
por dar um novo sentido à multipolaridade e recolocar a questão
do lucro em um mundo predominantemente (quase totalmente) determinado
por relações sociais capitalistas. O paradoxo é que
o modelo para superar a crise do capital já nasce em crise e promove
seu desenvolvimento em um processo de genocídio internacional,
reeditando a hipótese da barbárie, principalmente por meio
da guerra que passa assumir, novamente, destaque no cenário internacional.
Fechando o nosso parêntese,
podemos voltar a nos questionar sobre o que seria o modelo gerencial e
suas alternativas "milagrosas" para a sociedade. Segundo o PDRAE,
o modelo gerencial "deixa de se basear no processo para se concentrar
nos resultados". Ou seja, metas, números, quantidade, e como
não poderia ser diferente, a lógica da produtividade. Isso
é o inverso de outra lógica na qual os serviços públicos
devem ser sempre em grande escala, mas, também, sempre com qualidade;
isso para nós é fundamental, pois reforça nossa luta
de hegemonia na sociedade.
Entretanto, os governos preferem a
produtividade, isto é, os resultados finais, independentes do processo.
A tentativa de superação do FORDISMO/TAYLORISMO se deu fundamentalmente
pelas montadoras, que representam o lugar privilegiado do operariado industrial
moderno. Nesse sentido, podemos dizer que o modelo importado pelo PDRAE
é equivocado por variadas razões: nada tem a ver com a formação
social brasileira; não investe em Serviços Públicos,
ao contrário, os privatiza e, conseqüentemente, os destrói;
a origem de tal formato se deu na fábrica, na linha de montagem,
na produção, ou seja, na propriedade privada do capital,
onde o lucro e a concentração são elementos constituintes
fundamentais. Este último aspecto, inclusive, ratifica a posição
de que esse modelo não serve para orientar e organizar as ações
sociais do Estado, mesmo porque é necessário que volte a
concentrar no Estado os aparelhos repressivos, ao mesmo tempo em que repassa
os aparelhos ideológicos para a propriedade privada.
Mas, talvez, o maior dos absurdos
está na idéia de que, através de um tal modelo gerencial
de administração pública (equação impossível),
o Brasil sofrerá qualquer grau de desenvolvimento. Para haver desenvolvimento,
deve haver rupturas, saltos e superações, não sendo
possível um desenvolvimento apenas por continuidade. Mesmo que
o modelo posterior tenha elementos do modelo ulterior, isso não
significa que a necessidade de ruptura seja desconsiderada. Contudo, o
Governo atual não apresenta os elementos para a ruptura necessária,
pois: mantém o compromisso com o FMI; segue com o compromisso do
pagamento da dívida; mantém a Lei de Responsabilidade Fiscal;
da continuidade e amplia o superávit primário; continua
repassando verba pública para a iniciativa privada (como está
na proposta de Reforma da Educação). Ou seja, se mantém
a mesma política econômica neoliberal que, por sua vez, é
o aprofundamento da lógica do capital.
2.8. O Aparelho de Estado e as formas de propriedade: quando cai a
máscara
O fato é que o modelo ainda
em curso no Brasil mantém o objetivo de ampliação
da taxa de lucro e de alteração da forma de propriedade,
que gerará uma maior concentração da propriedade
privada do capital. Isso está claro no PDRAE quando se afirma que
o "Estado é, portanto (...) o poder de constituir unilateralmente
obrigações para terceiros, com extravasamento dos seus próprios
limites". Assim esclarecem que a tal busca da eficiência, eficácia
e modernidade, de que tanto falam, é o repasse, à iniciativa
privada, das ações, serviços, responsabilidades e,
junto com tudo isso, do patrimônio e do pessoal originalmente estatal.
Não há outro nome para isso a não ser privatização.
As diversas nomenclaturas que vão surgindo no processo (publicização,
contratualização, etc) na verdade dizem respeito a tramites
distintos para privatizar aquilo que é público. Movimento
que ocorre, inclusive, por meio da intensificação das terceirizações.
No debate conceitual, as coisas são
mais difíceis de serem enxergadas. Mas, quando chegamos à
proposta concreta, que envolve a relação entre administração,
ação do Estado, prestação de serviços
e formas de propriedades, torna-se mais fácil constatar os verdadeiros
objetivos do modelo gerencial. Segundo o PDRAE há três formas
de propriedade: a estatal, a pública e a privada. As empresas estatais,
todas, sem exceção, devem ser privatizadas. Já instituições
como Universidades, Hospitais, Museus, Centros de Pesquisa, devem ser
repassadas para o setor público não estatal. Caberia à
propriedade estatal, portanto, apenas o núcleo burocrático
(Legislativo, Judiciário, Presidência, Cúpula dos
Ministérios e Ministério Público) e as atividades
exclusivas (Regulamentação, Fiscalização,
Fomento, Segurança Pública, Seguridade Social Básica).
A ressalva é que as atividades exclusivas funcionarão sob
modelo administrativo gerencial e por isso passam por profundas modificações
(tanto em relação ao contrato de trabalho quanto à
propriedade) o que justificaria as tais Agências Executivas. Além
disso, todo serviço auxiliar, em qualquer esfera, passa a ser terceirizado
e, em alguns casos, repassado através do contrato de gestão.
O contrato de gestão assume, então, uma forma estratégica
de repasse do patrimônio e de pessoal para um setor paralelo chamado,
no Plano Diretor, ou de Agência Executiva (no que diz respeito às
atividades exclusivas) ou Organizações Sociais (no que diz
respeito aos serviços não exclusivos), além de induzir
modificações, é claro, no contrato de trabalho.
Trata-se, decerto, de um processo
de privatização. Aquilo que não é estatal,
que é chamado de público, que tem estatuto próprio
de formato privado, mesmo "sem fins lucrativos", faz parte do
setor privado. Vide os modelos de ONG's. Estas Organizações
Não Governamentais não são outra coisa que propriedades
privadas, as quais acabam ocupando o vazio e a insuficiência do
Estado e contribuindo, com todas as contradições, para as
mudanças principais que vêm ocorrendo nesse período.
Todas as idéias expressas no
PDRAE lançaram as bases para que se implementasse um modelo que
forjou todo o tipo de privatização. No campo dos serviços,
o objetivo foi o de esvaziar o Estado, diminuir os investimentos sociais,
repassar o que interessa para iniciativas privadas; em outros setores
se trouxe a própria iniciativa privada, na lógica ou na
pessoa física dos capitalistas que podem ser responsáveis
pelo contrato de gestão, para dentro da esfera estatal. Nesse sentido,
afirmamos que o contrato de gestão assume papel-chave, fundamental,
na destruição dos serviços públicos e na constituição
de uma Administração cada vez menos pública e cada
vez mais patrimonialista.
O livro de Luiz Alberto dos Santos
, publicado pelo DIAP em 2000, indica, nas páginas 169, 170, 171
e 172, as diversas mudanças que ocorreram com a Emenda Constitucional
19/98. Podemos listar 16 grandes alterações: a) fim do regime
jurídico único; b) fim da isonomia salarial; c) precarização
da estabilidade; d) alteração dos concursos públicos;
e) mudanças nas licitações; f) institucionalização
dos contratos de gestão; g) teto de remuneração;
h) aumentos para os detentores de cargos eletivos; i) ampliação
do princípio da reserva legal; j) desvinculação entre
civis e militares para efeito de reajuste; k) fixação da
remuneração na forma de subsídio; l) instabilidade
das revisões anuais; m) repasses para estados, DF e municípios;
n) irredutibilidade salarial; o) disponibilidade com remuneração
proporcional e p) revisão dos estatutos. Destas vamos comentar,
com base na contribuição de Alberto dos Santos, dez mudanças,
justamente as que consideramos mais importantes para esse debate.
2.8.1. Fim do Regime Jurídico Único
Tal mudança amplia e institucionaliza
a diversidade dos contratos no Serviço Público. Com o fim
do RJU, os trabalhadores podem ser contratados pela CLT, por contratos
provisórios e outros meios, que se tornam centrais e não
mais periféricos como antes. Assim, podem ser demitidos, como qualquer
outro trabalhador da iniciativa privada. Além disso, tal diversidade
deixa cada vez mais distante a possibilidade de um Acordo Coletivo. A
Administração Pública conviverá com vários
contratos, com leis e origens distintas, dificultando, progressivamente,
acordos e ações unitárias. Por isso, tal medida atinge
também os sindicatos, dificultando e obstaculizando uma maior unidade
das organizações e das ações. Em outras palavras,
facilita a proposta de sindicatos por órgãos, ministérios,
etc, o que enfraquece a ação das Entidades Sindicais.
2.8.2. Fim da Isonomia Salarial
As conseqüências do fim
da isonomia são: possibilitar o reajuste diferenciado e privilegiado
para os setores considerados exclusivos, sem qualquer vinculação
com o conjunto dos servidores. Isto é, FHC discrimina o setor que
considera "podre", uma vez que em seu entender este precisa
ser colocado para fora do Estado a fim de aumentar a entrada do capital
privado na Administração, justamente o Plano de Classificação
de Cargos (PCC), que compreende cerca de 70% dos servidores públicos
federais hoje. Além disso, cria a possibilidade de ampliar o achatamento
salarial dos aposentados e pensionistas. O Serviço Público
Federal está à beira de alcançar uma relação
entre ativos e aposentados que chega ao empate; ou seja, para cada um
ativo, um aposentado. Isso significa que a possibilidade de não
haver isonomia entre aposentados e ativos já abre espaço
para menos gastos do Estado com o Setor Público, podendo despender
mais recursos com empregos de origem privada. Já em 1996 o Governo
gastou com contratos por tempo determinado, serviços de consultoria,
terceirizações de pessoa física e jurídica,
estagiários e locação de mão-de-obra quantia
superior a R$ 213 milhões, o que possibilitaria a contratação
de mais de 137 mil servidores com salário per capita de R$ 1.400,00.
2.8.3. Precarização da Estabilidade
Como todos ficaram concentrados nos
anos necessários para a estabilidade, pois se altera o estágio
probatório de dois para três anos, perderam de vista elementos
centrais que são colocados nesse debate. O primeiro deles é
sobre o conteúdo básico do trabalho do servidor. As idéias
de continuidade, "isenção", independência
e responsabilidade com a coisa pública, que garantem a fiscalização
direta dos serviços para cumprirem seus objetivos, acabaram. O
fim da estabilidade, apesar de incidir sobre os trabalhadores do serviço
público, tem um elemento central que é a questão
da finalidade das funções. Tudo isso foi substituído
por elementos que se sobrepõem à estabilidade do atendimento
com qualidade e à garantia de honestidade. O servidor pode ser
demitido por avaliações insuficientes de desempenho e produtividade,
poderá ainda ser demitido se os gastos dos estados e municípios
ultrapassarem 60% (aliás, quase todos ultrapassam) ou, no caso
da União, 50% (este ainda não ultrapassa). Ou seja, os elementos
financeiros são colocados acima dos interesses do Estado. Melhor,
o Estado assume como seus os interesses privados e não os da população.
Como os interesses da população são vários,
inclusive os interesses privados, o Estado assume esse que representa
a menor parcela. Mais uma razão para afirmarmos que a justificativa
das mudanças reside no aumento da taxa de lucro dos capitalistas.
O pior é que não há a menor necessidade de diminuição
do corpo de servidores. Ao contrário, há necessidade de
ampliá-lo.
2.8.4. Alteração dos Concursos Públicos
"A nova redação
dada ao art 37, II permite que os concursos públicos sejam diferenciados
em razão da natureza dos cargos, de modo que em cada caso sejam
fixados requisitos específicos para a contratação.
Caso essa mudança seja regulamentada no sentido de simplificar
excessivamente os concursos públicos, satisfazendo a apontada necessidade
de flexibilização dos rigores dessa forma pública
de seleção, poderão surgir situações
de favorecimentos e prejuízos a candidatos, de difícil reversão"
.
Essas considerações
nos levam às seguintes conclusões: aumenta-se o patrimonialismo
do Estado, abre-se a porta para um fisiologismo direto, que, combinado
aos contratos de gestão, podem significar a entrada direta da iniciativa
privada no Serviço Público. O apadrinhamento crescente fará
vínculo com as novas funções da iniciativa privada,
apresentando trabalhadores que estão totalmente instáveis
e que não possuem segurança para fazer o enfrentamento com
as políticas.
2.8.5. Contrato de Gestão
O importante nesse caso são
as metas. Os contratos permitem que os salários dos empregados
e servidores possam ser fixados, aumentando a flexibilidade e chamando
o movimento à divisão por órgão. Além
disso, a relação com a chefia toma outra qualidade, já
que o "gerente" do contrato de gestão não precisa
ser servidor público, podendo ser alguém da iniciativa privada.
Isto significa que há uma tendência a fragmentar a política
pública em cada contrato, uma vez que prevalece a "cultura
gerencial privada na Administração Pública".
O Contrato de Gestão assume papel central no processo de privatização
e mercantilização dos Serviços Públicos, por
ser utilizado em, praticamente, todas as mudanças que estão
sendo encaminhadas nos órgãos públicos.
2.8.6. Desvinculação entre Civis e Militares para Efeito
de Reajuste
Se não bastassem as mudanças
impostas pela EC 19/98, o Governo editou a EC 18/98 que muda o Regime
Jurídico dos Militares para desvinculá-los dos Civis. Assim,
podem oferecer reajustes, aumentos, etc, para os militares sem que seja
necessário o repasse para os trabalhadores civis. Isso ratifica
o arco de opções que o Governo vem fazendo: Estado mínimo,
mas forte, com apoio dos militares que entram nos chamados Serviços
Exclusivos e por isso no quadro das carreiras típicas.
2.8.7. Reajuste Anual
Na verdade, o Governo, mesmo assegurando
uma revisão geral anual dos salários, não dá
garantia nem de reajuste relativo às perdas, nem de nenhum reajuste.
Acabar com a data-base dos servidores foi um golpe mortal para isso. Além
do mais, aposta-se nas gratificações substituindo os reajustes
que são incorporados aos salários, pois as gratificações
podem ser concedidas e retiradas. Aumenta-se, assim, o compromisso e a
dependência com cada governo específico, aumenta-se a instabilidade
e diminui-se o compromisso com as funções fins do Estado.
Esse processo teve peso central para os servidores públicos amargarem
uma perda salarial, entre o período de janeiro de 1995 e dezembro
de 2000, de 43,01%, o que demanda um reajuste necessário de 75,48%,
segundo os cálculos do DIEESE.
2.8.8. Irredutibilidade Salarial
Nesse tema o Governo não teve
vitória completa. "Foi suprimida da Constituição
a garantia da irredutibilidade salarial, o que, levado às últimas
conseqüências, poderá permitir reduções
de vantagens devidas aos servidores, preservando-se tão somente
destas reduções os vencimentos, que constituem parcela irrisória
no cômputo total das remunerações dos servidores na
maior parte dos casos. Permanece no texto constitucional a garantia da
irredutibilidade de vencimentos e subsídios. O Governo foi derrotado,
pois queria acabar também com a incorporação de gratificações
e com a aposentadoria integral e a paridade entre ativos e os inativos"
. De fato, com a adoção das gratificações
para resolver os problemas das perdas salariais de uma parte dos servidores,
o Governo pode lançar mão, a qualquer momento, de uma justificativa
que force retirá-las, como por exemplo, os "gastos governamentais".
2.8.9. Disponibilidade com Remuneração Proporcional
Com a nova redação do
Artigo 41, parágrafos 2 e 3, feitos pela EC 19/98, o servidor pode,
a qualquer momento, ter seu cargo extinto ou considerado desnecessário
para a administração pública e ser colocado em disponibilidade.
Isso ocorrerá mediante redução salarial e será
por tempo indeterminado, até que o mesmo seja aproveitado em outro
lugar. O julgamento dos cargos desnecessários não depende
de Lei, podendo ser feito a qualquer momento pelo chefe do Executivo através
de um decreto. Para extinguir um cargo, aí sim se precisa de Lei.
Entretanto, como a maioria das medidas são inconstitucionais, o
Governo pode editar a qualquer momento MP decidindo o assunto (como já
fez com a 2048 em suas várias edições).
2.8.10. Revisão de Estatutos
As entidades da Administração
Indireta devem rever seus Estatutos, após dois anos da mudança
constitucional. Por isso, tendem a ocorrer alterações profundas
nessa área. Esse será o setor que sofrerá um impacto
direto, o que se refletirá na alteração de muitos
contratos para empregos públicos assim como na realização
de contrato provisório, além de uma grande aumento da terceirização.
A tendência é implantarem-se os contratos de gestão
e realizar mudanças sobre a natureza jurídica dessas instituições
(em geral buscando-se publicizá-las ou agencificá-las).
Essas mudanças impostas, em
geral pela Emenda Constitucional 19/98, têm impacto direto no mundo
do trabalho. As relações de trabalho sofrem profundas modificações,
assim como os contratos trabalhistas. Argumenta-se que isso é a
modernização, mas na verdade é a adequação
ao modelo privado no serviço público. Com o processo galopante
de mercantilização, o Estado amplia seu perfil patrimonialista
e a Administração Pública aumenta seu fisiologismo.
2.9. Quebra da Paridade é inaceitável
Dentre as inúmeras denúncias
que temos feito devemos destacar que é lastimável a forma
como os governos vêm tratando aposentados e pensionistas, inclusive
na política salarial atual. A quebra da paridade entre trabalhadores
da ativa, aposentados e pensionistas teve início no Governo de
FHC e se prolonga agora no Governo de Lula. A paridade vem sendo ameaçada,
mas os trabalhadores aposentados são servidores públicos,
assim como os da ativa. O fato é que não há contrato
de trabalho e sim um "ato de investidura" que, uma vez feito,
perdura durante toda a vida do servidor. Inclusive tal ato é repassado
para os dependentes, se o mesmo os tiver, ainda que o servidor ativo ou
aposentado venha falecer. Mas tudo isso está sendo, progressivamente,
desconsiderado e acaba valendo o entendimento de cada Presidente da República
de plantão.
Na verdade o que se impõe é
que os trabalhadores aposentados no serviço público paguem
por algo que não terão direito. Se já é equivocada
a idéia de contribuir para a aposentadoria, transformando a mesma
em seguro, como já havia sido feito em 1998, pior ainda a idéia
de que o servidor tem que contribuir por nada. É de fato uma apropriação
indébita de parcela do salário do aposentado o que impõe
mais perdas e ao mesmo mais uma retirada de direitos. Essa atitude na
verdade serve apenas para diminuir o já corroído salário
nominal. Mas essa opção assumida pelo Governo Lula se justifica
pela chamada "crise fiscal" que, na verdade, é a crise
do capital em curso na qual o Estado deve economizar para ajudar a encher
os cofres da iniciativa privada.
Por sua vez a PEC paralela apresenta
aos servidores uma realidade ainda mais perversa que tem, por trás
o bombom envenenado da diminuição da idade. Aumentaram a
idade; acabaram com a integralidade, como antes era conhecida; feriram
de morte a paridade; agora apresentam, por meio da chamada PEC Paralela
uma formulação que acaba retirando ainda mais os direitos
dos aposentados. Na conversa de "diminuição da idade"
o que se exigirá do servidor é o tempo de contribuição
(35 anos se homem e 30 anos se mulher) que acaba sendo equivalente ao
tempo de serviço público, pois, só valerá
para quem tem esse tempo de contribuição no próprio
serviço público. Adiciona-se a isso a exigência do
servidor computar 15 anos na carreira e 5 anos no cargo em que se aposentarem.
Cabe destacar que a continuada política
de alteração de carreiras em curso pode trazer uma surpresa
para o servidor: o que ocorrerá com o servidor que tiver 35 anos
de contribuição no serviço público e apenas
5 anos na sua nova carreira? Terá esse o direito a aposentadoria?
Será contado o tempo que tinha na carreira anterior? Na verdade
o que aparece como algo que poderia ser "razoável" frente
a já aprovada Emenda Constitucional 41 é, na verdade, o
aprofundamento da política anterior e serve para se juntar na prolongada
jornada de quebra da paridade.
A quebra da paridade tem suas demonstrações
históricas, mas encontra hoje, na proposta de "reajuste"
para os servidores apresentada pelo Governo Federal. Os indicadores históricos
demonstram que em todos os aspectos, tanto do ponto de vista da quantidade
de servidores, quanto do ponto de vista salarial, uma diminuição
dos direitos dos aposentados frente aos ativos. Senão vejamos:
a) a relação
aposentados e pensionistas frente aos ativos somente se ampliou de 1995
para cá. Conforme podemos ver na tabela abaixo seria necessário,
como já dissemos, apenas para recompor o percentual que havia em
1995, contratar mais de 260 mil servidores. Isso é uma marca clara
da política que havia no Governo anterior e que, de alguma forma,
foi conseguida no governo atual, pois, os aposentados no serviço
público acabam sendo tratados como os da iniciativa privada desconstituindo
condições absolutamente próprias dos trabalhadores
do Estado. O aumento do número do aposentado e do pensionista,
sem a devida correção da presença do ativo, acaba
representando assim, para o Estado, diminuição dos gastos
para investir no setor privado. Isso porque, com a quebra da paridade,
aumentar o número de trabalhadores aposentados e pensionistas não
significará, necessariamente, um aumento dos gastos; do ponto de
vista proporcional, na verdade, representa uma diminuição.
| Percentuais
de servidores civis do Executivo 1995 - 2003 |
| Situação |
1995
|
1996
|
1997
|
1998
|
1999
|
2000
|
2001
|
2002
|
nov/03
|
| Ativos |
55,26
|
51,93
|
50,40
|
48,54
|
47,58
|
47,03
|
45,45
|
45,19
|
44,90
|
| Aposentados |
32,04
|
32,45
|
32,78
|
34,44
|
34,82
|
34,63
|
35,13
|
34,80
|
34,78
|
| Pensionistas |
12,69
|
15,61
|
16,82
|
17,01
|
17,60
|
18,34
|
19,41
|
20,01
|
20,32
|
| Total |
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
100,00
|
b)
Na comparação dos gastos com os servidores frente a receita
corrente líquida pode-se observar uma diminuição
profunda dos valores reais que se acentua nos aposentados e pensionistas.
É claro que do ponto de vista de número absolutos há
uma ampliação dos valores investidos; mas isso não
representa o investimento real que só pode ser constituído
ao compararmos a receita e os gastos com pessoal. Isso fica evidente na
tabela abaixo quando notamos que o gasto com pessoal passou de 34,28%
da receita líquida em 1995 para 21,68% em 2003
|
Comparativo
percentual dos gastos, com os civis, em relação
com a receita corrente líquida 1995 - 2003
|
| Situação
|
1995
|
1996
|
1997
|
1998
|
1999
|
2000
|
2001
|
2002
|
nov/03
|
| Ativos |
19,91
|
16,27
|
15,83
|
13,47
|
12,59
|
12,53
|
11,85
|
11,28
|
11,80
|
| Aposentados |
10,40
|
8,59
|
8,52
|
8,62
|
7,45
|
6,83
|
6,21
|
5,92
|
6,98
|
| Pensionistas |
3,97
|
3,30
|
3,18
|
3,28
|
2,98
|
2,92
|
2,66
|
2,51
|
2,90
|
| Total
|
34,28
|
28,16
|
27,53
|
25,37
|
23,02
|
22,28
|
20,72
|
19,72
|
21,68
|
Evidente que o debate sobre a proposição
de alteração salarial que, diga-se de passagem, nada tem
a ver com reajuste minimamente real para os servidores é absolutamente
atual. Decerto que a quebra da paridade marca apenas uma das questões
absurdas desse processo. O marketing dos dirigentes da Administração
Pública é o de que os servidores que serão "contemplados"
representam os mais sofridos. Definitivamente isso não condiz com
a verdade, pois, trata-se apenas de uma parte e não da totalidade.
Estão de fora deste arremedo de reajuste os trabalhadores da ANVISA,
os servidores de nível auxiliar e de nível médio
do Meio Ambiente, os servidores do INCRA, os servidores da AGU, os servidores
da Ciência e Tecnologia e os 36.578 servidores dos Ex-territórios.
Todos absolutamente penalizados. Segundo o governo haverá um suplemento
de 500 milhões para atender também os setores aqui citados.
Mas isso até agora não passa de boato e conversas de corredor.
Como se isso não bastasse,
reafirma com essa política a lógica da precarização
dos salários expressa, principalmente, pelas gratificações
de produtividade (ou desempenho). Nossa posição é
clara: defendemos a incorporação das gratificações
aos salários. No entanto, o governo não apenas reafirma
a existência das gratificações produtivistas, como
também chega anunciar que criará a mesma para os que ainda
não as tem, como é o caso dos servidores das IFE's. Atitude
essa, que sob nosso ponto de vista, é absurda e inadmissível.
3. Considerações sobre o diagnóstico apresentado
pelo governo
O governo realizou um levantamento
inicial que dá conta de estabelecer, segundo sua visão,
as principais situações a serem equacionadas. Consideramos
válida a análise, porém insuficiente para estabelecermos
parâmetros para as diretrizes. A partir do que foi elaborado pelo
governo tecemos algumas considerações sobre o diagnóstico
e sobre situações existentes na base de dados da APF que
merecem atenção.
3.1. As distorções nas condições nas condições
de trabalho dos Servidores
O conjunto dos servidores sofreram
os impactos das medidas neoliberais. Basta dizer que apenas para recompor
o percentual de ativos civis que existia em 1995, em comparação
com os servidores aposentados e pensionistas, seria necessário
contratar 260.907 trabalhadores para o serviço público federal.
Registre-se que isso não alteraria qualitativamente o percentual
servidor em relação a PEA, no Brasil, era de apenas 4,2%
em 1999, enquanto na Costa Rica era de 10,8%, na Argentina 11% e no Uruguai
16,1% (apenas para citar países mais próximos da realidade
brasileira). Digamos que para uma alteração qualitativa
teríamos que fazer crescer, em nível nacional (nas esferas
federal, estadual e municipal) pelo menos para 10% o que exigiria contratar
cerca 2.500 mil trabalhadores.
A queda dos serviços é
produto da exigência da ampliação de lucro do capital
que, com a crescente e metabólica crise, tem que retirar do Estado
espaço para o lucro dos capitalistas. Esse movimento é notável
atacou várias frentes: privatizações; terceirizações;
repasse de gastos públicos para os capitalistas; corte de investimento
em serviço público e em servidores. É claro que,
nesse sentido, todos os servidores sofreram o impacto, senão vejamos:
a) foram mais de 56 direitos retirados;
b) foi desconstituída a idéia de
Regime Jurídico Único;
c) se introduziu a modalidade de empregos públicos;
d) substituíram a recomposição
salarial pelas gratificações produtivistas;
e) ampliaram as terceirizações;
deturparam o significado dos estágios;
f) a proporção entre ativos e aposentados
atingiu índices inadministráveis (55,10% aposentados e pensionistas,
44,90% de ativos);
g)os servidores alcançaram perdas volumosas,
que já chegam a 56% e necessitam de um reajuste de 127,30% para
recompor os salários a partir de 1995;
h) há mais de 20 categorias com modelos
e critérios de gratificações distintas;
i) o investimento para os Serviços Públicos
e os servidores, em 2004, é proporcionalmente ridículo frente
ao orçamento: educação - 0,54%; cultura - 0,02%;
saúde - 1,99%; trabalho - 0,05%; meio ambiente - 0,03%; reajuste
dos servidores - 0,15%...
Com tudo isso, não temos dúvidas,
foram os aposentados que mais sofreram o impacto das desregulamentações,
pois, além receberem toda a carga da política geral levaram,
"de lambuja", os estragos das reformas da previdência
e o ataque frontal a paridade.
Já na PEC que teve como resultado
a Emenda Constitucional 20 vários direitos dos aposentados no serviço
público deveriam ser retirados. Felizmente a luta do movimento
foi capaz de barrar os diversos interesses neoliberais. Ainda assim FHC
conseguiu aprovar a alteração fundamental que reduzia o
tempo de trabalho por tempo de contribuição. Tal mudança
atacou todos os trabalhadores e iniciou uma profunda alteração
no conteúdo da previdência que deixaria de ser um direito
para passar a ser uma espécie de "seguro". O trabalhador
para ter acesso a previdência precisaria muito mais que comprovar
que trabalhou, mas sim comprovar que contribuiu, ou seja, guardou junto
ao Estado um valor total que o daria direito a aposentadoria que, por
sua vez, seria absolutamente compatível com o valor "forçosamente
poupado".
No entanto, tudo que era para ser
feito em 1998 ou com as alterações propostas em projetos
de Lei Complementar migraram para a PEC 40 (hoje Emenda Constitucional
41). A mais importante mudança foi a abertura da previdência
para os fundos de pensões, situação que em outros
países já se mostrou desastrosa. Na Argentina, por exemplo,
o Estado deixou de recolher, entre 1994 e 2001, 70 bilhões de pesos
(na época igual ao dólar): 27 bilhões foram para
as AFJP; 15 bilhões para financiar caixas provinciais e 25 bilhões
para caixas privadas pela redução de alíquota das
contribuições patronais. As conseqüências dessa
política apareceram na dívida pública na Argentina
(interna e externa) que subiu de 66.259 bilhões de dólares
em 1993 para 144.279 bilhões de dólares em 2001. Já
no Chile as três maiores administradoras acumulam 38,2% do PIB chileno
e todos juntos acumulam 54% do PIB. Os investimentos externos dos AFP
passaram de 20% para 30%, enquanto as administradoras queriam 40%. As
AFP, por sua vez, passaram de 21 para 7, em uma óbvia formação
de oligopólio, e apenas uma das AFP tem 42% dos associados.
É verdade que além de
abrir a previdência para o mercado privado, o objetivo da PEC 40
era o de desregulamentar os direitos dos servidores (aposentados atuais
e futuros). Movimento esse que aparece na cobrança dos aposentados
e na alteração completa das regras da previdência
impondo, aos trabalhadores do serviço público as mesmas
regras dos trabalhadores da iniciativa privada. Neste caso os aposentados,
sejam eles atualmente aposentados ou os que serão aposentados no
futuro, são os que mais sofrerão, mais uma vez, com todas
as mudanças da contra-reforma.
Podemos afirmar, portanto, que a situação
atual do quadro de servidores é um obstáculo para qualquer
alteração qualitativa dos servidores, pois, as distorções
são profundas demais. Para se inverter essa lógica duas
ações imediatas devem ser realizadas: contratação
de 260.907 servidores para, pelo menos, se retornar ao quadro proporcional
de ativos, em relação aos aposentados e pensionistas que
se tinha em 1995 e aprovar imediatamente as Diretrizes de Plano de Carreiras,
para iniciar as superações de organização
das carreiras e dos salários que existem hoje.
Não adianta se fazer uma listagem de problemas afirmando que existem:
muitos cargos isolados; muitas tabelas salariais; altas amplitudes; falta
de referência para remunerações; 35, 41 ou 51 carreiras;
carreiras genéricas ou específicas; carreiras com 4, 8,
12, 306.551, 135.007 pessoas; 827.452 servidores do poder executivo; 130
autarquias e agências (que são autarquias especiais) e 36
fundações; 33.568 servidores no legislativo ; 103.845 servidores
no judiciário ; 91% dos servidores da carreira de seguridade social,
78% da carreira de fiscal agropecuário, 76% da carreira de previdência,
60% dos técnicos administrativos, 88% na reforma agrária
estão no último padrão da última classe; 65
tabelas salariais (41 NS, 21 NI e 10 NA); variação nas tabelas
de NS de R$ 918,50 a R$ 7.965,97, nas tabelas de NI de R$ 598,03 a 3.735,89,
nas tabelas de NA de R$ 582,11 a R$ 1.021,87; 45 gratificações
que variam de 5% a 600%; etc. Tudo isso apenas serve para reforçar
a denúncia da existência de profundas distorções
nos serviços públicos que, há muito, é feita
pelo movimento sindical. O problema é que tal levantamento sem
uma análise crítica de nada adianta, torna-se apenas uma
lista de constatações sem informações densas
e significativas. Isso porque o levantamento apresentado pela Secretaria
de Recursos Humanos do MPOG se restringe às informações
conhecidas e não apresenta informações importantes
como: número de terceirizados, quantidade de contratos, quantidade
de contratos provisórios, quantidade de convênios, os gastos
com contratações informais (terceirizações,
convênios, contratos provisórios, etc); enfim, o levantamento
não consegue, ao menos, indicar as informações mais
significativas e que não estão disponíveis nos Boletins
de Pessoal e nas Tabelas de Remuneração.
O fato é as distorções
existentes cria situações absurdas. Uma das mais significativas
ocorre hoje na Polícia Federal. Chegam a apontar a distância
salarial composta por 93% por gratificações e 7% pelo vencimento
básico; não dizem, no entanto, que essa variação
média, no nível intermediário, chega a depender de
complementação para alcançar o salário mínimo,
saindo, por exemplo na Classe "C", padrão IV, de R$ 235,28
para compor um salário de R$ 3.743,69.
Com tudo isso, mesmo após a
realização de tal levantamento, o Governo apresenta uma
política salarial que continua sustentada nas gratificações,
ajudando, por exemplo, alastrar tal distorção, existente
hoje na Polícia Federal, para todos os servidores. O peso das gratificações
em relação ao vencimento básico será ampliado
em todos os setores. No caso do PCC, por exemplo, passará a ser,
em média, de 74%. Isso torna cada vez mais distante a possibilidade
de incorporação das gratificações, pois, quanto
maiores, mais impedimentos legais e financeiros haverão para incorporá-las
enquanto permanecer a redação constitucional dada pela EC
19/98 e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso fica mais distante
também a recuperação da isonomia e da paridade, ainda
mais precarizadas com a política salarial deste ano. Situação
essa que para ser corrigida exige, no mínimo, a incorporação
das gratificações aos salários, nos valores dos ativos
para todos (ativos, aposentados e pensionistas) com cálculos do
que falta para se alcançar os 127,30%, chegando-se assim a um percentual
para ser negociado. Do contrário apenas se aprofunda os desastres
criados, em sua maioria, por FHC.
As distorções salariais
abrangem hoje toda a administração Pública. Se não
bastasse a existência da GAE, representando 160% do salário
base do Servidor, foram criadas diversas outras gratificações
e mantidas variadas distorções já existentes.
Tais desacertos, no entanto, não
são para nós apenas ataques aos direitos trabalhistas. Constituem-se,
em última instância, em ataques à Administração
Pública e ampliam todas as distorções já existentes.
As tais gratificações
se escondem ainda nas tais avaliações de desempenho que,
na verdade, não assumem, do nosso ponto de vista, um papel de melhoria
dos serviços públicos. Muito pelo contrário, tendem
a piorar e a alargar ainda mais a lógica de relação
patrimonialista que existe na formação social brasileira,
que predomina em todos os aparelhos de Estado. Para que as avaliações
dos servidores assumam o papel de potencializar os trabalhos da administração
deveriam, necessariamente, estar voltadas para a qualificação
coletiva e individual do servidor. Ou seja, precisariam servir como indicadores
das matérias a serem aprofundadas relativa a funções
e cargos, ao mesmo tempo em que apresentariam indicadores de melhoria
nas condições e relações de trabalho. Isto,
entretanto, não é feito e passa a ser o papel chave das
avaliações a punição de um grupo de trabalhadores
que acabou sendo responsabilizado pelas distorções do setor
público.
Isto, invariavelmente, nos coloca
outro debate. Segundo o conceito da Lei 8.112 os servidores públicos
não são trabalhadores, pois estes são nomeados, não
restando assim uma relação social entre as partes. Fato
que, ao se juntar com a ideologia predominante acumulada na formação
capitalista do Brasil, acabou apresentando as bases de sustentação
para que FHC impusesse as mudanças chamadas de "administração
gerencial", presente ainda nos dias atuais.
De um lado temos um Serviço
Público enraizado em trocas de poder; em que o Estado é
usado como moeda de troca para formação de coalizões
conservadoras; em que os trens da alegria agrupam, em momentos variados,
cabos-eleitorais ou grupos de sustentação de um ou outro
setor dominante. Tais características, no entanto, foram aprofundadas.
Além de não mudarem se acrescenta as mesmas o fato das terceirizações;
dos contratos milionários de assessorias; do desvirtuamento total
dos estágios; da eficiência que se transforma em indicadores
numéricos; do esvaziamento do serviço público, com
um aumento progressivo dos aposentados e pensionistas seguido pela diminuição
sem paralelos do número de servidores. Tais distorções
não estão separadas das distorções salariais,
muito pelo contrário, e um dos indicadores disto é o fato
de que os aposentados não possuem sequer o direito de saboriar
os "bombons envenenados" criados pelo Governo FHC e que agora
são intensificados pela política salarial de Lula.
O fato é que há uma
concentração do problema nas distorções das
tabelas. Elas espelham, de forma concreta e objetiva, o conjunto das distorções
que ficam escondidas por trás da anarquia salarial. Isso fez com
que, muitas vezes, as organizações tratassem o problema
apenas como um problema salarial e corporativo. Fato que, em muito, prejudicou
a ampliação dessa luta e que vários outros setores
democráticos da sociedade enxergassem a destruição
pela qual passou e passa os serviços públicos.
3.2. Amplitudes
Antes de abordarmos as considerações
do governo sobre as amplitudes, convém observar que na Tabela de
Remuneração dos Servidores Públicos Federais, se
os dados estão corretos, é preciso fazer uma correção
no cálculo de amplitude geral por nível.
3.2.1. Divergência com a Tabela de Remuneração
dos Servidores Públicos Federais
No caso do Nível Superior
as faixas iniciais e finais dos Técnicos Administrativos e Maritimos
das Ifes são sempre os valores mais baixos e as faixas dos Delegados
e Peritos são sempre os valores mais altos. Contudo o mesmo não
ocorre nos Níveis Intermediário e Auxiliar. O ato falho
apenas expõe a irracionalidade que pautou a constituição
das tabelas de salários.
No caso do Nível Intermediário
o Assistente de Chancelaria possui o menor salário inicial (598,03),
porém o menor salário final é dos Técnicos
Administrativos e Marítimos das IFES (1.166,22 contra 1.409,47
daqueles). Isso significa que a amplitude entre os salários finais
no Nível Intermediário é de 399% e não 313%,
em comparação com o mais alto salário final que é
5.816,04.
Em termos de Nível Auxiliar
a inversão se dá no topo da escala. No caso, o pessoal da
AGU possui realmente o maior salário inicial, mas não o
maior salário final (1.021,87) que pertence ao Auxliar Administrativo
- Meio Ambiente (1.304,60). Nisso temos uma amplitude final de 91% e não
de 50% como consta na tabela.
Entendemos que essas variações
somente corroboram a necessidade de se reequacionar as amplitudes DENTRO
e ENTRE as carreiras da APF.
3.2.2. Ausência total de razoabilidade
A principal distorção
no âmbito das carreiras da APF é encontrada comparando-se
o salário inicial mais alto do nível auxiliar com o salário
mais baixo do nível superior. O Quadro de Pessoal da AGU, nível
auxiliar percebe 1.021,87 já os Técnicos Administrativos
e Marítimos das IFES, nível superior tem como salário
inicial 918,5. Não há lógica capaz de responder a
uma distorção dessa ordem.
Já havíamos apontado
na mesa que consideramos absurdo o fato de que em um mesmo nível,
no caso o superior os mesmos Técnicos das IFES recebam 918,50 enquanto
a carreira de Delegado e Perito da Polícia Federal recebam 7.965,97.
A situação é
tão escandalosa em relação aos Técnicos que
recebem menos até que uma das carreiras de nível auxiliar.
Sem dúvida existe um problema da maior gravidade a absoluta desorganização
instalada nas carreiras da APF.
Se faz necessário reavaliar
todas as carreiras em relação às suas complexidades
e especialidades e estabelecer parâmetros de razoabilidade.
3.2.3. Carreiras de Nível Intermediário estão
estranguladas em termos salariais
Parte considerável das
distorções no quadro geral das carreiras diz respeito ao
estrangulamento salarial do nível intermediário. Há
uma diferença de apenas 3% entre os padrões iniciais dos
níveis Auxiliar e Intermediário.
Não é um mero acaso
encontrarmos valores muito próximos entre várias carreiras
de nível auxiliar e intermediário. As primeiras estão
em vias de privatização há muito tempo, segundo o
modelo neoliberal, sendo passíveis de terceirização.
Quanto às de nível intermediário, sofrem o efeito
da orientação bresseriana que estabelecia como núcleo
estratégico do Estado somente algumas carreiras de nível
superior.
Ainda que se admita a intersecção
de valores entre as carreiras é inadmissível que não
se estabeleça padrões de vencimentos distintos dos vigentes.
A tentativa de buscar parâmetros no setor privado, além de
atender à visão privatista evidência o absoluto despreparo
para entender as relações do Estado no âmbito público
e de interesse geral. Para não aprofundar as considerações
sobre o mercado que, se fosse parâmetro válido para alguma
coisa além da exploração e expropriação
não estaríamos vivendo uma crise estrutural mundial sem
precedentes no mundo.
3.2.4. Amplitude Geral no Serviço Público
Uma ausência no quadros
do governo é a avaliação da amplitude geral na APF,
que pelos dados apresentados é da ordem de 15,21 vezes. Como a
representação do governo afirmou concordar com o resgate
da ascenção funcional, é fundamental entender a carreira
sob a perspectiva de construção de uma vida funcional menos
restrita. Da mesma forma a razoabilidade entre os diversos níveis
das carreiras precisa tomar como base algum parâmetro objetivo.
Os limites superiores já estão
estabelecidos na forma da lei através do Teto Salarial para o serviço
público. Apontamos algumas situações insustentáveis
em relação aos pisos. Convém lembrar que defendemos
como piso geral para a categoria o salário mínimo calculado
pelo Dieese.
Considerar esses parâmetros
é fundamental para impor limites claros a distorções
futuras.
4. Conclusão
As entidades sindicais dispõem
de informações precárias sobre a realidade do serviço
Público. No entanto a dificuldade em se organizar os dados existentes
fragiliza também a análise do governo.
Um aspecto que não é
possível abordar pela complexidade em relação ao
tempo que dispomos são as políticas de recursos humanos,
hoje pautadas pelo casuísmo de um lado e de outro por iniciativas
inadequadas às funções públicas. Cumpre registrar
a existência em vários setores do que se convencionou chamar
de assédio moral, em que a resposta à ausência de
cuidado na administração para cuidar e estimular as potencialidades
é substituída por atitudes que se contrapõem a vários
dos parâmetros da administração pública, como
razoabilidade, transparência, impessoalidade etc. Convém
não negligenciar que embora existam parâmetros de acesso
mais democráticos no serviço público, questões
de gênero e etnia ainda carecem de um tratamento institucional adequado.
Entendemos que a APF deve pautar de
forma decisiva o desenvolvimento e capacitação. No caso
das avaliações de desempenho é mister considerar
que o plano institucional é determinante para alcançar os
resultados esperados pela sociedade, não há, portanto como
pautar avaliações individuais acima das avaliações
de desempenho geral das instituições.
4.1. Interlocução com o governo
Considerando que é responsabilidade
da administração pública encaminhar no plano institucional
as discussões para solucionar as demandas existentes.
Considerando também que a representação
dos servidores é realizada através de dirigentes mandatados
para encaminhar suas reinvindicações.
Entendemos que as interlocuções
nas mesas e grupos temáticos devem se pautar pelo esforço
conjunto para superar os desafios propostos. Cientes de que estamos lidando
com controvérsias, é preciso que preliminarmente exista
de parte a parte espaço para diálogo franco e sensibilidade
em relação às críticas que são colocadas
na mesa. Sem que existam excessos de suscetibilidade, muito menos arrivismo.
Da mesma forma é necessário
que exista respeito às intervenções e às representações
sindicais. As entidades advertem que o problema anterior vivido nessa
mesma mesa ocorreram sobretudo pela forma inflexível e às
vezes prepotente como a representação do governo se comporta
sobretudo quanto tem interesses contrariados.
É importante frisar que as
negociações dependem, sobretudo da capacidade de construir
consensos e superar impasses.
Nesse sentido as entidades sindicais
ponderam com a representação do governo para que leve em
conta também o perfil de seus interlocutores para que as mesas
não se deparem com impasses antes mesmo que se instale o debate
de conteúdo. Ou que este acabe inviabilizado.
4.2. Limites e Condicionantes da Mesa de DPC.
O
tema Plano de Carreira não é novidade para a maioria das
entidades sindicais. Geralmente antecede a própria CF88, aliás
por essa razão foram pautados os Planos e o RJU já em 1988.
Em relação a alguns dos argumentos colocados pela representação
do governo é preciso observar:
Quando da instalação
dessa mesa em inúmeras oportunidades o governo afirmou que para
o debate não existiriam contingenciamentos de qualquer ordem, seja
financeira, seja legal. A proposta seria discutir as soluções
necessárias para se corrigir as distorções e reorganizar
as carreiras públicas. Entendemos que essa orientação
é correta na medida em que não restringe o debate ao momento
político mas às necessidades efetivas do Estado.
Já na reunião ocorrida
no último dia 15/04, para nossa surpresa a representação
do ministério afirmou que a proposta saída desta mesa deveria
se ater às disponibilidades financeiras. Mais que isso, o governo
não se disporia a sustentar uma proposta que ultrapassasse as responsabilidades
e o prazo de seu mandato. Esta contradição precisa ser esclarecida
pelo governo, sendo que nós já temos nossa convicção
formada.
Em primeiro lugar, se as diretrizes
não contemplam, nem se propõe a equacionar todos os problemas
das carreiras não há necessidades de diretrizes. Compreendemos
esse debate no contexto das políticas de Estado e não meramente
às políticas de governo. Sobretudo porque foram políticas
de turno e restritas aos interesses exclusivos dos mandatos que geraram
as distorções existentes. Essa avaliação nos
parece elementar.
Um segundo aspecto tão evidente
quanto o anterior é que não existe hipótese de uma
redefinição nas carreiras da APF seja realizada a custo
zero. Esta constatação desce à raiz de nossa principal
divergência com o diagnóstico do governo. A irracionalidade
e o despropósito que constituem as carreiras federais, não
são apenas uma situação dada por acaso. Derivam tanto
do casuísmo para privilegiar setores em detrimento de outros, quanto
de uma política definida de precarização das funções
públicas e ataque aos direitos trabalhistas dos servidores.
Corrigir essa situação
significa, portanto e com base na lógica mais elementar, estabelecer
parâmetros para que todas as carreiras atendam a critério
objetivos de conformação, e organização, restabelecendo-se
situações brutalmente distorcidas. Se
o governo em algum momento aventa a possibilidade de nivelar o debate
pela situações já completamente aviltadas, deve ter
consciência que não contará com anuência dos
sindicatos.
Não se corrige essas distorções
por passe de mágica, nem tampouco com votos de boa vontade. Trata-se
de situação material e que compreende soluções
que envolvam todo o Estado, para além até da APF. Reorganizar
as carreiras é reconstituir o Estado ao seu papel social e aos
interesses dos setores que efetivamente dele dependem e a quem suas atividades
se destinam precipuamente. Significa inclusive, reafirmar a esfera pública
do Estado, seguidamente atacada pelo modelo neoliberal, como já
expusemos com a deveida clareza.
Reafirmamos o óbvio, não
se reorganiza as carreiras sem a disposição determinada
do governo, nem sem ônus financeiro para a APF. Do contrário
será produzido mais um arremedo de solução que muito
provavelmente agravará a situação existente.
4.3. As entidades sindicais possuem uma proposta de DPC
Apesar
de consideráveis diferenças sobre concepção
de Estado e organização das carreiras públicas, as
entidades sindicais alcançaram uma formulação, entre
si, consensuadas. Há que se levar em conta que esse esforço
das entidades contempla preocupação que não se restringem
ao poder executivo, um esforço que até o momento não
foi possível pelo lado institucional.
Entendemos que a organização
do Estado, quando se atém aos interesses da sociedade e a critérios
democráticos supera desafios que só existem enquanto persistem
interesses e conveniências distintas do interesse público.
É nesse sentido que as entidades
que se organizam na Cnesf ofereceram à representação
do governo sua proposta, entendendo que diante das bandeiras históricas
que levantamos desde antes da aprovação da CF88, atendemos
a uma série de preocupações.
Cabe ao governo avaliar a proposta,
fazer suas considerações e oferecer as alternativas que
considerar necessárias.
Reiteramos aqui que o atendimento
à pauta geral dos servidores, conhecida do governo desde antes
de sua posse é condição essencial para que avance
toda e qualquer negociação com a representação
dos trabalhadores. Pelos termos aqui expostos consideramos que rever a
política salarial para este ano, aprovar a proposta de DPC enviada
pela CNESF e abrir contratações imediatas pela Lei 8.112
são ações estratégicas e emergenciais para
iniciar a reversão do lastimável quadro do Serviço
Público Brasileiro nos dias atuais.
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