JORNAL DO JUDICIÁRIO N° 189 02/Setembro/2004 Página 7
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CULTURA
- ENTREVISTA COM DORINA |
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“O
samba é um sacerdócio” |
Nascida
no subúrbio carioca, Dorina fala do Cd com músicas de Almir
Guineto, diz que o samba é revolucionário e é discriminado
pela mídia e que na periferia de São Paulo tem samba de
qualidade |

Dorina recebe prêmio de melhor intérprete,
no Festival Fábrica do Samba, de 2003 |
Irajá é um bairro
do subúrbio carioca. Segundo alguns estudiosos da língua
tupi-guarani, Irajá significa onde “o mel brota ou se produz”.
Pela quantidade e qualidade dos sambistas e rodas de samba do bairro,
a palavra mel poderia também ser compreendida de forma metafórica
e poética para designar o que o lugar também oferece: o
samba.
Conhecido por seus filhos ilustres como Zeca Pagodinho e Nei Lopes, Irajá
volta a ser citado nas páginas dos cadernos culturais em razão
da bela voz da sambista Dorina. A voz que canta “os babados”
e os encantos do subúrbio. Nascida e criada em Irajá, Dorina
se formou musicalmente ouvindo os bambas que freqüentavam as rodas
de samba do bairro. Perto de completar 10 anos de carreira, a cantora
lançou o seu terceiro Cd, “Sambas de Almir”.
A homenagem ao compositor Almir Guineto,
juntamente com o show “Suburbanistas” com Luiz Carlos da Vila
e Mauro Diniz, que faz sucesso no Rio, significam para Dorina uma postura
de valorização da estética do outro lado da cidade
— “a idéia é trazer a periferia para o contexto
geral, que não fique em guetos”.
A seguir, trechos da entrevista a Luiz Carlos Máximo (a íntegra está em disponível aqui). |
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Por
que você escolheu o samba?
Às vezes eu acho que não escolhi o samba, mas o samba que
me escolheu. Eu cantei na noite, e cantei de tudo. Mas tinha mais proximidade
com o pessoal de samba, conhecia mais gente do samba. E o samba acabou
me escolhendo, e quando ele pega não solta mais.
Com seu primeiro
cd você recebeu o prêmio Sharp?
Em 1996 eu ganhei o prêmio Sharp como revelação do
samba. Esse Cd saiu pela Leblon Records, que nessa época lançou
outros discos de samba. Meu disco deu certo e foi bem recebido, eles acreditaram
e fizeram discos do Noca da Portela, Delcio Carvalho, Elton Medeiros e
um tributo a Noel Rosa.
“Sambas
de Almir” é seu terceiro cd. Também independente?
É de um selo independente pequenininho chamado Vieira Records,
de um cara que apostou nessa história. O Cd por enquanto está
só nas lojas do Rio, mas pode ser adquirido pela internet na página
www.dorinasamba.com.br.
Você acha que existe uma discriminação da mídia
com o samba?
Eu acho que existe da parte gorda da mídia. Antigamente, o jabá
não era tão determinante como é hoje. Não
era tanto assim. Tocava nas rádios, e se o ouvinte pedisse tocava
mais. Vender 300 a 400 mil cópias, na época, era uma glória,
hoje, tem que vender 1milhão. Agora, que o samba sempre foi discriminado
isso sempre foi. Essa discussão é mais profunda. Porque
eles querem globalizar mesmo. Eles querem que a música brasileira
tenha uma cara igual a qualquer música no mundo, sem regionalismos.
Por isso que nas grades de programação o chamado pop nacional
é privilegiado. Pra vender 1 milhão você tem que difundir
para dois bilhões.
O compositor
Cláudio Jorge diz que o samba é tratado como são
tratadas as pessoas que moram nas comunidades que deram origem ao samba.
Você concorda?
O projeto “Suburbanistas” nasceu justamente por isso. Por
causa dessa discriminação. Então a idéia é
trazer a periferia para o contexto geral, ou seja, fazer com que todo
mundo conheça e não fique em guetos. Quando eu pensei neste
projeto eu pensei nisso. A tal da cidade partida. Escolher Almir Guineto
foi ótimo. E o Almir é maravilhoso. As músicas dele
são difíceis. Quando você pega a música do
Almir pra cantar é um inferno, porque tem umas divisões
e umas subidas de tons que é impossível. O Almir foi revolucionário.
Eu acho o Almir super importante na renovação acontecida
nos anos 80. Todos se espelharam muito nele. A divisão do Almir
é muito legal e trouxe um caminho de musicalidade, de melodia,
diferentes do que era visto no samba. Nasceu dentro do Salgueiro. Também
foi uma homenagem aos 30 anos da carreira dele.
O samba é
revolucionário?
Com certeza. É revolucionário sim. Não é que
você vai colocar um bumbo na mão de uma criança ou
dizer que ela tem que aprender a tocar pandeiro pra ser revolucionário.
Tem que ter, é claro, educação pra poder ter um pensamento
crítico em relação a tudo isso. O samba é
revolução porque guarda uma decência de valores, porque
fala sobre o cotidiano, sobre a vida dos que trabalharam para modificar
alguma coisa em relação a essa geléia absurda e porque
cria uma identidade.
Como você
vê o samba em São Paulo?
O Almir e alguns outros sambistas do Rio, que foram para São Paulo,
têm muita responsabilidade no que está acontecendo hoje com
o samba em São Paulo. Tem uma garotada em São Paulo fazendo
samba mesmo. Não esse pop que chamaram de pagode paulista, que
é uma sacanagem com os paulistas e com o pagode, que é uma
festa do samba e que a mídia rotulou como um gênero musical.
Na periferia de São Paulo tem uma garotada muito boa. E não
é só em São Paulo. Em Florianópolis o Almir
foi padrinho de alguns grupos de samba, interessados em aprender, e que
conhecem tudo. Mas São Paulo já tinha os seus sambistas
que estavam um pouco esquecidos e que estão sendo relembrados.
O projeto de
gravar sambas de Almir Guineto foi então uma atitude frente à
cidade partida?
Foi. Além dele ser um grande compositor e estar fazendo aniversário
de carreira eu o escolhi também por causa disso. Tanto que quando
eu comentava sobre esse projeto faziam umas caretas e alguns comentários
tipo “Mas o Almir? Por que o Almir?”
Foi a percepção
da cidade partida no samba que lhe trouxe a idéia do show “Suburbanistas”?
Veio assim, mas não foi só isso. Estou trazendo dois compositores
do subúrbio que cantam o subúrbio carioca que são
Luiz Carlos da Vila e Mauro Diniz. O Luiz está lançando
o Cd “Benza a Deus”, o Mauro o “Apoteose ao Samba”
e eu com “Samba"e
eu com “Sambas de Almir”. Isso, inclusive, é uma forma
de juntar forças e empenho pra gente poder ter mais visibilidade.
No samba a gente tem que se juntar mais. Esse projeto só soma,
não há divisão.
Alijado das rádios
e tvs, as rodas e shows são a alternativa para os sambistas?
Com os shows você mesmo vende o seu Cd. Você pode chegar a
uma marca legal de CDs vendidos e conseguir o dinheiro para poder fazer
outro. A gente tinha que fazer uma cooperativa de CDs independentes, e
fazer esses shows através dos sindicatos que estão espalhados
por todo o país.
Você apresenta
o programa “Dorina.Samba” na rádio Nacional-AM no Rio.
Como é estar do outro lado?
Tem sido bem interessante. E lá não é o outro lado.
No início me falavam que eu estava brincando de fazer rádio.
Mas eu aceitei fazer o programa para ocupar um espaço pro samba
no rádio. E tem sido muito legal. Rádio AM tem um tipo de
público que tem tudo a ver com o samba. E é muito legal
estar apresentando um programa de samba numa rádio que tem a história
da música popular brasileira, e fazer programas de auditório
trazendo gente nova e as rodas de samba da cidade.
O que é
ser sambista?
Eu hoje posso dizer que sou uma sambista. Eu aprendi que não é
só cantar ou fazer samba, não é só isso. É
uma postura, uma forma de encarar a vida. O samba na realidade como toda
arte é uma doação onde o único retorno é
um certo público agregado sob um certo aspecto da interpretação
da vida. O samba é um sacerdócio. Qualquer tipo de arte
é prejudicada quando só se alimenta por vaidades. Eu caminho.
E como sambista, o povo diz o compasso do meu caminhar. |
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